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Hitchcock


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Publicado em 27 de Fevereiro de 2013

hitchcock

 

(Londres, Moviola) – Este filme é o que há de mais audacioso na mais tradicional e superestabelecida indústria de cinema. Esta Hollywood apostou em dar de bandeja a um diretor estreante, Sacha Gervasi, um roteiro impecável sobre um instante brilhante na vida de Hitchcock: o momento em que filma Psicose. Dizer que Hitchcock é o mestre do suspense é, para mim, muito pouco. Ele foi o gênio que mais influenciou o cinema atual, de Almodovar a Lynch, de Truffaut a Scorsese. Quando Hitch se transferiu para Hollywood, ele mudou a história daquele sistema. Antes dele, os filmes eram dos estúdios (vide E o vento levou…, que teve cinco diretores). Porque fazia seus filmes em menos tempo e economizando o orçamento inicial, ele ganhou notoriedade e, a partir dele, começou-se a falar em cinema de autor. Nos últimos anos de carreira, Hollywood já não era a dona do pedaço: houve uma série de cinemas novos pelo mundo, que inverteram os valores das grandes divas para os dos anti-heróis, da pessoa comum e até do imoral. Hollywood depois de Hitchcock teve que se reinventar, chupando narrativas de quem era fascinado pela TV, como Spielberg e Lucas.

Dito isso, como recriar Hitchcock 30 anos depois da sua morte? Sim, é óbvio que contar com a tarimba de Anthony Hopkins é já meio jogo ganho. Mas não basta: é preciso jogar luz com um humor mordaz. Todo filme de Hitchcock trata o espectador como pessoa inteligente. Ele te desafia a descobrir, te desafia a seguir seu raciocínio, te desafia a entender um humor inteligente. Nesse aspecto, este Hitchcock, cujo roteiro foi escrito por John J. McLaughlin (Cisne negro), respeita e até transcende. Não se ri com a bílis, mas com as têmporas.

É preciso também criar um clímax, brincar com a atenção do espectador, fazê-lo ir propositadamente na direção oposta, para então surpreendê-lo. Aqui, talvez, Gervasi precisasse de uma Alma Hitchcock. Excetuando um ou outro instante, por exemplo, quando aparece a sombra rotunda do Mestre por detrás da tela, ou mesmo na cena em que Hopkins incorpora o Norman Bates e esfaqueia não só Janet Leigh (Scarlett Johansson), mas todos os seus fantasmagóricos rivais de sua megalomania, Hitchcock falha por não ter um ponto ápice.

Está certo, eu admito que, para um fã de Hitchcock, pode dar um certo frenesi rever os créditos ao final ao estilo dos de Saul Bass. O detalhe em Hitchcock é o mais importante. Mas veja só: neste filme não há uma morte!

Se eu fosse você, gozaria da cumplicidade com que Hopkins e Helen Mirren (a sua Alma) dividem as cenas – dizem que os atores são bons amigos. Gozaria também com a pudicícia de Johansson, se é que esta antítese pode sobreviver. É só lembrar que, na época, nudez em cinema não se via mesmo. A cena em que Leigh está de sutiã em Psicose foi uma audácia hitchcockiana. Quanto a mim, sublimei todas as referências ao freudismo, também muito presente em seus filmes, e gravei na cabeça que, mesmo aos 60, Hitchcoch queria arriscar, inovar, reviver aquela sensação da juventude, permitir-se um grande fracasso, mas mergulhando com tudo no seu projeto pessoal e psicótico. Não é isto o que a gente espera de um artista?



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