Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Amor

Amor


Por

Publicado em 25 de Janeiro de 2013

 

“O fundo da grande alegria do amor é nos fazer sentir a existência justificada” (Sartre).

 

Filmar o quotidiano de vidas aparentemente comuns com ousadia e criatividade nunca foi fácil. Em geral cai-se no novelão televisivo, constantemente sujeito ao dinheiro dos patrocinadores. Também a relação da linguagem com a visualidade do novo no universo dos idosos é extremamente complexa, pois requer nobres sentimentos poéticos, raros na atualidade. Daí o cinema ter se tornado o que é hoje: frágil e fraco! Mas… produções ruins servem à TV, a repressão e ao poder. Não a poesia como corporização da necessária experimentação. Experimentação como desenraizamento da alienação de autores, atores, realizadores e técnicos que deveriam formar, como no passado, a potência cinematográfica da invenção e da revolução linguística; e que foram transformados cadáveres, ou em qualquer coisa televisiva e das multinacionais de Hollywood. Pena.

Ora, como enquadrar criativamente a invisibilidade dos afetos vividos? Como dar profundidade, sem o mínimo de espetáculo, a uma despedida sempre sofrida, ainda que delicadamente cuidada? Como reconciliar a vida com a velhice? Como ter sonhos com a proximidade do fim? Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant nos mostram com maestria toda vergonha, fraqueza e grandeza do fim de vidas sensíveis de um casal de músicos. O fim da “vontade de potência” e a modificação do desejo. Não nos esqueçamos que todos caminhamos nessa direção. Uns com mais dignidade, outros com menos.

Ainda ontem a embriaguez da juventude. Hoje, a luta para uma difícil compreensão humana do fim, sem abrir mão do afeto. Mas, como essencializar cinematograficamente, nossa perda da fome, da sede e da própria vida? Seguramente ao lado de Viver, de Akira Kurosawa, e de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, Amor, de Michael Haneke, é uma preciosidade necessária e rara. É mais um clássico a ser conservado na memória do tempo de vida de todos nós. Ousaríamos até dizer que o amor é ilegível, impalpável e, até certo ponto, ininteligível. Daí a sua grandeza numa joia rara na cinematografia atual. Haneke mergulha fundo na escuridão intensificada por gestos contidos de agonia e dor, sem abrir mão do amor. Onde a normalidade do tempo é enrijecida pelo sofrimento, como acesso ao fim das nossas tantas certezas.

E então, rostos marcados pela vida. Corpos lentos e envelhecidos já sem agilidade alguma. O tempo que parece retirar-se no silêncio do espaço de uma casa burguesa. Toda agressividade possível se processa na disseminação de medos. Afinal, o que é a vida senão invenção contra nossa única certeza que é a morte? Espaço e tempo onde tudo parece normal na vida do casal de Haneke. Diante de nós espectadores, um teatro da normalidade com os seus fantasmas, delírios, afetos, esquecimentos e desvios. Em tal ordem, não existe competência médica, paz ou tranquilidade. O surto da personagem de Riva é o seu último gesto de vida não-lobotomizada por medicamentos invasivos, hospitais e médicos que nada resolveriam.  Mas, a partir daí a sua possível hospitalização, medicamentos, os tenebrosos planos de saúde, esvaziamento, infantilização última e o fim. Restando apenas o entendimento ou não dessa exterioridade enigmática da construção do delírio, do esquecimento e da morte. De ultrapassar a suportabilidade de uma exterioridade, ainda que bastante familiar, do silêncio como fala e linguagem.

O problema não está em ser um filme comum e idiota sobre a velhice, mas em ir além. É uma experimentação sólida e soturna sobre a construção de momentos num manicômio em que é transformada a vida, antes da partida. E o filme Amor ao optar por uma narrativa experimental densa e diferente, ilustra bem um pensamento precioso de Foucault: “Sou um experimentador no sentido de que escrevo para mudar a mim mesmo e não pensar a mesma coisa que antes.” Então, ao processo de dessignificação da vida resta o inacabado, o interrompido, o afeto, o silêncio, os medos, as dúvidas… e por fim a partida definitiva.

