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“O cinema brasileiro ficou careta”


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Publicado em 2 de Maio de 2013

claudio-assis

 

(Recife, Moviola) – Pernambucano, da cidade de Caruaru, o cineasta Cláudio Assis destaca-se no cenário cinematográfico desde a realização do curta Texas Hotel (1999), um dos cinco curtas que realizou. O diretor consagrou-se com seus longas-metragens, entre eles Amarelo manga (2002). Ele quase sempre opta por assuntos pouco falados no dia a dia das pessoas. Em Baixio das bestas (2006), por exemplo, a trama tem como cenário as usinas de cana-de-açúcar, da Zona da Mata Norte pernambucana. Nesta narrativa, acompanhamos um drama familiar quando, para conseguir dinheiro, um avô promove stripteases da neta para trabalhadores rurais viverem minutos de clímax ao contemplar um corpo virgem. Já em Febre do rato(2011), seu filme mais recente, Assis apostou num poeta urbano, em pleno século 21, que vive num um universo psicológico onde tudo pode. Só agora em 2013, o DVD do filme está sendo lançado nas principais capitais do Brasil. No Recife, o local escolhido foi o Cine PE, o Festival do Audiovisual, realizado de 26 de abril a 2 de maio. Em entrevista exclusiva para a Revista Moviola, Assis fala um pouco sobre o filme e o cinema pernambucano.
Como surgiu a ideia de fazer o Febre do rato?

Algumas pessoas falam que meus filmes são fortes, outras falam que são violentos, ou até outros aspectos, mas eu não acho nada disso. Então eu disse, vamos falar da mesma coisa, só que agora com poesia.  Pegamos um poeta, na voz de um poeta, pois um poeta pode tudo. Ao mesmo tempo, estamos homenageando os poetas imaginários da década de 1970, de Recife e do Brasil, mas nada que seja baseada numa obra biográfica. O personagem realmente existe, mas é apenas o nome, pois é a uma geração de poetas homenageio. Com a Febre do Rato, a gente tentou fazer com que as pessoas tivessem acesso à poesia, com o mesmo tipo de cinema que já estávamos fazendo, só que em preto e branco. E acredito que, mais uma vez, trouxemos um filme com aspectos fortes.

Uma característica dos seus filmes é a não inibição da nudez dos personagens, com a Febre do Rato não foi diferente, por quê?
Lembro que no dia que gravamos uma das cenas da Febre do Rato, em que os personagens ficavam pelados na rua, recitando poesia, vieram dez viaturas da polícia para pegar a gente, mas estávamos com a autorização para gravar, além de a rua estar toda fechada. O impressionante é que você liga a televisão às 7h da manhã e já tem violência, e isso se estende durante as vinte e quatro horas do dia. Violência. Violência. Violência. E então é violento uma pessoa tirar a roupa para um filme? É atentado ao pudor. Acho isso caretice. O cinema brasileiro ficou careta. Eu não coloco sexo para chocar, eu coloco sexo porque conto uma história e a cena entra naturalmente. Todo mundo tem sexo. Todo mundo faz sexo. E quem não faz, pelo menos pensa. Então não vejo problema em explorar tudo numa cena.

Qual a sensação ao lançar o DVD no Cine PE?

O Cine PE realmente foi o lugar certo para o lançamento do DVD, em Pernambuco, pois encontrei amigos que jamais estariam por aqui em qualquer outra ocasião. Encontrei Sílvia Buarque de Holanda, Marieta Severo, Hermano Penna, além de vários cineastas do Brasil inteiro, que não estariam juntos no mesmo lugar, e vieram pelo Festival. Sem contar o público normal, as pessoas que não são estrelas. Foi muito positivo lançá-lo aqui.

O que representa esse festival?

O Cine PE se consagrou. Eu não gosto dessa divisão que se faz que um seja melhor que o outro. Acho que todos os festivais são importantes, porque se existisse uma boa distribuição no país de filmes, se houve mais visibilidade, com salas de exibição para todo o povo, não precisaria de festival. Como são realizados, nós temos que respeitar todos. O Cine PE é importante, assim como o Janela Internacional de Cinema, que acontece todos os anos no Recife, tem seu grande valor.

Como você vê o atual cenário das produções pernambucanas?

Vejo cada vez melhor. Há alguns anos o cinema pernambucano conquista espaço nos festivais nacionais e internacionais. Além disso, conseguimos entrar no cenário das bilheterias, lógico que falta muito, mas estamos indo bem. O que acontece é que não só Pernambuco, mas o Brasil com um todo precisa de muito mais, principalmente, deixar de ser careta. O cinema pernambucano tem uma particularidade, que é o fato de nós cineastas não querermos fazer filmes iguais aos de ninguém. Cada diretor traz suas características que marcam. Então, essa diversidade faz com que as pessoas cresçam também.

Você destacaria alguns nomes desses cineastas?

Não. Acho que nada se resume eternamente numa categoria. Eu posso fazer um filme bom hoje e fazer um filme ruim amanhã. Ninguém tem que por obrigação ser bom a todo tempo. O importante é que tem muita gente fazendo, e como em toda geração, uns vão se destacar, outros não. Isso é comum, não apenas no cinema, mas em todas as artes. Não nasce um Chico Science todos os anos. Não nasce uma Nação Zumbi todos os anos. Não nasce. Não falo apenas de Pernambuco, mas do Brasil e do mundo. As gerações existem, e dentro delas, muitos vão surgir, poucos vão continuar. Poucos vão ser. Poucos vão contar histórias.

Você está trabalhando em alguma produção nova?

Sim, agora resolvi encarar um novo desafio. Pela primeira vez vou adaptar a história de um livro para as telonas. A obra será Big Jato, do cronista Xico Sá, livro que tive o prazer de participar da criação dele, e acredito que será uma parceria que vai dar certo, pode aguardar.

 

Febre do rato

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* Leokarcio Cavalcanti é estudante de jornalismo da UFPE.
Fotografia: Karoline Rodrigues



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