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WR: Mistérios do Organismo


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Publicado em 1 de Abril de 2013

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“Este mundo é o campo de batalha entre seres atormentados e agonizantes que continuam a existir apenas devorando-se uns aos outros.”
Schopenhauer (O mundo como vontade e como representação)


Em memória de Paulo César Saraceni.

Muitas são as aberrações políticas do nosso tempo. Daí os discursos, partidos e espetáculos repetidos ao infinito. Ontem o Terceiro Reich. Hoje, uma constante rememoração e reconstrução de fascismos como modelo inquestionável a ser seguido. A revolução de 1918 trouxe o fim de um nocivo conservadorismo social-econômico nefasto. Mas trouxe também a burocracia, o sacrifício, a traição, os assassinatos em massa e Stalin. E com ele uma espécie de universalismo do terror. Ainda assim, isto requer uma explicação: Lênin não compartilhava dos ideais políticos do stalinismo. Não fez a revolução para impor uma burocracia que vive até hoje lá e cá.

Foi o que ficou da autoconsciência histórica da Revolução de Outubro. O sonho da liberdade, da igualdade, da criação e do amor-livre… ficaram como ideais nunca atingidos. Sempre temeu-se mais o sonho, o gozo e a criação que uma possível desnazificação global da política partidária. O mundo vive de uma maneira geral a plenitude de expressão visceral, alguma. O foco é refazer-se todos os dias da mesmice, para continuar nela. E para essa desorganização programada, um mapeamento para a anulação do humano. O ser as avessas negando, e se negando o prazer. E, nesse processo de racionalização do horror, o fascismo e o câncer como ritual e sacralização do crepúsculo teórico-existencial como aspiração máxima.

Nesse sentido a trajetória de Whilian Reich, ainda hoje, nos permite um mergulho profundo numa espécie de reinvenção do humano. E como sabiamente dizia Artaud em sua última aparição pública em 1947: “O Corpo é uma multidão excitada, uma espécie de caixa de fundo falso que nunca mais acaba de revelar o que tem dentro. E tem dentro toda a realidade. Querendo isto dizer que cada indivíduo existente é tão grande como a imensidão inteira, e pode ver-se na imensidão inteira.” Tudo dito até agora está presente como vida no transgressivo e ousado filme do sérvio Dusan Makavejev: WR: Mistérios do Organismo. Uma soma infinita de imagens-ação articulando caminhos e interferências nessa luz negra visível, desse nosso tempo de guerras, ditaduras e fome.

Um esforço poético para reinventar tanto a vida como o cinema que já foi mais criativo e ousado. Aqui então, com as constantes mortes de Glauber, ele se tornou colonizado, rasteiro, televisivo, comum, espetaculoso e medíocre. Baixem da internet esta performance poética e política bem humorado, do que já foi um dia o cinema: uma celebração da resistência e da vida. A nobreza de um cinema de linguagem! Neste delicado filme ainda no governo independente de Tito, Reich surge na Alemanha com o movimento operário da Sexpol. Um pensamento prático e político de fundo poético e materialistas. Sendo o gozo como uma questão fundamentalmente necessária e abrangente da militância operária.

De nada valeria uma revolução sem uma interconexão com a liberdade e o prazer. Do contrário se persistiria num enraizamento profundo da covardia, do oportunismo e do medo. Por que foi que transformaram o “amor” num tema rasteiro de todas as novelas na TV? Eis uma questão para se pensar o nosso fascismo. Leia-se aí, a nosso miséria cultural. Ora, o que representa as populações no jogo político e econômico do mundo? Só massa de manobra? Mas essa percepção imediatista, não é um tanto quanto contemplativa? Ou seja, digamos que é preciso ultrapassar o lado cômico-grotesco dos homens públicos. E sejam lá de que partido for pois no fundo são todos iguais.