Haneke faz uma joia dura sobre o fracasso da criação humana e, ao mesmo tempo, sobre o lado imperceptível dos movimentos afetivos, comuns. Sobrevoam nas imagens a estranheza de cada momento, vividos genialmente por dois monstros sagrados. É ótimo que um dos focos seja a interpretação dos atores, pois tal trabalho de invenção foi totalmente banalizado pela TV e por Hollywood. O filme não é um shopping novelesco a vender objetos, peruas e canastrões. Amor é um filme de poderosa vitalidade criativa para a contemporaneidade no cinema, envenenado pela ideologia do mercado e do dinheiro que tudo compra, corrompe e justifica.

Talvez uma bela apropriação do teatro da crueldade de Artaud, metamorfoseado no dia a dia das personagens. O jogo na criação e no amor é, sim, uma construção de experimentos através da qual a vida vai sendo vivida com invenção, trocas, encontros, desencontros e afetos. Ao nos induzir a avançar, nos torna infinitos numa perspectiva zelosa de introspecções interditas pelo antológico sistema e do capital cuja única pretensão é humilhar, deixar apodrecer e matar. Dito de outro modo, Amor é um filme que nos faz pensar e avançar na vida. A nos tornar menos fascistas, “no fascismo que habita todos nós”, como afirmava Foucault. Também é um grande filme que existe além do próprio filme, pois produz reflexões profundas numa inversão humana do espetáculo. O que já faz a política e os meios de comunicação em detrimento do saber, não deixando de ser um trabalho universalizante no tratamento do humano que se transforma em demônio. Mas, não seríamos todos assim?

Quando acaba o dizível dos afetos, e qual a dimensão da ação? Pensamos no tempo que vai marcando fundo por onde passa. E mesmo o tempo que passou e que está nas fotografias dos álbuns de retrato, não é mais nada para as duas personagens. O que Nietzsche chama de “o incomensurável e eterno prazer de existir” é transformado numa delicada experiência de pequenos e grandes horrores, com a afetividade sendo transformada em dor e suportabilidade. Enfim, uma apreensão de tempos desconexos que identificamos como possíveis para todos. Tempo e espaço passados da transgressão dos verdes anos a incompreensões do ‘não-gozo’. Mais o corpo adoentado e a palavra que deixa de ser lembrada. A obstinação por uma ideia perdida de felicidade.

Mas um grande filme onde a intensidade poética chama-se Atores! Dois ícones se valendo de tudo que apreenderam da vida, acrescentando a imaginação e o silêncio amargo da velhice. Como apropriadamente coloca Deleuze: “O artista é o criador de verdade, pois a verdade não tem de ser alcançada, encontrada, nem reproduzida, ela deve ser criada”. E é por onde o filme avança no seu primor de observação. Mas é também um poema trágico sobre uma Europa que não pode mais se transformar em futuros. Justamente aí se torna um filme político, só que lida com as subjetividades da vida, dos afetos e da morte, transformando tudo em tempo e observação. É aí que começa o fim. E o êxtase do que foi ontem a vida, hoje é uma música clássica na vitrola, que pode ser desligada. Um delicado trabalho de invenção a exalar nossos tantos demônios. Sua riqueza está justamente na lenta e gradual construção do horror que acaba por se tornar intransponível.

Amor avança absorto em seus jogos com o silêncio definitivo que se aproxima de algum modo. Ora, como desfazer tudo o que foi vivido e construído? Como diagnosticar na velhice os sonhos não realizados? Ainda ontem Anne e Georges tinham a música como construção, reflexão e ofício. No momento presente deles é a doença e a presença constante da morte. Sem dúvida, um grande filme sem a menor concessão ao mercado. Uma sólida reconstrução vital de momentos, afetos e demônios. Um trabalho para grandes Atores que sabem criar excessos e silêncios com maestria.  Filme de concepção rara pelos princípios fenomenológicos que elabora como arte e realidade, mais uma obra fenomenal do diretor de A Fita Branca que nos permite acrescentar ao seu título outra preciosidade: a poesia. Por que? Porque são dois fenômenos incomparáveis e únicos, e que só podem sustentar-se por si mesmos, pelo que são diante da vida. E pelas condições de suas próprias origens: o nada. Mas nela, o amor e a poesia são! Como princípios universais, eternos e mitológicos. E sem fetichismo de produtos e midiáticos de desvios, domínios e produção. Mais digressão: “Amar completamente/ É também/ Como morrer completamente/ Sem deixar nomes/ Vestígios/ Para não ser contaminado/ E para só amar/ Mais tão completamente”.

