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O cinema oriental no Festival de Berlim


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Publicado em 5 de Janeiro de 2013

 

(Londres, Moviola) –  O Festival de Berlim de 2013 começa a divulgar os filmes que entrarão em competição. Da lista, estão três da Coreia do Sul – Baek Ya (White Night), Dduit-dam-hwa: Gam-dok-i-mi-cheot-eo-yo (Behind the Camera) e Kashi-ggot (Fatal) – que certamente vieram com a onda de Pietà, de Kim Ki-duk, vencedor do último Festival de Veneza. À espera de Berlim, antecipei-me e fui até a noite de encerramento da programação do Korean Film Nights, que aconteceu em 20 de dezembro de 2012 em Londres, onde me aguardava a diretora Yim Soon-Rye, com seu Rolling home with a bull, de 2010.

O que é que faz as pessoas voltarem sua atenção para a produção cinematográfica de um centro como a Coreia do Sul? E mais: o que disso tudo ficará com o tempo? Muito dificilmente, o prestígio de festivais como o de Berlim e o de Veneza mudará a visão dos programadores dos Multiplex de Seul. Perguntei sobre isso à Soon-Rye: “Não muda nada; não ajuda os diretores emergentes, nem influencia o gosto popular. Isso apenas beneficia isoladamente os vencedores, como o próprio Kim Ki-duk.”

Então, o que será que fará com que um telespectador queira ver Rolling home with a bull daqui a 30 anos? O filme conta a história de Sun-ho, um poeta incompreendido e superduro, que volta à cidade natal e resolve vender o boi que é o sustento da sua família rural. Em poucas palavras, é um road movie rural no Oriente. Mas também o roteiro é uma desculpa para propagar ideias de filosofia budista. Neste caso, o boi é um símbolo do servidor humilde de Buda.

Soon-Rye foi inteligente na escolha do elenco: aliou uma atriz conhecidíssima da TV coreana com um tarimbado ator de teatro. Também cortou as inúmeras cenas de pura fantasia do livro original para adequar-se ao orçamento enxuto. Apesar de ser uma diretora reconhecida dentro de casa – é o seu sexto filme  –, ela ainda luta para conseguir patrocínio. O que faria de Soon-Rye uma Ozu de saias, ou de Rolling home with a bull um filme tão belo como Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera ou Dolls?

As camadas da terra

Um filme me conquista quando pensa que eu sou uma arqueóloga e não uma pessoa sentadinha na sala escura à mercê de tudo o que já escolheram para mim: o ângulo certo, as cores belas, os closes justos, as panorâmicas editadas, os efeitos milionários. Este Rolling home with a bull, se me quiser de verdade, vai ter de me deixar escavar as suas camadas, tirar o pó, tocar a tela para ver se é rocha sedimentar, vulcânica, ou magma puro. Pois bem, eu escavei, datei com a técnica de carbono 14 e avaliei que só há mesmo duas camadas superficiais: a budista e a de road movie. Cataloguei-o junto às dunas do Maranhão, que mudam de lugar com o vento.

Escolher uma cena que sairá da minha retina para entrar nas sinapses da minha memória é um desafio porque Soon-Rye vai ter de tocar o gongo budista e me apresentar a algo que deve ressoar e parecer algo que não é. Um reencontro romântico na praia será um imenso clichê se os tipos de rocha estão erodidos com o vento. (São mais de 100 anos de história de cinema, ou não?) No entanto, o incêndio do templo, repetido em sonho, imagem do telejornal e momento presente, deixa uma camada mais profunda na minha retina, porque é também um símbolo de querer se livrar dos sofrimentos daquele que segue o Caminho do Meio.

A exposição de filmes sul-coreanos que promete o próximo Festival de Berlim parece um verdadeiro convite à escavação. Sabe: um diamante bruto é bem sem graça mesmo, sem brilho. Também a camada de carboidratos que floresce a vida é estreitíssima, se comparada à sua inferior, em que plantas mortas permanecem decaídas num lodo por centenas de anos. Ainda aposto num novo olhar do cinema oriental, mas ele costuma vir em raios separados e débeis, não em grandes ondas. Precisamos nos prover com prismas para 2013. Esperemos por Berlim.

 

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