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Uma conversa com Jeff Nichols


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Publicado em 6 de Maio de 2013

Nichpls

(Londres, Moviola) – Confesso que desde que Jeff Nichols me concedeu uma exclusiva no Festival de Roma em novembro de 2012 (leia abaixo), estava aguardando Mud com muita expectativa. E eis que justamente o filme é sobre criar expectativas. O diretor adianta que, nesta produção, fala sobre o primeiro amor e a primeira decepcão amorosa. “Geralmente, isso marca muito, mas nos superamos. Mud não superou. Ele ficou ligado ao seu primeiro amor”.

O filme foi aplaudido de pé em Cannes em maio de 2012, mas isso não foi suficiente para que fosse distribuído logo em seguida. Nichols precisou ser convidado por Redford, ter exibido o filme em Utah em janeiro último, para agora estreiar no circuito europeu e no norte-americano. É tudo muito simples, muito sincero, muito ribeirinho e como água e raio de sol de fim de tardinha atinge em cheio. Matthew McConaughey dá uma de suas melhores interpretações – se bem que em Killer Joe, ele também se supera. Sam Shepard é uma pedra, uma pilastra de generosidade em cena. E os meninos Tye Sheridan e Jacob Lolland vão ser a nova geração de Conta comigo. Michael Shannon é escolha acertada de Nichols, sempre. Bom, já a Witherspoon, bem, ela tem lá seus probleminhas com os policiais nos Estados Unidos, desacato à autoridade, quando dirigia embriagada e, abordada, disse: “Você sabe quem eu sou?”. Sei não. E ela nem foi tão exigida assim em Mud.

Esse filme é sobre um medo sutil, sub-reptício, não tão explícito e por vezes os jogos de câmera brincam de perseguição predador-presa com os meninos. Diria que Nichols poderia até ter carregado mais no efeito zoom out. Nada está lá por acaso, nem as cobras-d’água, nem a ilha, nem o barco em cima da árvore. Algo está liricamente fora da ordem. E há de se tirar o chapéu para a equipe de Nichols, que controlou a luz externa em todas as sequências ao ar livre para que não houvesse mudança de tom na hora da edição. A gentileza de Nichols com a imprensa parece ser a mesma à frente da equipe. Ele é um cão-guia: vai à frente, mas sabe esperar e andar no mesmo passo de seus companheiros de viagem. Não espere muito de Mud. A simplicidade arrebata por si só.

Entrevista | De Cannes à Roma

Jeff Nichols, cineasta americano de 33 anos cujos dois primeiros longas, Abrigo e Mud, foram aclamadíssimos na Europa, é o presidente dos jurados da Festa de Cinema de Roma. A conversa com Nichols aconteceu enquanto estava absorvido numa maratona de filmes em concurso, eventos e banquetes na capital europeia.

Gostaria que você falasse um pouco sobre a sua experiência no Festival de Roma. Você está se tornando um pouco esquizofrênico com tanta coisa para fazer?

O melhor deste festival são os outros membos do júri. Bem, eu nunca fiz parte de um júri.

Sim. Você é muito novo.

Relutei muito antes de aceitar essa proposta porque não penso que cabe a mim julgar. Acho que meu trabalho é fazer os filmes e deixar que os outros os julguem. Claro, agora eu ainda não posso falar sobre os filmes, porque ainda os estamos avaliando, mas posso falar sobre as outras pessoas da equipe. É mesmo muito bom ter todas estas pessoas inteligentes envolvidas nisso (o iraniano Babak Karim, o diretor australiano P.J. Hogan, o escritor argentino Edgardo Cozarinsky, a atriz iraniana Leila Hatami, a atriz argentina Valentina Cervi e o crítico americano Chris Fujiwara). Aqui a gente fica junto o tempo todo, não é como em outros festivais onde você só tem uma conversa num jantar. Eu sinto como se conhecesse estas pessoas.

Na Itália as pessoas têm este espírito de família. Qual a diferença com Cannes? Você foi bem recebido lá?

Bom, lá não sei dizer sobre os jurados, mas claro, depois de Abrigo, com o qual ganhamos prêmios,  apresentamos Mud. Não ganhamos nenhum prêmio com Mud, mas todos se levantaram para aplaudir. Foi uma experiência muito gratificante.