Como amar mais completamente? Só vendo e sendo também um autêntico personagem desse Amor; e já idoso, consciente, não delator ou traidor, mas, amante e consciente de tudo o que irá acontecer: vida, poesia e morte; significações! Os dois atores principais, Trintignant e Riva, já são conhecidos de outras grandes obras, no filme de Haneke se tornaram mais raros porque estão excepcionais. Tão excepcionais como o próprio filme. Por que? Por muitas razões poéticas, históricas, culturais e políticas. Mais ainda elevado pela arte e a estupenda visão crítica do mundo e de si mesmos. Coisa rara onde impera a concepção de progresso, de ciência, tecnologia e de iluminismo do capital que já nos disseram ter até utopia! Do que explora, domina e extermina. Felizmente, ainda possuímos como resistência amor e muita poesia. Com visão crítica e olhar sem fetiche. E sobre o nosso progresso chamado civilizatório, Manuel Bandeira, ao ser expulso de sua casa, numa rua da Lapa, do exílio e do desterro, dizia em relação ao amor e à sua incomparável poesia: “…Vão demolir esta casa? Mas meu quarto vai ficar/ Não como forma imperfeita/ Neste mundo de aparência/ Vai ficar na eternidade/ Com seus livros, com seus quadros/ Intacto, suspenso no ar…”

Fomos sempre uma cidade demolida, destruída, pairando no ar. Como a nossa própria história. Sobre ela podemos falar também de amor e poesia em Carlos Lamarca, confinado e definido de morte no sertão da Bahia e escrevendo à companheira Iara, amor de vida e de luta por um Brasil mais justo e menos desigual. Em meio à fome e suspenso no ar, disse: “…Perto está uma juriti, pronta prá tomar um tiro no peito, mas não darei, e a vida dela continua em homenagem a ti. A pomba voou!” Em Amor, resguardando as situações, a pomba também voou. Talvez como mensageira do grande amor do qual também participou. Comunicando em seus voos coisa rara vivida naquela casa de um casal de idosos, conduzidos pela vida como ela é e pelo que dela fazemos, e que, sem a visão como a do casal de idosos, ficaria bem pior de amor e de poesia suspensos. Comunicando tudo para quem construiu ontologia, o seu eu e a sua interioridade e o que se entende como ‘o mais completamente’. Um em si ‘desinfetichizando’ a vida para se chegar ao outro; não como domínio e escravidão, mas superação como arte e natureza – mônada. Nesse filme todo o entendimento excede para voar como uma pomba. E como chegar a um amor como o do filme? Eis a questão, a nossa no amor, na política, na cultura, na vida. Só a partir do conhecimento e do entendimento da “coisa”. Sem entendê-la você também não a possuirá. Concepção profunda e abrangente de Goethe. Valendo tanto para a vida quanto para morte. Numa relação, aparentemente, contraditória diante do amor.

Aqui, o saber não subordina estruturando o poder como no Iluminismo. Aqui, relativiza, para o entendimento das coisas. E onde filosofar é tentar mudar as condições de vida. Reais e subjetivas. É Bresson e é Rossellini. Grandeza crítica e sentimento humano; construindo de baixo para cima, sem temer estruturas e superestruturas. Mesmo que desabem sobre nós mesmos. Assim são os personagens de Amor. Humanos demais humanos. Gente além da gente! Condições que só a natureza possui e pode oferecer. Pelo entendimento. E sem que o conhecimento e a técnica sejam a essência, estabelecendo métodos de exploração do trabalho de dominação e de exploração do humano, como já escreveram Horkheimer e Adorno, sobre a música, a poesia e a arte.

Sendo esta a essência de Amor, de sentido particular na construção, afirmação e demonstração prática e objetiva do Ser, como os improvisos de Schubert que, em instantes de morte, tiveram que aparecer, como o foram diante da vida. Não para sublimar nem para encantar, mas viver e sentir, esperar, movimentar, ser e natureza, sendo até a coda, acrescentando sem medo do apêndice e que poderá significar elevado e suspenso no ar! Com dor, remédios, médicos, hospitais, cuidadores, tudo! Planos “sem saúde”, e toda a rede midiática de ciência, tecnologia e morte. Mecânica artificial, trágica. Amor é este excepcional improviso de viver.

