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O Ato de Matar


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Publicado em 29 de Setembro de 2013

Em 1965, o Golpe Militar na Indonésia assassinou mais de um milhão de comunistas, intelectuais, chineses ou qualquer opositor à ditadura do general Suharto. Anwars Congo e Herman Koto, dois gângsteres que vendiam ingressos de cinema no mercado negro, foram recrutados pelo exército para liderar o esquadrão da morte na província da Sumatra do Norte. Congo, pessoalmente, estrangulou cerca de mil prisioneiros. Joshua Oppenheimer, em O Ato de Matar, revela um país que se funda na glorificação de crimes contra a humanidade e de genocidas, no qual o medo e a violência são a tônica e onde não há nenhum arrependimento, sentimento de culpa ou reconciliação com o passado.

Joshua Oppenheimer propõe a Anwars Congo e seus companheiros que reencenem os crimes que cometeram, da maneira que bem entenderem – e eles escolhem interpretar os próprios papéis (ou, mais perturbador, os papéis das vítimas) em cenas que remetem aos faroestes, aos musicais e aos filmes policiais clássicos de Hollywood. Como lembra Herman Koto, eles odiavam os comunistas desde que limitaram as produções americanas nos cinemas, as que mais lhes geravam lucros no mercado negro.

O procedimento de reencenar crimes com os assassinos não é novidade, Rithy Panh já o fizera em S-21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho. Porém, enquanto o Khmer Vermelho já foi derrotado e seus líderes, julgados, Anwars Congo e Herman Koto são heróis nacionais e falam abertamente na televisão sobre como assassinaram milhares de “comunistas”. Em debate no Festival de Berlim, membro da platéia afirmou que O Ato de Matar seria o equivalente a um filme a respeito do Holocausto sob o ponto de vista de soldados da SS, ao que Oppenheimer respondeu que os nazistas não venceram, ao passo que o governo indonésio contemporâneo só existe devido ao genocídio, à carnificina, aos grupos paramilitares (sobretudo a Juventude Pancasila, com três milhões de adeptos, entre os quais o vice-presidente da república e o ministro dos esportes) e aos esquadrões da morte. Se em Rithy Panh o processo é o de recuperar as memórias das vítimas, que o regime de terror de Pol Pot sistematicamente destruiu, em O Ato de Matar, apesar da incômoda lembrança de Adi Zulkadry, outro torturador, de que há as verdades da Convenção de Genebra e da “Convenção de Jacarta”, do derrotado e do vencedor.

Anwars Congo e Herman Koto não são apenas heróis, como também “pop stars”, verdadeiras celebridades do país. Eles possuem livre trânsito com o governador da Sumatra do Norte, com o líder da Juventude Pancasila, com o vice-presidente. A Indonésia está podre: em exercício de retórica, defende-se a necessidade do gângster para a nação, já que a palavra, afinal, vem do inglês e significa “homem livre”. Em meio a burocratas, são eles que tomam a iniciativa, que exercem a ação. Joshua Oppenheimer explicitamente compara as práticas de Anwars e seus amigos com a do empresário (e também financiador do grupo paramilitar) que, por meio da intimidação e da violência, rouba a terra dos pobres e as “doa aos pássaros”. O Golpe Militar, a ditadura de Suharto e o genocídio de mais de um milhão de opositores do regime foram para assegurar a ordem capitalista. Não há esquadrão da morte sem burguesia.

Talvez na sequência mais grotescamente caricata de O Ato de Matar, o empresário capitalista exibe para a câmera suas pedras preciosas raríssimas e as lembranças que comprou ao redor do mundo, inclusive o peixe que se movimento e canta “Don’t Worry, Be Happy”. A ostentação do poder, a certeza da impunidade, a falta absoluta de qualquer senso moral ou ético e a desumanidade expressas na letra de uma música. Anwars Congo chama os netos para assistirem às cenas em que o avô participa: ele se orgulha do passado, não o renega. Herman Koto surge na tela vestido de mulher, à la Divine (“musa” de John Waters), em sequências musicais delirantes que lembram Tsai Ming-Liang. E se os filhos das vítimas quiserem se vingar? Não importa, Congo e seus amigos já os exterminaram. Mas, caso ainda estejam vivos, também serão mortos. É a Convenção de Jacarta.

O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer (The Act, of Killing, 2012, Dinamarca / Noruega / Grã-Bretanha)

Trailer do filme:

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Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2013



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