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Os herdeiros de Monty Python


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Publicado em 27 de Janeiro de 2013

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(Londres, Moviola) – Descobri, num raro momento de descontração na vida dura de Londres que o grupo de humor tão tipicamente inglês como Monty Python deixou seus herdeiros. São novos comediantes, como o canadense Tony Law, mas, principalmente, novos técnicos de animação. A noite de abertura do Loco London, um festival de humor que durou quatro dias na última semana de janeiro, começou com uma festa e um debochado discurso do próprio Terry Jones, ao apresentar a animação em 3D Autobiografia de um mentiroso: a falsa história do Monty Python Graham Chapman. Enquanto pessoas do público dançavam na sala de cinema antes dos trailers (algo raro para o inglês, se não está bêbado) ou se deliciavam com a produção ao vivo de uma animação (o grupo Tundra, armado de um computador, uma câmera, uma lousa e giz, dava mostras de como animar um desenho numa velha lousa verde), eu tentava entender como 17 diferentes escritórios de animação conseguiram contar uma história fictícia sobre a biografia de Graham Chapman, sem se perder e cair numa colcha de retalhos tecnológica sem coesão. Não foi o caso!

A história de um mentiroso

Num depoimento no próprio filme, Terry Gillian afirmou: “Em nenhum momento eu fiquei entediado”, ao acompanhar o filme editado. Desconfio que o motivo seja um só: para contar uma história tão fragmentada, divertida e sem pé nem cabeça, como a biografia de Chapman, apoiada em depoimentos que o ator gravou, antes de morrer, é claro!, é preciso saber mentir. É preciso sustentar as mentiras com depoimentos de gente autorizada: Terry Gillian, John Cleese, Michael Palin e Terry Jones, Cameron Diaz, Stephen Fry. Suas vozes dão corpo às criações animadas e por nenhum segundo duvidamos que aquele mundo de gabalices seja uma grande lorota. Rebecca Front, comediante da TV britânica, sustenta: “Todos eles se parecem com figuras bem estabelecidas no sistema”.

No Brasil, A autobiografia de um mentiroso estreiou no Festival de Gramado, em 2012. Agora, o filme concorre também ao Oscar de melhor animação. Quem sabe depois do prêmio entra em circuito nacional? Acredito que isso seria mesmo bom, já que foi o primeiro filme que realmente vi um sentido para o uso de 3D.

Como falar inglês em outras línguas

Parodiando uma das piadas de Monty Python, digo que o tipo de humor surreal e inteligente do grupo vem colecionando herdeiros pelo mundo. No Brasil, o exemplo mais descarado talvez seja o grupo Casseta & Planeta. Por aqui, atrai comediantes como Tony Law, que se diz um anglófilo. Tony imitava os personagens de Monty Python quando era adolescente em Alberta e confessa, de um modo que não vou saber reproduzir aqui, que é muito mais poderoso dizer “fuck” com sotaque inglês do que com sotaque canadense (isto me parece uma fala à la país colonizado, mas me abstenho de entrar em detalhes. Aliás, não preciso, porque eu dei risada, e acho que era isso que ele queria provocar).

A minha curiosidade me levou até o Lyric Theatre, em Hammersmith, onde um par de dias depois Tony Law dividiria uma noite de comediantes num evento chamado de Voodoo Nights. Infelizmente, no Brasil, não se perpetuou o hábito de sair para ver comediantes no teatro em espetáculos solo. Quando isso ocorre, raramente é de alguém que não veio da televisão. Aqui em Londres tais noites são comuns, em qualquer pub, em qualquer teatro com pouca capacidade. Em geral, os números são de piadas locais, como regionalismos com irlandeses, ou paródias musicais, ou sketches carregadas de referências aos alvos fáceis da piada; o gay, o religioso, o caipira. No caso de Tony Law, talvez pelo fato de não ser britânico, isso não ocorre. Seu humor vai nos mesmos trilhos de Monty Python, acumulando imagens surreais e desfiando um incansável repertório de timbres diferentes para seus personagens. E, sem esquecer, curiosamente, de um detalhe que nasceu no teatro do absurdo, que é o de vez em quando ele nos lembrar que aquilo tudo é uma invenção da cabeça dele e que, portanto, é uma mentira. Há espaço para o improviso, para o alongamento do timing, para a demonstração de decepção se o público não ri ou sai no meio. E é só assim que o artista cresce.

Vejo que em situações como esta, a do comediante solo, o inglês está mais próximo do brasileiro. Aqui ele se permite o erro, a imperfeição, a brincadeira, um caminho imprevisto, uma possibilidade de ser mais humano e sensível.



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