Super filosófico, prático e humanamente superestruturado. Raro em tempo de absurdas revoluções de capitais, não só a juros, mas a extermínios totais como solução final. Como no fascismo e no nazismo teleológico, fundamentalista científico e tecnológico. Filme de significação altamente civilizatório, questionando tudo. De Platão a Hegel! Numa sustentação de Marx como economia, filosofia, fenomenologia, crítica e sem perder os tempos do Sexteto místico de nosso incomparável Villa-Lobos. Nessa profusão tensa, expositiva, crítica e amorosa do filme, nada se perde e tudo se constrói para uma transformação profundamente humana. De quem entendeu para possuir. Alguma coisa rara, necessária, às vezes imprescindível e bela. Como no filme! E onde nenhum conceito vira fórmula. E nenhuma causa vira regra. Porque não há doutrinas, o peso do conhecimento dirigido. E nem a causa vira regra. E onde o Ser não é somente uma possibilidade. Realmente, parece existir, como algumas vezes andamos sonhando quando pensamos em nós no passado, como ideias, imaginação e improvisos!

Filme maior que nos ajuda a definir um pouco mais o realizador de A Fita Branca. Sempre o amor!  Sem o qual nada pode ser inventado com a riqueza da poesia e da arte nos revelando em circunstâncias tão especiais que o amor do filme é como qualquer planta, tenra ou adulta, precisa de trato, entendimentos e chegar até o limite máximo. E ser como a natureza. Assumir a entropia. Crítica, fenomenológica, historicamente assumida e entendida. Sem se acovardar à superestrutura sob a qual todos estamos submetidos. Caudatários conscientes ou inconscientes. E onde o que se revelou foi algo fenomenal. A presença de um casal de idosos, não entregue à fetichização, ao esquecimento, à dor, à imagem que nos domina. Mas, as lembranças, ao esforço de uma repetição do que se esquece, como renovação, reinvenção para uma sustentação do novo e difícil, quando tudo nos é mais suspenso no ar, um perto distante de se pegar. Mas o filme não deixa escapar. Sua significação mitológica, onde viver se tem que morrer, como transcendência desse “Amor”. Como fuga do nosso tempo e um desenfeitiçamento dos conceitos de cultura imposto pela mídia e pelo Iluminismo. Os meios de produção e o capital, onde tudo é produto, sem o entendimento do humano e do civilizatório como arte, ciência e natureza. Como amor, necessidades e tudo mais. Um filme obrigatório para todas as gerações!


Trailer

YouTube Preview Image



2 Commentários sobre 'Amor'

  1.  
    Solange Rios Sanowicz

    25 Fevereiro, 2013| 5:48 pm


     

    Belo texto! Impregnado da sensível e amorosa construção do filme Amor, no qual ” a luta de um casal para a difícil compreensão humana do fim” é lida, com brilho, sob óticas poética, cultural e política.

  2.  
    Solange Rios Sanowicz

    25 Fevereiro, 2013| 6:23 pm


     

    Menciono, para além de tudo que você destacou como construção da linguagem do filme, o uso da cor ocre, nada brilha, nada tem viço, compondo a decomposição física, mental e moral que se quer transmitir.

Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

28 de Outubro de 2019

                            Em 2020, o Internacional Uranium Film Festival comemorará uma década. O evento é o único no país dedicado a expor e debater o invisível mundo atômico e seus riscos radioativos. Em quase uma década, o festival reuniu produções cinematográficas de vários […]

Por Revista Moviola

19 de Outubro de 2019

              O longa-metragem Fendas apresenta uma protagonista mulher e paisagens, sons e imagens que envolvem seu trabalho num centro de pesquisas no Rio Grande do Norte. Seus objetos de pesquisa e seu cotidiano se mesclam. A personagem, uma cientista do campo da física, captura imagens de pessoas à distância. […]

Por Marcella Rangel

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Odeon Oscar Poemas Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.