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Sobre o Conceito do Espetáculo


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Publicado em 3 de Setembro de 2013

rosemberg

A Moviola conversou com o cineasta Luiz Rosemberg Filho sobre sua produção recente, o curta Sobre o Conceito de Espetáculo. Rosemberg vive no Rio de Janeiro, mas já morou em Paris e conviveu com muitos cineastas que fizeram a história do cinema brasileiro. Ele começou sua vida profissional como jornalista em São Paulo, trabalhou na extinta Embrafilme, no Rio de Janeiro, e depois que começou a filmar nunca mais parou. Nos últimos anos tem produzido curtas metragens de forma totalmente independente, sem qualquer financiamento público, e não faz cerimônia alguma para ser politicamente correto. Rosemberg diz o que pensa e fala de seus filmes sempre fazendo conecções com o Brasil contemporâneo e a pequena política que afeta o dia a dia da cultura nacional. Antes de responder nossa primeira questão, ele cita Paul Valéry: “ O homem quase sempre sabe o que faz. Mas quase nunca sabe o que o faz fazer o que faz.”

 

Revista Moviola – Sobre o que é o novo curta  Sobre o Conceito do Espetáculo?

Luiz Rosemberg – Talvez uma modesta e rica tentativa de confrontar o que a TV e o cinema vendem como informação.  E que, na verdade, é só um processo de deformação e anulação galopante de um possível saber, do público. No cinema de onde venho, hoje, raro são os nossos bons filmes pois a macacada quer é filmar em Hollywood. A bola da vez agora é o canastrão Marcio Garcia com o seu patético Angie, ou Open Road para os gringos! É cinema ou TV? Imagine se logo não passará na TV aberta? E na Globo, né!   Mas… é uma reflexão sobre a história, ou mais um querendo se dar bem lá fora? E se dar bem lá fora fazendo o seu cirquinho collorido onde nada se diz, mas que eles gostam muito dessa maneira de alienação brutal do público. Faz parte do show deles de ocupação econômica, cultural e militar! Adoram os traíras! Levam logo para fazer um filmezinho medíocre em Hollywood. Nosso pequeno trabalho, tenta explicar esses abortos desumanos vendidos como comunicação, informação e cinema! Claro que da nossa parte, o que fizemos, foi o cinema possível de ser feito. O pensamento-pesado aqui, não é muito bem visto. Preferem acreditar no show-atentado da Maratona de Boston, de 2013. Como inventaram e mataram um dos pirralhos chechenos, tidos como suspeitos. O fascismo pode transformar qualquer um em terrorista! No nosso passado recente não foi assim?

Moviola – O filme não repete, de certo modo, alguns caminhos já trilhados como linguagem por você?

Rosemberg – Tento sobreviver ainda pensando nesse país que vive da negação da vida, do saber e do prazer. Não fizemos um filme de excessos linguístico como gostaríamos de ter feito (pois sem dinheiro, não tem milagres), mas de pequenos e delicados movimentos poético ainda possíveis na experimentação. Ora, que significado tem esse ódio visceral do poder a criação e ao saber? Como disse Foucault: “Um discurso inteiramente sem espessura percorre a superfície das coisas”. O saber e a sensibilidade aqui continuam a ser desprezados e impossibilitados de uma vida própria e criativa. Eu não acredito que isso possa mudar. Basta se ver a fuça dos burocratas nomeados em todas as instâncias para cargos na cultura, e que não largam a rapadura. Do Ministério da madame Blond do “relaxa e goza” a Ancine., o lixo predomina com uma força impressionante. Foram e são truculentos, mesmo. Odeiam o saber. Fizemos o filme possível sobre a dor do espetáculo burro que nos domina da TV à política, passando pelo cinema de gabinetes e maracutaias a serviço das velhas múmias patronais, sempre grudadas e defensoras de qualquer tipo de poder.

Moviola – Mas a compreensão da informação não anula de certo modo, o entendimento das imagens, feitas a partir de uma certa noção gráfica das muitas colagens existentes?

