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Samuel Fuller: Se Você Morrer, Eu te Mato


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Publicado em 18 de Abril de 2013

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Após passar por São Paulo e Brasília, a mostra Samuel Fuller: Se Você Morrer, Eu te Mato chega ao Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro, entre 16 de abril e 5 de maio. O evento traz praticamente toda a filmografia do diretor que, no auge do studio system em Hollywood, conseguiu imprimir sua visão peculiar de mundo nos filmes que dirigia, produzia e roteirizava. Mesmo trabalhando gêneros clássicos como o western, o melodrama, o policial e o filme de guerra, Fuller oferecia uma experiência visceral, destacando uma América que não aparecia nos filmes do mainstream hollywoodiano. Ele abordava temas incômodos como pedofilia, loucura e racismo de maneira direta e cortante.

Quando iniciou sua carreira de diretor aos 37 anos, com o longa-metragem Eu Matei Jesse James (1949), Fuller já era um homem vivido. Foi repórter policial de um jornal novaiorquino, escreveu histórias de crime e serviu ao exército americano na Segunda Guerra Mundial. Toda essa vivência pulsa de forma intensa em sua filmografia. Por sua crueza de estilo, foi tachado de primitivo na arte cinematográfica. Se retirarmos o tom pejorativo, o adjetivo é até válido.

Fuller não é um cineasta comedido. Ele não guarda suas melhores cenas, nem prepara o espectador para elas. Pelo contrário, com uma lógica jornalística infalível, ele as exibe sem cerimônia nos primeiros parágrafos do filme, de maneira a agarrar a atenção do espectador. Como um repórter construindo o seu lide, ele inicia seus filmes pelo que mais interessa. O maior exemplo desse estilo é a impactante sequência inicial de O Beijo Amargo (1964), em que a prostituta Kelly (Constance Towers) espanca o cafetão bêbado. A sequência abre o filme em um corte seco e vemos Towers partir para cima da câmera cambaleante, espancando o cafetão repetidamente. Sua peruca cai (puxada pelo próprio Fuller em um dos cameos mais insólitos do cinema) e revela sua cabeça completamente careca. Ela subjuga o cafetão e pega apenas o dinheiro que lhe é devido. Isso antes mesmo dos créditos iniciais. Os “vícios” do jornalismo policial, chocante e sensacionalista, sempre acompanharam o diretor.

Close-ups

A ex-prostituta Kelly, que encontra (ou pensa encontrar) redenção em uma cidadezinha pequena dos Estados Unidos, é uma das rara protagonistas femininas na filmografia de Fuller: ele produziu batalhões de soldados, repórteres obstinados, detetives e bandidos baratos. Em uma cultura maniqueísta como é a americana, o diretor não tem medo de explorar a ambiguidade de seus personagens. Há uma frieza de máquina em seus soldados que não permite uma leitura heroica de seus feitos no campo de batalha. Não se trata de crueldade, mas de mecanismos de sobrevivência. Em contrapartida, o diretor deixa a vulnerabilidade desses personagens explodir na tela em close-ups de rostos rudes, marcados, de barbas mal feitas, pingando de suor. Na linguagem de impacto de Fuller o close ganha uma eloquência raramente vista no cinema. Em O Beijo Amargo, o abuso infantil é revelado somente na expressão dos personagens em cena.

O ator Gene Evans talvez seja o grande rosto dos filmes de Samuel Fuller, com sua barba ruiva, testa franzida e um toco de charuto no canto da boca. O protagonista de Capacete de Aço (1951) – um rascunho vigoroso do que seria a saga militar de Agonia e Glória (1980) – lidera o filme com uma obstinação furiosa, apenas com a motivação de sobreviver a curto prazo. Ele aparece solitário na abertura do filme, o único sobrevivente de um ataque do inimigo, e assim permanece até o final. A sensação de morte iminente não permite que ele crie laços com os companheiros que encontra pelo caminho. Nem mesmo com o garoto coreano que implora por sua empatia. Aqui, como em outros filmes de guerra do diretor, o exército é multiétnico. A presença não estereotipada de personagens negros e orientais por si só expressa a linguagem moderna do cinema de Fuller. No entanto, o diretor vai além ao questionar, através do norte-coreano inimigo, a lealdade desses soldados a um país que precisa de sua força de combate, mas os discrimina fora do exército.

