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Um retrato de Catherine Rebois


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Publicado em 20 de Maio de 2013

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Em mais um inverno europeu, atravessei o Canal da Mancha, saindo de Londres, para encontrar em Paris a fotógrafa Catherine Rebois. Ela aguardava a minha chegada e de outra amiga da Universidade Federal do Rio Janeiro na Estação Gare du Nord. O trem chegou na hora prevista e ela já estava lá. Fomos à sua casa onde pudemos guardar na memória os primeiros sabores da cidade: queijos, pães e vinho. A conversa sobre sua trajetória, seu ofício e sua arte aconteceu depois. Marcamos um café da manhã e a conversa aconteceu no seu escritório, onde, naquele momento, ela escrevia sua tese para o doutorado em estética e arte contemporânea e concluia o livro Corps Lato Sensu, lançado em 2012.  A obra traz o objeto mais precioso para a fotográfa, o corpo, que ela coloca sempre em questão, com suas medidas, seus gestos não usuais, suas marcas de prazeres e desencantos, fragilidades e força. A chave para comtemplar suas fotos devem começar pela pergunta: o que é um corpo? É partir do gestural, de posturas, da animalidade presente do humano, do erotismo, do real e do imaginário que ela nos propõe uma reflexão.

Mesmo com os cinco graus cravados no termômetro, um belo azul cobria as mansardas da cidade e nossa conversa atravessou aquela manhã. Catherine recordou sua juventude, a influência dos pais, que vem da fase em que pintava. Depois, os primeiros cliques, os trabalhos para o cinema e a experiência com fotojornalismo no jornal Le Figaro, onde trabalhou 17 anos fotografando personalidades francesas e de outros países para o suplemento Le Figaro Magazine.

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Catherine tem uma percepção particular sobre o corpo e as questões relacionadas à existência. Estes elementos são constantes no seu trabalho artístico, nas suas explorações estéticas. Ela registra a nudez do corpo, pessoas que buscam medidas precisas,  marcas do tempo na pele, animais com expressões que nos remetem as sensações mais primitivas, e partes do corpo que buscam um encaixe na própria fotografia, dividida em cenas, partida ao meio propositalmente. Ao contemplar tais fragmentos, tentamos agrupá-los ou encontramos um sentido próprio nos pedaços  de cada momento registrado por sua lente. O real tem outra representação na sua obra. Há um processo de desconstrução e reconstrução do real que tenta acompanhar as mutações do instante, mas não é possível apreendê-lo. Contudo, o existencialismo que percebemos nos seus registros é repleto de humanismo. Este é o seu universo particular e complexo.

De Bonlier à Paris

 

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Desde muito cedo, ela ia com seus pais a exposições, o que, certamente, a motivou a começar a fotografar aos 14 anos. Apesar de ter nascido em Nancy, no período da adolescência, sua família vivia em Bonlier, perto de Versailles. Aos 17 anos, resolve mudar para Paris. Um ano depois, começa a se dedicar também à pintura e ingressa na Escola de Cinema. Esse foi um bom momento para ela, afirma, pois viveu um interlúdio entre a pintura, a fotografia e as imagens em movimento. Catherine reconhece que começou a produzir desde muito jovem, quando ainda não compreendia bem as ideias sobre a vida.

Quando decidiu dedicar-se apenas às imagens, como profissional e artista, sua escolha definiu também seu objeto de estudo na academia. Da licenciatura em artes plásticas ao mestrado em Teoria e Prática de Arte Contemporânea, e o doutorado sobre a experiência na essência do sujeito na fotografia, na Universidade de Paris 8.

Depois que saiu do Le Figaro, onde também começou a realizar suas pesquisas autorais com fotografia, Catherine pôde dedicar mais tempo ao seu trabalho artístico e ao registro da realidade em seus múltiplos aspectos. “A complexidade das coisas me interessa. A simplicidade não. Os extremos sim”, afirma. “Uma foto é um problema. As duas coisas são boas”.

Inspirações

As influências são referências que mudam com o tempo. Catherine acredita nisto e não hesita em listar pessoas que a impressionaram: Duane Michals, Mapplethorpe, Francesca Woodman, Jan Dibbets, Etienne Jules Marey, Pierre Molinier, Dieter Appelt, Miguel Rio Branco, Patrick Tosani e Arno Rafael Minkkinen. O que eles têm em comum, ou melhor, como seus trabalhos dialogam? Por meio da decomposição do movimento, de questões sobre a existência, do corpo interior, dos retratos, dos corpos nus, das imagens fantasmas de corpos, da tentativa de expor a dualidade interior por meio das imagens, das cenas partidas em preto e branco.

Não é por acaso que aquelas personalidades são lembrados por Catherine. Ainda na sua casa, pude folhear alguns livros com imagens produzidas por esses fotógrafos. Numa via própria, o trabalho de Catherine também começa pelo corpo. As imagens que constrói e registra nos provocam, atormentam nossa racionalidade e instintos, aguçam a imaginação e a curiosidade. Diante de cada fotografia, tentamos juntar os fragmentos da ficção que tece, dos personagens que compõe e transforma em corpos múltiplos e plurais.

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“Há coisas que não são fáceis no interior. Uma pessoa não é um bloco, é uma complexidade. Tento evidenciar isso na minha obra”, revela. Nas séries Sobre o corpo e o tempo, Sobre a medida e o tempo, Sobre a animalidade e a identidade, Sobre a identidade e a história, observamos a inquietação na busca do universo interior, na aceitação das mudanças no corpo. A contraposição e as diferenças estão no recorte das duas cenas que fazem parte da mesma foto. O registro entre uma e outra tem um tempo mínimo, e expõem, em alguns casos, mundos paralelos nos personagens que habitam esses corpos. Sobre a complexidade, Chatherine diz: eu sou complexa. O que é simples para as pessoas, para ela é evidente. “As questões que perturbam são simples para mim”. Talvez isso justifique o seu interesse pelos extremos e mostre ainda a influência da psicanálise, que ela considera uma chave para construir e compreender.

Exposições

Catherine participou de mostras em vários países, inclusive no Brasil. Uma dessas ocasiões foi em 2009, quando, junto com mais quatro artistas representativos franceses, participou da mostra Reflexio: imagem contemporânea na França, realizada em Porto Alegre com curadoria de Ligia Canongia. “Realizando as fotografias em estúdio, em preto e branco, sem cenário e sobre fundo infinito, a artista indetermina o lugar desses corpos, situados, pois, fora do espaço e do tempo. Existe, no entanto, uma ‘atividade’ nesses corpos; não apenas na ação do gesto ou da atitude em que são capturados, mas, sobretudo, na forma como são editados. O jogo do duplo é constante na obra de Catherine Rebois”, observou Canongia.

Recentemente, a fotógrafa integrou a mostra coletiva Esprits de Corps, realizada de 2012 até fevereiro deste ano, em Paris. No seu roteiro há ainda um projeto que inclui o Brasil, mais precisamente cenários com personagens do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Mais detalhes sobre essa ideia só terei numa próxima conversa, quem sabe num dos espaços cariocas escolhidos por ela e sob a temperatura dos trópicos.

 

* Fotos cedidas gentilmente pela fotógrafa. A primeira imagem é uma segunda foto de um autorretrato.



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