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Anna Karenina


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Publicado em 15 de Março de 2013

Anna Karenina, de Joe Wright (Anna Karenina, 2012).

Apesar de a história de Anna Karenina ter sido adaptada várias vezes para o cinema e para a televisão em pomposos dramas de época, há elementos na prosa de Tolstói que não pertencem a esse gênero, tão obcecado em produzir um registro fidedigno que às vezes se esquece de projetar vida à história. O autor russo tem a habilidade notável de encerrar em frases simples as ideias e os pensamentos mais complexos. Sem usar de malabarismos sintáticos, ele consegue universalizar o que é íntimo de seus personagens, despertando a empatia do leitor. Mesmo em Anna Karenina, que desenvolve temas delicados como adultério, paixão, moralismo e hipocrisia, o autor os apresenta sem julgamentos. 

Com sua prosa despretensiosa, Tolstói revela o complicado equilíbrio social da Rússia czarista, em que não há lugar para Karenina, uma mulher adúltera, que sai da casa do marido para viver com o amante, Conde Vronsky. Não que o adultério em si fosse rechaçado pela alta sociedade – quando levado casualmente, era encarado com indulgência -; mas o pecado de Karenina foi justamente o de ter se entregado ao caso.

A versão de Anna Karenina do diretor Joe Wright (Desejo e Reparação), que abandona a ideia de realismo histórico e parte para a estilização, guarda um preciosismo que chama a atenção em si mesmo – até demais em alguns momentos. Wright utiliza um teatro abandonado para encenar a tragédia de Karenina. Os personagens ocupam as várias dimensões do teatro – palco, plateia, coxia – e as cenas se sobrepõem em uma montagem que mistura a inclinação de fazer a história seguir sempre em frente, com ênfase na ação – típica da narrativa cinematográfica – , com o tempo teatral, assentado no presente. As cenas parecem se fundir umas às outras em um ritmo ora fluido, ora atabalhoado.

A apresentação dos personagens é confusa. Assim como no livro, o filme abre com Oblonsky (Matthew Macfadyen), um chefe de repartição pública que convoca a irmã, Karenina (Keira Knightley, sempre ela), para convencer sua esposa, Dolly (Kelly MacDonald), a não deixá-lo após ter descoberto seu caso com a governanta. Ainda sem saber até que ponto Wright incorporará o teatro à sua linguagem, é difícil entender a montagem, que em um só fôlego apresenta Oblonsky – e sua numerosa família em Moscou – em um extravagante cenário teatral, revela sua traição, consumada nos bastidores empoeirados do teatro e, paralelamente, mostra Karenina em São Petersburgo se inteirando da situação através de uma carta, enquanto é vestida por sua criada em um ritual coreografado. Ambicioso, o diretor, que gosta de exibir sua habilidade em complicados planos-sequência,  bombardeia o espectador com uma quantidade de informações estéticas e narrativas difíceis de digerir logo no início do filme.

Por outro lado, a estilização assumida por Wright ajuda a expressar nuances do romance de Tolstói que dificilmente podem ser percebidas no drama histórico convencional, em especial nas cenas de sedução entre Karenina e o conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). Em seus melhores momentos, Wright consegue conduzir a atenção do espectador, destacando olhares e gestos significativos em meio à complicada mise-en-scéne que desenvolveu. A linguagem teatral contribui, abrindo possibilidades para uma iluminação que foge do lugar comum, além de adicionar a coreografia à interpretação dos atores, elemento trabalhado por meio da belíssima trilha sonora de Dario Marianelli. A sequência do baile, em que Karenina e Vronsky dançam pela primeira vez, para o desespero de Kitty (Alicia Vikander), apaixonada pelo conde, reúne com maestria todos esses elementos. É o início do flerte entre os protagonistas: no entanto, a eletricidade entre os dois é tão intensa que a sequência é conduzida como um adultério em si.

No espetáculo de Wright, o contraste entre a simplicidade da vida no campo e a sufocante atmosfera da alta sociedade – tema desenvolvido por Tolstói em Anna Karenina, mas que nem sempre ganha espaço nas adaptações – é representado através da fuga do ambiente teatral. O cenário artificial se abre para os campos da fazenda de Levin (Domhnall Gleeson), iluminados de maneira romântica. Nutrindo um amor sincero por Kitty, Levin, que no romance representa o alter-ego de Tolstói, é o único a não deixar as rígidas convenções sociais contaminarem sua essência.

Vale destacar que esse é o elenco mais jovem à dar vida ao clássico de Tolstói, comparado às adaptações famosas do cinema. No entanto, Keira Knightley não deixa essa diferença de idade se transformar em desvantagem. Em uma interpretação mais expressionista do que a de suas antecessoras – a personagem já foi vivida por atrizes como Greta Garbo, Vivien Leigh e Sophie Marceau -, Knightley compõe uma Karenina impetuosa, menos disposta aos jogos de dissimulação da aristocracia, mais entregue à sensualidade. Aaron Taylor-Johnson, por sua vez, em uma performance cheia de maneirismos, confere uma ambiguidade interessante a Vronsky. É difícil definir as intenções por traz dos gestos coreografados do personagem, que oscila entre conquistador calculista e amante devotado.

Jude Law é certamente o melhor Karenin entre as adaptações do cinema. O marido de Anna, um ministro conservador e admirado na sociedade, geralmente é relegado ao segundo plano, interpretado como um homem frio, afetado e, por vezes, cruel. Law dá vazão ao dilema moral do personagem que, religioso, tenta resgatar a mulher da perdição, ao mesmo tempo em que lida com a mágoa que resulta do orgulho masculino ferido pela traição.



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