O ar de improviso, percebido nos cenários esfarrapados e fotografia sem contrastes de Capacete de Aço, permeia outras produções de Fuller. Em A Dama de Preto (1952), sua homenagem ao jornalismo heroico feito na Nova York no final do século 19, há um plano-sequência que mostra Gene Evans descobrindo sua redação depredada pela concorrência. A câmera o acompanha enquanto ele caminha irado até o escritório de sua rival, Charity Hackett (Mary Welch), ao mesmo tempo em que os vândalos seguem destruindo suas bancas de jornal na rua. O plano-sequência registra o movimento tremido da grua, que reflete o estado de espírito perturbado do personagem. Imperfeito sim, mas totalmente eficaz. Por outro lado, a câmera febril de Fuller também é capaz de dar um ar sublime ao luto estoico da jovem noiva que se veste de preto para enterrar o marido, assassinado ainda na porta da igreja, em Dragões da Violência (1957). A câmara desloca-se da viúva até Jidge Carroll, que entoa God Has His Arms Around Me, com a mesma serenidade do hino religioso.

Erotismo e violência

O amor não é um sentimento totalmente puro nos filmes de Fuller. Mesmo em seu devaneio romântico mais piegas, quando o sofá de Grant (Michael Dante) transforma-se em uma gôndola passeando pelos canais de Veneza em O Beijo Amargo, a fantasia é interrompida quando Kelly tem uma reação de repulsa ao primeiro beijo do futuro noivo – como se fosse um mau agouro. As cenas de amor do diretor frequentemente misturam erotismo e violência (as bruscas interações amorosas entre Richard Widmark e Jean Peters em Anjo do Mal) ou estão impregnadas de um sentimento mórbido (os amantes interrompidos pelo som de um homem pendurado na forca em Dragões da Violência).

Em Tormenta Sob os Mares (1954), é inquietante a ideia de uma mulher presa em um submarino com um monte de homens do mar, embora o filme trate com tom jocoso os constrangimentos ocorridos nesse contexto. O capitão Adam Jones (Richard Widmark) tem a missão de levar dois cientistas, entre eles uma bela professora, em uma missão que busca provas de um iminente ataque da China comunista. A moça é linda e uma atmosfera explosiva vai se formando com a mistura de bebida, calor e uma certa hostilidade da tripulação que não gosta da ideia de uma mulher a bordo. Widmark, que é mais cafajeste do que herói, a salva de um ataque. Ele ajuda a cientista a se recompor, mas há algo de intrusivo e potencialmente ameaçador no toque de Widmark, que obviamente tem interesse na moça. Seu comportamento ambivalente é análogo ao do bandido Frank Calder (Oliver Reed), no western Caçada Sádica (1971), de Don Medford. Após sequestrar uma professora (Candice Bergen), ele impede que seus comparsas a estuprem, mas acaba ele mesmo violentando a jovem.

Para os que veem desleixo na linguagem de choque de Fuller, é necessário evocar Paixões que Alucinam (1963). O filme tem como protagonista o repórter Johnny Barrett (Peter Breck) que, obcecado com a ideia de ganhar um prêmio Pulitzer, finge ter um desejo incestuoso pela irmã (que na verdade é sua namorada, interpretada por Constance Towers) para ser internado em sanatório e desvendar um assassinato. Fuller, que geralmente aposta no impacto de suas imagens, aqui utiliza uma retórica visual ainda mais exuberante para transformar o manicômio em uma alegoria de doenças sociais, com o estudante negro que profere inflamados discursos racistas ou o brilhante cientista que teve seu intelecto reduzido ao de uma criança de seis anos. Aqui, o roteiro de Fuller é cuidadoso ao construir a escalada progressiva da loucura do protagonista. Também é preciso destacar o sofisticado trabalho de fotografia de Stanley Cortez (O Mensageiro do Diabo, Soberba), com sombras profundas, que obscurecem os rostos dos médicos e deformam os pacientes.



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