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Imagens do inconsciente


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Publicado em 24 de Janeiro de 2013

A utopia religiosa resultou neste mundo em que vivemos, onde somos enganados e explorados todos os dias por palavras, sons e imagens. Ainda hoje na TV, o delirante gordo, oleoso e suado fala em nome de deus, e fatura pesado na sua doutrina de enganação. No fundo o seu deus é a culpa e o medo dos fiéis que precisam pagar muito para que o delirante possa viver melhor. Vistos sob esses caminhos, que mundo se pode esperar? Conservador, patronal, reacionário e com forte propensão ao fascismo. Não é o estilo burguês de vida? O engajamento na super exploração religiosa da vida moderna onde se paga o que for para se ter medo, empobrecer ainda mais, não gozar e ser infeliz. Zeloso, o missionário é vendido como soldadinho de chumbo de Jesus! E o povo que pague pelos “atiçadores de ódio” à liberdade da poesia e da beleza. Nosso processo de formação ainda é primitivo e arcaico. Querem nos fazer acreditar numa vida feliz depois da morte. Acreditem se quiser!

Por outro lado, também é duro de se viver num país no qual “O Itaú, bancão privado que mais lucra no país, foi autorizado pelo MinC a captar R$ 29.898.277,71 pela Lei Rouanet – dinheiro meu, seu, nosso – para promover suas atividades culturais em 2013.”  Publicado no jornal O Globo, no dia da Proclamação da República (e a data de 15 de novembro é muito oportuna, configurando a nossa condição de dependentes, onde nada muda), nos remete a um apropriado pensamento de Brecht que diz: “Impossível deter esse monstro em sua ascensão: a natureza para ele é mercadoria, até o ar está à venda. O que se encontra em nosso estômago, ele o revende. Recebe aluguel de casas em ruínas, dinheiro de casas apodrecidas; se o apedrejarmos transformará com certeza, as pedras em dinheiro; é tão louco por dinheiro, tão natural em sua inaturalidade, que nem mesmo ele pode negar o seu poder.”

Sãos os bancos, mas é também o país baseado numa fachada compulsiva de gratificação da elite mais gananciosa do continente. Como o MinC (de um governo que se vende como sendo do povo!), pode ser tão burocrático e arrasador com os que pensam e fazem cultura num país desigual como o nosso, e tão generoso com os bancos, canais de televisão e quem sabe logo com as religiões que têm mais e mais espaço nas TVs? Não é uma inversão de valores? Não seria interessante pensarmos em “controle” do governo, dos bancos e das religiões? Mais dinheiro para quê? E… quando governo, bancos e religiões falam em cultura, da medo. O inimaginável passa a ser o manejamento drástico e egóico das escolhas. Na verdade, um amoldamento no caráter conservador televisivo. Isto tem caracterizado os investimentos públicos e privados na cultura. Na na máquina de propaganda deles, produções ruins e fascismo não estão intimamente ligados? Mas com que objetivo? Claro, ideológico e um adestramento do saber à industria de cosméticos, subjugando a criação a alienação de um consumismo frenético.

Rejeitando todo tipo de pieguice, empobrecimento, fraqueza ou traições, Leon Hirszman e Nise da Silveira retrabalham doenças psíquicas a serem transformadas por sonhos, imagens, cores, sons e desejos. Como bem diz Leon Kossovitch, no livro Signos e Poderes em Nietzsche: “A arte libera o desejo porque envolve.” Daí parte o processo dialético-psíquico tanto de Nise como do delicado longa de Hirszman, Imagens do Insconsciente, baseado nas pesquisas da médica: a superação destrutiva dos efeitos da moral e do capital, na era mais feroz do Imperialismo. Ou, o eterno conflito da luta de classes. Portanto, o que interessa na verdade é o ser humano. Mais com suas dúvidas do que com suas tantas certezas. Ou seja, ao exibicionismo egóico de satisfação alguma, uma procura bem sucedida de sentido para vidas empobrecidas pelo isolamento na miséria. Peças de interesse de regressão à barbárie.

