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Lincoln


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Publicado em 31 de Janeiro de 2013

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(Londres, Moviola) – Não sei se foi a reeleição de Barack Obama ou um estranho fenômeno de inconsciente coletivo nos diretores norte-americanos, mas o fato é que dois dos mais populares deles estão em cartaz com filmes sobre a escravidão nos Estados Unidos. Tanto Lincoln, de Spielberg, como Django livre, de Tarantino, tocam na ferida aberta da sociedade do Tio Sam, embora com o dedo diferente. O primeiro vai com o mindinho; o segundo enfia mesmo o dedo na ferida como na pintura “A incredulidade de S. Tomé”, de Caravaggio.

É já notória a dedicação, a obsessão, a fixação que Daniel Day-Lewis desenvolve durante a caracterização de seus personagens. É algo que lhe valeu a marca histórica da possibilidade de ganhar quatro Oscars este ano. Então, para que mudar o jogo?

Day-Lewis recusara veementemente os convites de Spielberg para interpretar o presidente americano durante os anos da Guerra Civil, mas acabou cedendo. Ele mesmo esclarece à repórter da BBC News: “Acabou meu estoque de desculpas. Mas isso tem a ver com o passar dos anos e a compreensão de que Lincoln era um personagem histórico extraordinário”. De fato, tão extraordinário que em suas biografias destaca-se o timbre de sua voz, como algo quase incompatível com a sua estatura física e a sua imponência. O ator explica como achou o timbre certo para Lincoln e mandou-o numa fita k-7 para o diretor de ET: “As pessoas que conviveram com ele diziam dessa qualidade excepcional e isso para mim foi uma pista. Não foi algo que forcei, é uma voz interior minha”. Há técnicas de teatro para encontrar a sua voz interior como ator, e ela é muito mais conectada com o corpo do que com a mente. Em geral, irrita-nos um ator que recita pomposamente nas tragédias, por exemplo, porque o corpo vai para um lado, e a voz não sai das entranhas, mas vem desconectada do resto do corpo, como algo mental. Day-Lewis deve saber disso.

A caracterização de Day-Lewis é mesmo impressionante: o andar um tanto trôpego, a cabeça quase sempre pendida, os membros superiores tesos, tudo isso em Lincoln fora fruto de uma doença degenerativa genética que, à época, era desconhecida. Trata-se de um tipo de distrofia muscular que ainda hoje desconhece-se a cura (SCA-3), não há tratamentos e pouca pesquisa médica (Alô! Alô! Comunidade científica, vamos acordar para isso?!). Embora o filme não mencione diretamente a doença de Lincoln, ele enfatiza a grande luta do orador norte-americano por seus ideais, contra uma fragilidade física, uma tristeza agravante e um casamento com sacrifícios.

O Lincoln de Spielberg é clássico e daí, claro, tantas indicações ao Oscar. Não se baseia em efeitos especiais, a abertura do filme é até chata, é centrado no trabalho dos atores, resgata o passado americano para explicar seu presente. Às vezes, de tão clássico, encarna a rigidez de um busto em mármore de uma figura histórica. Explico: em muitos momentos, o close e o jogo de luz e sombra em Lincoln nos faz lembrar das estátuas dos presidentes americanos nos palacetes governamentais. Aqui, a novidade singular, a meu ver, foi a maquiagem, que reproduz naturalmente o envelhecimento precoce das pessoas no século XIX. Repare nos closes em Tommy Lee Jones: nunca ele fora visto tão real, tão naturalmente senhor de si e das suas rugas.

Apesar disso, o filme não é uma biografia do político. É antes de tudo um decalque dos últimos anos de seu segundo mandato como presidente e dos trâmites dos congressistas para passar ou impedir a lei de abolição da escravatura.

Lincoln é mesmo, como a propaganda diz, um drama revelador e, acrescento, de uma simplicidade a que só atinge quem soube aparar todas as arestas dos excessos da filmografia contemporânea.

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