Rosemberg – Tudo neste nosso trabalho é conflituoso. O que é dito, briga com o que é visto. Rejeitamos o comum e o fácil da razão que tudo explica: tanto o horror da religião, como uma legitimação da ordem. Ou seja, o visível passa a ser o que se consegue ver e entender, sem demonizar ninguém se não vier a entender. E também é relativo que não se entenda nada. Vinte, trinta minutos suporta-se, né? Eu mesmo quando vi pela primeira vez O ano passado em Marienbad, amei-o sem ter entendido tudo. Hoje acho-o fundamental. Assim como “Carta à Jane”, do Godard, “Terra em transe”, do Glauber, e “Mãe e filho”, do Sukorov. O entendimento vai sendo trabalhado pelo tempo. E é lindo esse processo do trabalho do tempo sobre a nossa existência, pois a sua gênese são as densidades poéticas de uma outra formação, re-significada pelo afeto, pelo saber e pela liberdade poética. Ora, se é certo que todos um dia vamos morrer, não seria mais interessante gozar mais no lugar de rezar? A sensação física dos encontros não foi sempre mais interessante que a arquitetura fechada dos condicionamentos? Nosso cinema – e aí me refiro a Santeiro, Tonacci, Ana Carolina, Zé Sette, Geraldo Veloso, Fernando Campos, Sindoval Aguiar, Leonardo Esteves, Juan Posada, Eduardo Coutinho e Escorel, Leon Hirshman, Davi Neves, Maurício Gomes Leite, Pedro e José Carlos Asbeg, Ricardo Miranda, Abelardo de Carvalho, Joana Oliveira, Wladimir Carvalho, Joaquim Pedro, Paulo Augusto Gomes, Glauber, Carlos Alberto Prates, Ruy Guerra, Maurício Capovilla, Nelson Pereira dos Santos… – não servirá nunca a um mapeamento da cumplicidade de qualquer um deles com o fascismo. Seja ele declarado, ou não. Sabe-se bem que muitos atuam nos bastidores em prol de seus mais baixos interesses econômicos e ideológicos. Claro, todos sem um mínimo necessário de talento. São os defensores de Hollywood, aqui. Já havia dito isso lá no passado, no jornal Crítica. E claro que os velhos oportunistas da época ficaram aflitinhos e raivosos. Depois, foram para o poder e ficaram ainda piores. Ou seja, não é nenhuma novidade. A traição faz parte da nossa história. E no cinema então, ela reina. Faz parte dos constantes financiamentos recebidos que não se pagam na bilheteria, mas que são vendidos como sucesso. O cara é não é bom, mas sempre conseguiu fazer o seu “cinema” com dinheiro público. Nunca arriscou nada. E nem se tornaram cineastas referenciais. Como bem dizia Mario Carneiro: “Eram cineastas com olho duro”.

Moviola – Esse teu eixo de um farto uso das palavras, não te distancia dos teus primeiros filmes feitos nos anos 1970/1980?

Rosemberg – Muda-se, né? São momentos diferentes. Lá no passado eu acreditava em sonhos que não se realizaram. Fui perdendo o encantamento pelo país oficial. O Brasil atual é o que poderia ter sido, e não foi. Venceu o sistema financeiro que legitimou o novelão político, televisivo e cinematográfico. Uma descrença útil tomou conta da comunicação!  Hoje, todos os filmes se parecem. Assim como os partidos políticos e seus discursos vazios. Se o público mais atento é aquele que gosta da “dessubjetivação” de O Palhaço, o que posso eu dizer ou fazer? Na verdade, mais um bom ator que optou por ser uma esquisitice de velho, sem delírio criativo algum. Fico com Djaliho e O Som ao Redor. Pelo menos tentam pensar o cinema e o país que deixou de ser engraçado. Os jovens sonhadores do passado foram transformados e se deixaram  transformar em burocratas de partidos medíocres! Estão hoje nas repartições ligadas à cultura fascistizando o processo de criação. E o Brasil virou isso: papelote malhado.

Moviola – E não existe de certa maneira algum compromisso do teu cinema muito falado com os muitos discursos políticos existentes aqui? Não acaba se  esquecendo tudo que é dito e mostrado?

