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O Mestre


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Publicado em 25 de Janeiro de 2013

O Mestre, de Paul Thomas Anderson (The Master, 2012) 

Figuras messiânicas costumam permear os filmes de Paul Thomas Anderson – o fanático evangelista Eli Sunday (Paul Dano) de Sangue Negro, o misógino Frank Mackey, interpretado por Tom Cruise em Magnólia. Dessa vez, em O Mestre, Anderson detém seu foco no carismático Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) – inspirado no criador da cientologia, L. Ron Hubbard – que lidera um movimento religioso denominado a Causa, nos anos 1950. A fé não parece ser o ponto central da filosofia, mas sim a busca racional pela perfeição que distancia o homem do reino animal, por meio de técnicas de hipnose e um psicologismo que Dodd tenta legitimar em seus livros.

Totalmente oposto à pregação da Causa está o veterano da marinha Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um sociopata agressivo, obcecado por sexo e com um talento peculiar para criar beberagens alcóolicas caseiras. De forma semelhante ao que fez em Sangue Negro, Anderson constrói sua narrativa em volta da tensão dramática entre essas duas figuras. Somos apresentados primeiramente a Quell, que tenta reabilitar-se após a 2ª Guerra Mundial, sem sucesso. Bêbado e solitário, o marinheiro anda pelo mundo arrumando brigas, até que pára no navio de Dodd, escondendo-se de um grupo de imigrantes. Em vez de expulsar o invasor, Dodd acolhe Quell e ganha seu respeito quase que instantaneamente. Dodd enxerga na natureza animalesca de Quell um desafio estimulante às teorias da Causa, enquanto o marinheiro finalmente se vê fazendo parte de alguma coisa.

Os embates entre Quell e Dodd impulsionam a história. No entanto, Anderson mantém o público a uma distância calculada das personagens. A numerosa família de Dodd permanece fechada em si mesma e não se pode dizer que Anderson adote o ponto de vista do doutrinador ou do doutrinado ao longo do filme. Pelo contrário, cada um deles guarda um mistério que os torna fascinantes um para o outro e também para o espectador. Dodd é representado como o centro de todas as festas e sua mulher e filhos só interagem através dele. No entanto, o anfitrião agradável mostra-se extremamente agressivo com quem ousa contestar suas teorias. Inseguranças de um charlatão? Anderson não ambiciona ridicularizar a cientologia, nem desvendar os meandros de seus ensinamentos. Na verdade, a filosofia por traz da Causa é bem vaga. Há, no entanto, uma fragilidade em Dodd – e em seu pensamento -, cada vez mais clara no decorrer da história, que expõe o limite entre crença e lavagem cerebral.

Já o marinheiro de Joaquin Phoenix é uma bomba relógio que se torna uma espécie de cão de guarda de Dodd. A violência que o personagem carrega vem à tona de forma brutal na cena em que, algemado, ele consegue destruir sua cela – Adam Sandler tem um momento parecido em Embriagado de Amor, quando arrebenta o banheiro de um restaurante com os punhos. Seu abatimento espiritual é refletido na postura encurvada e no olhar confuso. Lembranças e sonhos misturam-se à realidade ao ponto de não ficar claro se a garota que Quell diz ter deixado para traz é real ou apenas um delírio.

Anderson é cauteloso ao revelar a intimidade do líder da Causa, mas aos poucos vemos através da fachada cuidadosamente cultivada e descobrimos que a racionalidade por vezes dá lugar ao descontrole – expresso em explosões de raiva e no gosto pelas bebidas inventadas por Quell. Na verdade, o grande baluarte da filosofia da Causa é sua mulher, Peggy (Amy Adams). O controle que ela exerce sobre Dodd fica claro na cena em que ela o masturba no banheiro, ao mesmo tempo em que lhe passa um sermão de como se portar. Mais do que um ato sexual, é uma atitude de domínio.

Dominação e submissão, fanatismo e cientifismo, equilíbrio e descontrole são algumas das dicotomias que dão base ao filme. Ao aproximar esses opostos, Anderson pinta um quadro complexo e instigante.



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