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The place beyond the pines


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Publicado em 15 de Abril de 2013

The-Place-Beyond-the-Pines

(Londres, Moviola) – Há pelo menos um motivo por que as pessoas continuam indo ao cinema, mesmo depois de todos os confortos para transportar esta experiência para dentro de casa. Este motivo é: não perca este microssegundo, porque ele não volta. Se for ao banheiro, sussurrar qualquer coisa ao ouvido do namorado, tomar um gole de cerveja, vai se distrair. Vai perder o fio da meada. E é de fios do lado do avesso e de cabeça para baixo que se constrói The place beyond the pines – ainda sem titulo em português, segundo longa de Derek Cianfrance – o primeiro foi Blue Valentine, com o mesmo Ryan Gosling no papel principal.

Cianfrance abre o filme com a tela negra, mas um som de respiração ofegante. Ele quer que você ouça antes de ver. Você só saberá o contexto deste som, do meio para o fim do filme, em que o mesmo som volta, agora com a imagem correspondente. Em seguida, você acompanha a nuca de Luke (Ryan Gosling) dentro de um parque de diversões. Você vai no seu encalço até o globo da morte e entra junto com ele num rodopio de motos que desafiam o senso de equilíbrio. É uma inversão, é o Enforcado, é o lado do avesso que vem exposto, assim como nas camisetas que Luke veste. Não se trata apenas de moda, mas de um detalhe que batiza o filme.

The place beyond the pines te convida a prestar atenção às alternativas que nos restam entre andar na linha e ir atrás do que é importante para nós. O elo de importância aqui é a relação entre pai e filho, tanto de Luke quanto de Avery (Bradley Cooper), que passa a ser o foco narrativo da metade para o fim do filme. Estes fios do avesso da paternidade, DNA escondido no cromossomo Y, não são tão evidentes quanto os de mãe e filho. O afeto, a união, não é de útero, mas de presença, de evidência em atos como o de ser o provedor. É isso o que faz com que Luke decida roubar um banco, e decida repetir o ato, até a sua “moira”, até não poder mais escapar de seu destino de tragédia grega. É isso o que faz com que Avery pegue no colo o bebê sem pai e estabeleça com ele um elo que vai se revelar determinante 15 anos mais tarde.

O filme é extremamente bem cuidado, revelando um preciosismo que vai além da técnica e atinge uma sensibilidade quase “feminina”. Então, o que se espera que seja um lenço na cara do assaltante, na verdade, será apenas para proteger o rosto do anti-herói antes de passar um spray na moto. O seu “lenço” será outra marca, muito mais contemporânea: a do capacete de motoqueiro. Da mesma forma, os paralelismos de construções de cena, em que filhos repetem os caminhos dos pais e por isso são mostrados no mesmo ponto no cenário em momentos distintos.

No processo de pré-produção, Derek disse que aprendeu o timing dos documentaristas para aplicar na ficção. Por isso, seu filme é mais aberto ao inesperado, ao que acontece e será irrepetível, como a experiência do cinema dentro de sala própria para isso. Ele teve, por exemplo, de considerar o fato de que Ryan Gosling teria de aprender a guiar uma moto. Ele teve de respeitar o tempo de concepção, que é tão antagônico àquele da indústria do cinema.

Também sustenta o desconforto de Ryan em mostrar uma tatuagem na face e insistir para que o ator mantivesse esse estado durante as filmagens. O avesso, claro, acaba por se tornar identidade.

A Revista Moviola recomenda The place beyond the pines com muito entusiasmo. Há algo que se quebra neste entremear de fios do lado do avesso, algo muito maior do que simplesmente quebrar a lei.

 

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