Ousaríamos dizer que a plenitude de qualquer experiência passa por rupturas mais que necessárias. E esse viés rompe com a família, a escola obrigatória, a religião, a comunicação e o Estado santificado como lógico, e não como o horror dos “novos” tempos. O ritual sagrado da criação deu lugar ao divertimento burguês de vazios, e dando-se amplitude revitalizante, hoje, à TV. Televisão que passou a ser o espaço privilegiado de construção de fascismos. Como abdicar de falsas certeza com Datena, Malafaias, Xuxa e Ratinho? Mas são sensibilidades humanas, ou apenas negócios? O tempo em que vivemos está impregnado por uma ação epidêmica de contaminação de horrores. O horror da produção e do consumismo. O horror das religiões e da política. O horror da falsa comunicação e do não-prazer sem sonho algum. Digamos que nesse enclausuramento empobrecedor, fica difícil esmiuçar uma mínima experiência de gozo, saber e liberdade. E enfatizar isso é de certo modo rechaçar o apodrecimento em vida, e tornar seres mais capazes de agirem sobre o real, o prazer e o sonho.

Ora, que sentido humano têm os maus “atores” religiosos assegurando na TV, o fim das desigualdades e da fome no paraíso? E na verdade vendendo uma exaltação da culpa, do medo e da morte. O povo propositalmente deseducado e primitivo aplaude sim, essa escancarada intensificação de fascismos. Como não menosprezar o turvo e vencido José Serra, por ir buscar apoio com um histérico mistificador religioso, sempre na TV? Um fundamentalista indissociável de uma visão arcaica da humanidade. Sagrado, nossos leitores é a vida, o prazer, o gozo e a tão combatida revolução como linguagem e poesia com suas pontes e raízes dionisíacas. Tudo mais, é um mal teatro sinalizando a domesticação do humano.

Na verdade o filme de Makavejev é um documento orgânico sobre a orgonoterapia do mestre alemão Wilhelm Reich. Perseguido em todo mundo. Preso, torturado, humilhado e morto nos Estados Unidos pelas experiências naturais e científicas em torno da liberdade e do prazer, e como uma justificação do trabalho em seu valor de uso e não de troca. Como existência e a valorização do ser. O que ele definia como um abraço, o mais afetivo, entre o ser humano e a natureza em seu sentido cosmológico. Com sua imensa e expressiva obra sendo inquisitorialmente detonada em locais públicos na América. Exemplo de que a liberdade é vigiada e punida e só quem a exerce é o poder. Político e ideológico depois da massa social fermentada para ser também exterminada.

Filme de 1971, três anos após o nosso Ato Institucional Número 5. E das tropas de elite de ocupação e posse de todos os nossos espaços e direitos. E de nossa liberdade de ação e de movimentos. Quase 40 anos antes da ocupação de favelas e de locais públicos, e de mortos pela paz. Tudo documentado por eles mesmos, em “filmes” que correm o mundo nos tendo como os exemplos da modernidade. Período não tão distante de um solipsismo  (o do eu de hoje) em que nos dizem como viver, o que ver e, quem morrer. Sabedoria que vai da excrescência à excedência, antes da solução final.

Nem tanto pelos méritos do filme mas, Wilhelm Reich é sempre Reich. Ontem e hoje. Até mais revigorado pela lucidez do conhecimento e da sua crítica de cultura histórica, que nos deveria tocar como um patrimônio tombado e não expropriado como o que fazem com a cultura nacional já edificada e sendo exterminada. Reich, assassinado pela vida e, assassinado com a vida. Mas a vida é assim, como ele mesmo afirmava: Retorna e nos faz ver. Que ela sofre mais pelos males engendrados pelos seus assassinos do que pela morte mesma! Esta foi a morte de Reich. Por lutar e comprovar que a vida tem que ser um abraço entre a liberdade e o prazer. O que não permitem. E Reich sentiu a nostalgia da luz e a revela em momentos desse filme onde nada pode ser absolutizado; e pouco conhecido, assassinado pelas telas e pelos donos da verdade! E que agora renasce graças à internet e aos wikileaks. Para arrancar a máscara de toda nossa inocência. E definir que já sabemos o que estamos fazendo. Ocupando. Tomando posse. E assassinando.