Pude ver Abrigo ano passado no London Film Festival…

Hum, humm, Michael (Shannon) esteve lá.

Sim. Fiquei muito surpresa com seu filme, pois não conhecia o seu trabalho. Então, desde setembro de 2011, como está a sua vida? Você está fazendo o que quer?

A resposta é sim. Está tudo progredindo. Fiz Abrigo muito rapidamente, veio a público muito rapidamente. E na época eu já havia escrito Mud, tudo foi andando muito depressa. Quando Abrigo saiu nos Estados Unidos, nem tive muito tempo de promover. Fomos para Sundance, para Cannes, fizemos a pré-produção de Mud, Abrigo saindo em DVD, depois levamos Mud para Cannes, foi tudo num crescendo. Senti que neste verão eu tinha que dar uma parada. E houve aquele baque, “E agora?”. Acho que isso é o que chamam de sucesso. Agora, não tenho nenhum roteiro pronto e posso pensar um pouco mais. Um dos meus maiores medos é que vou me render. E demorei alguns meses para pensar no novo projeto. Sabia o que queria, mas hesitei se era mesmo o próximo roteiro de Jeff Nichols, o que antes não me passava pela cabeça. Por sorte, depois de seis semanas de volta à vida normal em casa, passei tempo com minha mulher, meu filho, meu cachorro e aí então disse, ok, agora posso me dedicar a outro filme que goste.

Como foi trabalhar com Sam Shepard?

Yeah! Bem, escrevi aquele papel para Sam (de Mud), e um dos melhores dias da minha vida foi quando recebi um telefonema do meu produtor que disse que Sam tinha lido o roteiro e tinha dito para não mudar nenhuma palavra. Então, isso foi uma grata surpresa para mim. Neste momento, soube que ele havia gostado. Tivemos uma conversa por telefone bem pragmática, como “O que vai fazer com meu cabelo?” E no set, não sei, a gente se deu muito bem. A gente falou sobre música, sobre livros, bem, não falamos sobre peças, porque, de verdade, eu não consegui falar de peças com Sam. Não deu. Ele tinha visto Abrigo e continuava me dizendo o quanto tinha gostado do roteiro de Mud. E acho que isso nos levou para um bom caminho. Ele está ótimo no filme.

Bem, falando de filmes, livros e música, e outras vozes, porque acredito que somos uma soma de todas essas vozes, desde a de um professor na infância, até nossos pais, os filmes que vemos, os livros que lemos, então existem outras vozes dentro da sua voz de cineasta?

Claro. Existem as vozes pessoais, como você diz, como a voz de meu pai, mas também a de minha mãe, embora eles sejam influências totalmente diferentes em mim. Tem também a voz dos meus irmãos, e meu primeiro filme foi sobre irmãos, e eu me apoiei decisavamente nos meus irmãos, em questões como a criatividade, por exemplo. E minha mulher é uma influência enorme sobre mim, bem, Abrigo é basicamente um poema para a minha mulher. E, sabe, tem esses fantasmas que vivem dentro da nossa cabeça, como Larry Brown e William Faulkner, Mark Twain, Flanery O’Connor. E as vozes da música, todo o tempo.

Música do Mississipi?

Não, raramente. Eu me guio, acho até que sou bom nisso, é num certo sentimento musical para o filme, porque entro em transe com a música.

Você recebeu elogios de Scorsese…

Uau, onde você leu isto?

Eu li, eu li. Bem, quando ele filmou seu segundo filme fora da Little Italy, John Cassavetes disse para ele filmar de novo na terra em que ele tinha sido criado, que ele conhecia melhor. Você tem intenções de fazer filmes apenas no Sul dos Estados Unidos, onde é a sua terra, ou você faria algum filme na Europa?

Claro que faria. Eu vou aonde a história vai me levar. Tenho coisas bem específicas para dizer sobre a sociedade americana, e já disse bastante, mas não significa, de modo algum, que eu tenha esgotado com esse discurso. Bem, é como um falcão, sabe. Ele começa a voar em círculos bem devagar, perto do chão, para depois ir cada vez mais para cima. Estou neste movimento agora.

 

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