Por tudo isso não é nada fácil superar o caráter do ser humano humilhado pelo país, pela religião, pela família desinformada e pela mídia. De não ser uma experiência feliz e criativa, pois só vive da negação de ser humano. Já no Imagens do Inconsciente, ser humano é de fundamental importância tanto para Nise como para o filme de Hirszman, pois diferentemente da máquina de produção e consumo, pode-se tematizar dúvidas no reino das contradições. Em vez de mitificar, explorar, torturar ou matar, preenche o mundo de cores vivas como tradução da sua semelhança com o afeto. E se um quadro se transforma numa imagem poderosa, o ser humano é um universo vivo investido de nobreza. Compare-o a qualquer político ou comunicador e vejam a diferença do cósmico para o arcaico os muitos discursos que nada dizem. O ser em expansão cósmica criativa é diferente do produtor de bobagens verbais que nada alteram.

Leon filma os chamados “já-não-serem” para a vida, dando legibilidade a olhares ainda que comuns, criativos. Uma espécie de experimentos poéticos raros e profundos, muito além do espetáculo da miséria real, e do pensamento romântico para com a loucura. A investigação da doutora. Nise e Leon, recolocam o ser humano como herdeiro não da previsível maldição da política de saúde no país, mas da epopeia rica da subjetividade humana. No caso, regulada pelo saber e a criação. Espaço onde a pobreza é superada pelo respeito ao humano. Onde o conceito de transcendência põe em relevo o traço, as cores, o ser verdadeiramente humano que não precisa corresponder ou responder a ordem vigente dos “devastadores poderes” da República. Claro, está implícita a criação de acesso a uma outra ordem onde a originalidade está num ser humano melhor e mais significativo que o conceito de excedência. Onde toda experiência sentimental passa pela troca, e não pelo capital. Onde o inconveniente ser enloquecido pela ordem é inserido no êxtase da criação. E ao criar distingue-se por demonstrar sensibilidade.

Digamos que o Imagens do Inconsciente é uma sólida extensão de exemplos notáveis, colocando a sabedoria e a análise num diálogo aberto com o tempo. São passagens de grande repercursão pela manutenção da vida. Ou é isso, ou como dizia Albert Camus: “A civilização mecânica acabou de chegar ao último grau de selvageria. Será preciso escolher num futuro mais ou menos próximo, entre o suicídio coletivo ou a utilização inteligente das conquistas científicas”. E, é preciso realçar os esforços nesse sentido da psiquiatra Nise da Silveira, e mesmo do cinema de Leon Hirszman: o do respeito pelo ser humano! Um certo gosto por ultrapassagens na historicidade de ambos. Um esforçar-se  progressivo para não serem comuns ou iguais a mesmice tanto na psicanálise, como no cinema. Ambos impulsionados pela beleza de expressões mais vivas e nobres. Aí reside o êxtase, o saber e a arte. A grandeza que se ergue acima de tudo que é vulgar na TV. Eis aí o inferno em que até os mortos são explorados!

Este filme do Leon é mais do que um documentário. Indefinível documento sobre a mais difícil e importante de nossas condições – a de viver. Praticamente, a história do Museu de Imagens do Inconsciente. Fundado por Nise, nossa gigante cientista, mais conhecida no exterior do que em seu país de origem. Principalmente pelo que representa, mesmo depois de sua morte, e onde tudo se esquece. Menos o inconsciente, esse mundo mágico que ela, cientista da paixão pelo conhecimento e pelo humano soube retratar. Representação que o belíssimo filme de Leon dimensiona também, pela paixão pelo que sempre fez.  Viver o humano! Ela dizia: “o importante é o aqui e agora”. O que o filme de Leon não deixa escapar; universo documentado e originado numa simbologia máxima, a que documenta o princípio de movimentos do próprio inconsciente: cores e forma, mutações, o mundo das mandalas! Base e princípio junguiano. Nessa obra, Nise e Leon nos dão um recado inesquecível: a grandeza da ciência quando bem aplicada e o sentido antropológico do cinema no olhar de um grande cineasta, de proporções resnaisianas, em abordagens de mesmo contexto. Filme rigorosamente cuidado e elaborado, sujeito até a formalismos, pela precisão; no sentido artístico e estético do encantamento linguístico  onde tudo se cuida para nada se perder. Fotografia, música, cenografia, sintaxe e sinapses; tempos e movimentos; silêncios e tantas metáforas narrativas. São imagens nas quais não há como não nos encontrarmos. Pela doce melancolia da tragédia humana de que fazemos parte nos esforçando para não esquecer de que “navegar é preciso”. Viver… (nem sempre há condições).