Rosemberg – São coisas diferentes, não? Há uma certa estranheza invisível,  velha e podre na política, que o cinema não consegue desfazer. Ora, como entender a ministra do “relaxa e goza” na Cultura? E Crivella? E Afif e tantos outros? E  imagina ter que fazer cinema dependendo de Ministério da Cultura, leis, comissões, certificados, distribuidores, baixo orçamento, BR, Ancine, Rio Filme, burocratas… E não muda. Quando muda é para pior. É a lei do “relaxa e goza” da ministra. Achávamos que a Ancine seria diferente da Embrafilme. Piorou. Com o Gustavo ainda se tinha um cineasta ainda que difícil, sensível (pois sempre amei o seu O Bravo Guerreiro) para dialogar. Depois, baixou uma burocracia partidária. Múltiplos ensinamentos de como se ser um fascista sem opinião, e cuja única crença é a certeza de serem boçais obstinados pela ortodoxia do poder, da lambeção e do tacape. Como no stalinismo, querem apodrecer e morrer no poder.   Daí, a perpetuação das múmias grudadas nos cargos públicos ligados ao saber. Quem sabe não acabam ministrinhos?  Não foi assim lá no passado?  Mas não mudou nada? Mas alguém ganha com esse estado perverso e humilhante das coisas. E não é o cinema! Seguramente, esse estado continua trabalhando para os velhos bandidos do passado. Mesmo carecas e de dentadura se recusam a largar o osso. Vão para o túmulo, segurando-o nos dentes! Quanto ao esquecimento, vai depender da vontade de cada um. Mas também o esquecimento é trabalhado como sendo um instrumento necessário do poder. Usam o esquecimento para poderem repetir velhos horrores, mas de maneira diferente. Por exemplo: a censura hoje não é só política como econômica e burocrática. Só filmam com dinheiro público os velhos e novos lambedores, trairas e os sem talento algum. E mais,  os canais de  televisões existentes estão nas mãos dos inventores e poetas, ou do capital e sua ideologia? Ora, do que vive a TV? O que é a TV? Para que serve? Qual a sua contribuição para formação de um país mais maduro? Ela não poderia pensar o saber com alguma profundidade?

Moviola – Mas por outro lado, o conceito de espetáculo não faz parte do mundo globalizado em que vivemos?

Rosemberg – Concordo. Tudo virou espetáculo. Mais recentemente, a invenção do atentado-espetáculo da Maratona de Boston. E também a fantasia dos dois irmãos chechenos, apontados como suspeitos. Um carnaval necessário para o FBI, mídia, Pentágono, Forças Armadas (colocaram no show televisivo para o mundo dez mil soldados fortemente armados) e também para o “bom” Obama que ganhou o prêmio Nobel da Paz e continuou a guerra. Aqui o Joaquim Barbosa querendo reinventar o Brasil, com os “atores” globais aplaudindo de quatro. E isso sempre foi a política em qualquer parte do planeta. Não somos diferentes da Espanha ou de Uganda. Nosso pequeno trabalho Sobre o Conceito do Espetáculo, vai no sentido contrário da “festa” artificial da política. Queremos também um país sem pobreza, sim. Mas também sem burocracia e sem censura econômica. Mas… uma coisa é o espetáculo em filmes sérios e profundos como O Leopardo, Macunaíma, O Desprezo e no Dragão Da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Outra bem diferente é em “filmes” como O Exorcista, Titanic, Avatar, O Homem de Ferro 3, Angie… que representam o império do lixo.

Moviola – Como é esse negócio de duas narradoras num só texto: uma linda menininha durante o dia, e uma jovem durante à noite. Dá para fazer avançar e facilitar o entendimento dos possíveis espectadores?

Rosemberg – A delicada montadora e pensadora Joana Collier, foi quem me despertou para essa possibilidade de usar duas vozes para um mesmo texto. Fizemos isso no delicado Uma Carta, e deu certo. Neste novo trabalho, trabalhei com uma jovem montadora talentosa e sensível que está chegando cheia de som e fúria. A Paula Sancier que foi extremamente delicada e ousada. Deu para o trabalho o seu melhor, e se permitiu inventar e criar ao máximo. Mas não poderia deixar de elogiar a Gabriela Rosa Posada, a Luana Laux, o José Carlos Asbeg, da Palmares, e o velho companheiro de muitas batalhas e frustrações, mas que é gênio: Renaud Leenhardt, que como fotógrafo merecia um livro pela sua cumplicidade com a história e a beleza desse país tão cego e injusto. Sem essas pessoas e mais as que estão nos agradecimentos, eu não teria ânimo para pensar, escrever e fazer. O Brasil vive da morte da verdade, da transparência e da poesia. Sade, aqui, escreveria múltiplos tratados sobre a perversão da política cultural de Sarney-Collor a Dilma, passando por FHC. Todos muito pouco interessados no saber como alimento e formação. A cultura está no Bolsa Família? Não. Ela nunca foi verdadeiramente importante.