Nos atrevemos a registrar em poesia (de Sindoval Aguiar) e simbolicamente, o sentido orgônico reichiano. Uma luz silenciosa e quente que está em nós, que não pode se apagar. Melhor mantê-la acesa pelo O silêncio das estrelas: “Há uma luz silenciosa e quente/ Nas estrelas/ E que só é/ Para quem sente e vê/ Diante da gente/ Luz que é/ Espelho e espessamento/Semovente/ E quanto mais além/ Mais a gente sente/ Silenciosa e quente/Um além que pode ser aqui/Bem à nossa frente/Na multidão leniente/Prisioneira da sorte/Dependente/ Flagelando a vida/Por tudo o que ignora/E que dá ordens/Para o flagelo e a morte/De tudo o que poderia ser/Diferente e vida/Brilho silencioso e quente/Cor e calor/ Silêncio e música/ Na gente.”

Reich nos desperta sabendo que o mundo adormece, foi assim no fascismo, foi assim nas ditaduras, tem sido assim hoje: adormece quando mais precisamos de sua vigília nos sonhos, nas fugas, nas traições e em tudo o que fazemos com a vida. Mortes e assassinatos, como paz; abraçando as tropas que ocupam e se apossam para um culto a uma nova colonização: a dos meios de ocupação e produção! Enquanto todos dormimos. E nos omitimos. Com medo da liberdade e do prazer como definia Reich. E sem o sentido amoroso do abraço, da luz silenciosa e quente. A construção de um “patrimônio” como cultura, o que nunca permitiram, pelo medo das mudanças estruturais e profundas, celebradas nas estrelas.

Cicatrizes e imagens, podem definir o material sobre Wilhelm Reich, oportunamente trazido nesse preciso filme de Makavejev, renegado pelo tempo. E que o tempo oportuno da internet revigora. O vemos como um patrimônio cultural inestimável, neste mundo de horror das telas. Reich revigora o tempo velho e mais ainda o nosso tempo político difícil de sucumbir e difícil de ser entendido. Tempo que se beneficia da velhice e cujo patrimônio é o horror civilizatório das elites e dos bancos. E que tudo toca como perigo e selvageria porque o único patrimônio capaz de resistir é o da cultura e eles sabem exceder, para negligenciar. Nas campanhas políticas, nos espetáculos, nos mecenatos.

Em nossos movimentos políticos, econômicos e culturais, nada sabemos de princípios e de fins. Nos satisfazemos com os meios. Os produtos, o fetiche, a imposição do consumo. Uma distorção da sedução dos desejos, como prisão e massificação. É a força irradiante e distante do conhecimento, longe do patrimônio cultural de formação, contribuindo pare reprimir o avanço social mais importante, o da auto-sustentação na marginalização, evitando a barbárie e, evitando a centenária massificação do povo pronto para ser comido, mesmo sem ser cozido ou assado e, sendo insuflado e conduzido para que alguma ideia ou alguém, pelo que ele não pode entender, seja comido antes. Na mais contundente e festiva aparência do espetáculo da informação/desinformação. Dos princípios e dos fins!

O filme de Makavejev, que é sobre Reich, nos leva a entender que o nosso tempo está mais do que comprometido. E nós com ele. Admitimos que os espectros não podem mais nos assustar. Porque já é tempo de comprometimento para sabermos do que está acontecendo. Nada nos falta para isso: religião, fascismos, democracias, ideologias e tiranias. Esta a atualidade de Reich. A de ontem e a de hoje. Atualizadas, neoliberalizadas e globalizadas e, mais excedentes em ignorância e massificação. Como advertia o próprio Reich: “… O mal não é arrastar-se na rotina durante séculos; o mal são as ideias dos reformadores ou mesmo a miséria da multidão; o mal é o desastre que se abateria sobre o mundo quando os abutres da liberdade alçarem suas asas perniciosas e enviarem aos mais longínquos recantos do mundo seus mascates da liberdade…”

Reich só não previu que mais perigoso do que tudo, sem princípio entre meios e fins, é que todos nos tornamos produtos; e que os intelectuais além de esclarecidos, se tornaram também déspotas e ímprobos em sua maioria! Pelo capital excedente e quente das mortes, pela Paz!

Clique para ver cenas do filme

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