Nise elabora a singela, sutil e delicada abordagem de doentes mentais comuns, no sentido hierárquico e da divisão do trabalho, a partir do lixo comum a todos nós e, dolorosamente manifestado neles: uma fonte histórica configurando a doença e o que chamamos de saúde em seus eternos retornos de abismos e veredas. Nascer e morrer e, onde viver, é quase impossível fazer preciso. Quando se escapa a relação realidade e sonho; consciente/inconsciente. Pelas subjetivações. E para a condução da narrativa, alguns doentes são determinados e se definem como personagens: Fernando Diniz, Carlos Pertuis e Adelina Gomes. Cada um em sua dimensão de plenitude, beleza, sujeição, possibilidades e dor em toda a sua dimensão real e subjetiva, social, arcaica e mitológica. E em todos eles o mesmo eixo comum: a carência, a falta de afetos e as repressões. Consequências e sequelas do mesmo arquétipo, a de uma péssima formação econômica e social e, fundamentalmente cultural cuja base seria uma cultura básica de educação, formação e patrimônio comum e menos cruel como os ideológicos e de classes privilegiadas pelo distanciamento entre saúde e doença.

Entre nós a diferença torna-se epidemia, pelo descaso e pelo atraso de um capitalismo tardio tornando periférico e marginalizado nos conduzindo à barbárie. Com os recursos públicos patrimonializados servindo a ricos e a banqueiros. Florestan Fernandes, em 1967, numa universidade alemã definia o sistema: “O capitalismo não é apenas uma realidade econômica. Ele é, também, e acima de tudo, uma complexa realidade sociocultural, em cuja formação e evolução histórica concorrem vários fatores extras econômicos (do direito e do Estado nacional à filosofia, à religião, à ciência e à tecnologia)”. Esta constitui a chave principal para abrir a porta dos nossos hospitais e cuidar – como Nise em seu museu – das doenças endêmicas e epidêmicas de nosso povo. Seguindo esta pauta, chegamos de novo a um dos grandes personagens do filme de Leon, Fernando Diniz, submetido a condições injustas, mas tratato por Nise. E depois, a Mario Pedrosa, esse genial e sempre esquecido brasileiro e um de nossos maiores críticos de arte, depois de contemplar no museu um dos quadros de Diniz – um auto-retrato ao piano definindo sua trajetória  entre a realidade e o sonho, entre a pobreza e a riqueza –, afirmou: “O menino pobre rejeitado de outrora, senta-se ao piano em plena sala decorada a seu gosto e dedilha os acordes da arte sobre um velho sonho desfeito e uma realidade  ingrata. Pobre e grande Fernando Diniz”. Mario definia ali o nosso eterno retorno como miséria e tragédia econômica, cultural e social quando o sistema estamenta uma história e a vida de um país.

Importante destacar também, a presença sonora e tranquila de Vanda Lacerda que ler um belíssimo texto de Nise sobre o universo no qual somos introduzidos. Verdadeira paráfrase para o entendimento e nossa aproximação de uma densa, profunda e envolvente arqueologia de segredos, mistérios e cultura. Institucional e vivencial. O que não se faz mais por aqui. Configurando um sentido pleno, poético, mitológico e cultural do que já foi civilizatório. Com o vigor de uma análise macro antropológica sempre presente onde os pobres de tudo são os mais afetados, definição de uma desigualdade endêmica e epidêmica; não que os ricos nada sofram. Mas para eles, tudo se resolve nas excedências, na fuga e na prepotência. Enquanto a pobreza se resolve com a falta. Mais pobreza e lixo. Principalmente cultural como as das TVs e da mídia em geral. O que importa é  regurgitar. Luxo. Riqueza. Excrescência.

Nunca deixando de reconhecer que trabalhos como os de Nise da Silveira e filmes como o de Hirszman nos enriquecem como matéria e como essência. E como a força de uma cultura que marca definitivamente o Ser, seja qual for o seu diagnóstico, desde que a sua entropia não seja tão cristalizada e determinada pela barbárie, como a nossa. Onde a relação entre nascer e morrer ainda depende de uma revolução. Mais criativa, científica e cultural. Determinada pela arte, como no filme onde a sua determinante foi sempre a mais elaborada, descritiva e colorida mandala. Como alegria definindo a vida!



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