Moviola – E como foi o processo de organização do texto com as imagens, quase sempre desconexas e até mesmo opostas?

Rosemberg – Eu não gosto das coisas fáceis. Sou atraído por múltiplas contradições em busca da beleza. O código pobre de uma imagem ilustrando o texto nunca me interessou muito. Isso sempre fez a TV, que atrasou o cinema por algumas décadas. Ou seja, desprezo o novelão, mesmo que do politicamente correto. Gosto da imprecisão, da dúvida, da impureza, da imperfeição, da ousadia… Conceitos Sobre o Espetáculo foi pensado e feito na contra-mão dessa coisa falsa e religiosa das certezas. Foi depois do texto todo escrito que fui pensar e construir as imagens. E Paula Sancier orquestrou tudo com muito empenho e seriedade. É uma inventora na montagem da criação e da vida. Deu a sua contribuição de maneira ousada e poética. É um doce de pessoa.

Moviola – Você acha que o público das novelas vai ter condições de entender essa tua crítica ao conceito de espetáculo?  Não seria forçar uma certa barra para esse público?

Rosemberg – A culpa de um possível não entendimento do grande público não é dele. É do país, do governo e dos muitos burocratas ligados à cultura. Se investe muito pouco num saber mais consistente e ousado. Segue-se temendo o saber e a reflexão.  Para o grande público, só o que lhes é permitido e incentivado, é gostar do futebol do perna de pau do Neimar, enganar a fome, rezar com os Felicianos e Malafaias da religião,  gostar do Ratinho e, por fim,o pão e circo com cachaça e torresminho no bar do Zé Picão. Mas também me permito achar que o grande público pode até não entender um curta do Santeiro ou do Ikeda hoje, mas poderá entender amanhã. O grupo Nós do Morro não levou Shakespeare para Londres, e encantou? O Ponto Cine não está marcando um espaço sólido e sensível para o nosso cinema na periferia de Guadalupe? E não é cinema para passar Avatar em 3D em favela.  Eu acredito muito nisso. Nessa postura de um Brasil nosso e criativo. Ninguém nasce sabendo, certo? O gostar é um longo trabalho de formação e que, na verdade, os sistemas políticos existentes nunca gostaram. É preferível manter o povo burrificado pela religião e pela TV. Aí, vai votar em qualquer Sarney, Collor, Calheiro, Maluf ou Feliciano que aparecer. Pô, Crivella não virou ministrinho, e como Cristo prometendo uma multiplicação dos peixes? Nada pior que essa nossa política de almanaque. Quanto ao povo… basta iludi-lo com a música brega religiosa ou com o sertanejo universitário. É o tal do pão e circo com cachaça e torresminho. Ainda assim, tentamos sobreviver num país grande por fora e pequeno por dentro. Pena.

Moviola – E como é lidar com o não entendimento do público?

Rosemberg – Desde a escola ensinam-nos a lidar com a derrota, perdas, proibições e medos. Aqui só se perde, não é? E em você não sendo político ou bandido, tudo é muito assustador mesmo. Para a mídia o que importa é a saúde da Xuxa, que nunca vai crescer, vai ficar emocionalmente nanica. O triste Galvão Bueno bostejando histerismo esportivo, defendendo o falido “quadrado mágico” que não deu certo.  A invenção dos irmãos chechenos suspeitos de terrorismo no espetáculo de Boston. Os risíveis encontros com Fátima Bernardes e seu estranho sorriso de caveira. As comidinhas da chef Juliana Reis, os Vingadores no tele cine, o “novo” musical do Wolf Maya, a bonequinha fuinha da Sandy, no Vivo Rio, o Luan Santana no show “Quando Chega a Noite”…. Ou seja, é o lixo que nos domina da infância à maturidade na comunicação e formação. Ora, como ser entendido por esse tipo de gente que gosta do quanto pior, melhor? Essa foi sempre a nossa luta: não sermos iguais em nada. Paga-se um preço caro, claro! Mas enquanto tiver forças e amigos, seguirei em frente sem ilusão alguma. O país se contenta em ser culturalmente uma republiqueta dependente. Hollywood aqui manda. E sem oposição alguma, pois vendem o papo da globalização, mas que só serve a eles.

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