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O Lado Bom da Vida


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Publicado em 1 de Fevereiro de 2013

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O Lado Bom da Vida, de David O. Russell (Silver Linings Playbook, 2012)

David O. Russell sempre se mostrou atraído pelo disfuncional e, em sua filmografia, vem explorando – com resultados interessantes – tanto o aspecto cômico (Huckabees) quanto o aspecto trágico (O Vencedor) da questão. Em O Lado Bom da Vida, adaptado do livro de Matthew Quick, ele opta por mesclar os dois pontos de vista. Russell nos leva ao centro da confusão mental dos personagens principais, criando situações desconcertantes, que ora despertam pena, ora levam ao riso. Ao contrário de Pequena Miss Sunshine, que celebra com ingenuidade reconfortante as esquisitices da família protagonista, Russell parece não ter ilusões em relação a seus personagens.

Ele nos apresenta Pat (Bradley Cooper) no momento em que ele está deixando o hospital psiquiátrico, onde passou oito meses internado após um surto desencadeado pela traição da mulher. O fim da internação não significa o fim do tratamento. O ex-professor ainda tem um longo caminho até tornar-se socialmente apto novamente. A mudança para a casa dos pais, Dolores (Jacki Weaver) e Pat Sr.(Robert de Niro) – um torcedor fanático do time de futebol americano Philadelphia Eagles – e a reabilitação não acontecem de forma pacífica. Obcecado pela com a ideia de reconquistar a ex-mulher e recusando-se a tomar seus medicamentos, Pat tem explosões violentas e se conduz de maneira descontrolada. Nessas condições, ele é convidado para um jantar na casa do amigo Ronnie (John Ortiz), que vive aquele conhecido desespero silencioso da vida suburbana com a mulher Veronica (Julia Stiles). Lá ele encontra a irmã de Veronica, Tiffany (Jennifer Lawrence), uma jovem viúva que teve um surto ninfomaníaco após a morte do marido.

E é nesse ritmo turbulento que Russell inicia O Lado Bom da Vida. A câmara inquieta acompanha os monólogos raivosos e surtos de Pat, que altera-se pelas razões mais aleatórias – seja o final inaceitável de Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, até a música de seu casamento My Cherie Amour, de Stevie Wonder, que funciona como gatilho para suas reações mais intensas. A trilha sonora, inclusive, dita o ritmo de algumas cenas importantes, como o momento em que Pat acorda os pais no meio da madrugada em busca do VHS de seu casamento. Ao som de What Is and What Should Never Be, do Led Zepelin, vemos Pat perdendo progressivamente o controle – assim como a canção alterna o vocal suave de Robert Plant com o refrão pesado e repentino.

Pat tem um conceito baixo de Tiffany – algo que ele deixa claro com sua forma truculenta de se expressar. Tiffany, por sua vez, é manipuladora e parece até mais perigosa do que Pat, por ser totalmente imprevisível. Ela é capaz de convidar Pat para fazer sexo sem o menor constrangimento depois do jantar desastroso na casa da irmã – convite que ele recusa prontamente para manter-se fiel à esposa – e mostrar a maior timidez quando o chama para ser seu parceiro de dança em uma competição.

O roteiro de David O. Russell é engenhoso ao entrelaçar os três elementos-chave no filme: a bipolaridade dos protagonistas, o fanatismo do esporte e a dança como a maneira que os protagonistas encontram de interagir. Jennifer Lawrence é um fenômeno, fazendo as transições entre os diferentes estados de humor de Tiffany com a graça e a estranheza que definem o personagem. Bradley Cooper encontrou o tom perfeito para Pat, que intimida pela força física, mas beira o patético com seu otimismo desmesurado.
De Niro volta a impressionar com sua interpretação do pai apostador, que chegou a ser banido dos estádios por comportamento violento. Por meio de gestos discretos, entendemos a dimensão da loucura de Pat Sr. pelo time. E não é apenas fanatismo – além de supersticioso, Pat Sr. tem transtorno obsessivo compulsivo em relação a tudo que envolve futebol – para ele, os Eagles vencerem os Giants é uma questão tão real quanto os problemas domésticos.

Se o filme inicia no mesmo passo irrequieto que reflete o estado mental de Pat, a trama vai se ajustando em um ritmo mais convencional a partir do momento em que o relacionamento entre Pat e Tiffany fica menos tempestuoso. O roteiro, (ironicamente) muito bem equilibrado, quase consegue mascarar o fato de que O Lado Bom da Vida é basicamente uma comédia romântica, que beneficia-se de um excelente trabalho de atuação e direção.



1 Commentário sobre 'O Lado Bom da Vida'

  1.  
    Brenda

    27 Abril, 2013| 8:33 pm


     

    Estava procurando o nome da música do casamento e achei este site incrível! Muito bom o filme!!

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