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O amanhecer de Celso Furtado


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Publicado em 5 de Janeiro de 2013

 

Status hoje é trair todos os velhos sonhos do passado. Mas não reconhecemos essa percepção frágil de sucesso a qualquer preço usada pela mídia, e sem consistência alguma. Na verdade, introjeções de fascismos. Mas aí reside a fantasia onipotente da má formação humana, das nossas elites pensantes ao exigir o desejo inconsciente de eliminação do pensamento, pois excitam-se e defendem veladamente tanto o horror como a traumática burocracia. Vive-se então o evidente desmoronamento do sonho, da dúvida e da revolta.

No que falta generosidade à política, os falsificadores dos muitos partidos só vivem da vil luta pelo poder. Lá chegando adequam-se ao sistema anticoletivista e militarista da ordem e do progresso. Pouco ou nada diferente dos anos de chumbo. Não se voltou a eleger Collor, Maluf, Eduardo Paes? E isso com apoio de intelectuais defensores da bajulação, do sucesso a qualquer preço. Mas que tipo de sucesso é possível aí? Só a possibilidade de fazer mais um filminho idiota? Desavergonhados, quem sabe não chegam no Oscar?

Torna-se necessário reconhecer o valor e a importância de falas como as de Francisco de Oliveira e Maria da Conceição Tavares em defesa da postura na economia. E na política de Celso Furtado, na plenitude histórica de sua militância e saber. Um pensador ativíssimo que viu no continente e no nosso próprio país, múltiplas reviravoltas sociais possíveis. Não fantasias ou discursos onipotentes, mas saídas razoáveis e políticas para a nossa eterna desigualdade e fome. Por causa disto, viveu grande parte da sua solidez teórica na economia, no exílio. O Brasil não comportava e ainda não comporta crença alguma no bem estar para todos. Nossa elite e seus representantes políticos, só se interessam pelo desejo sádico do horror, se possível espetacularizado na TV e no cinema.

E é na fome que o sistema se reproduz como suporte da violência. Historicidade e análise econômica para quê? O fascismo televisivo e religioso preencherá o que seja com a produção e o consumo de idiotices e celebridades, com a mídia coisificando tudo e todos. Tudo virando fast-food, games, videoclip e superstar na produção de “imagens”, ideologia e desvios. Ora, como falar num projeto desenvolvimentista como refundação da república? O país segue contaminado pela velha apatia política, cujo foco de sustentação é a telenovela, sem subjetividade alguma. Espaço onde velhos e “novos” Mefistos se sentem à vontade para se reproduzirem como mercadoria de quinta! Essa estetização da burrice serve bem ao poder constituído.

Bem, daí a importância de um pequeno-grande filme como O longo amanhecer, de José Mariani, uma terna cinebiografia fundamental, antiespetacular sobre o economista Celso Furtado. Um pensador e militante de alto nível, que só não se ultrapassou, infelizmente, como ministro da cultura de um governo medíocre como o de José Sarney. Mas como economista refez uma séria história econômica-desenvolvimentista do nosso continente e do Brasil. Furtado visualizou um suporte possível de rompimento econômico com a dependência, recolocando o país nos trilhos do desenvolvimento sustentável. Dito de outra forma: um Brasil possível para todos! E não mais, a casa-da-mãe Joana, das nossas elites. Escombros de um capitalismo subsidiário do nazi-fascismo. E vê-se isso claramente na TV, em programas sensacionalistas emburrecedores como Wagner Montes, Datena, Malafaia, Amaury Jr., Xuxa. Digamos, os shopping centers dos horrores.

Estamos subordinando as nossas necessidades, o nosso desenvolvimento e o nosso processo econômico, político e cultural, o que o cinema nos exige de uma posição histórica a ser definida agora, neste tempo mais do que oportuno, como a projeção de um filme brasileiro, a uma elite endurecida, injusta e ignorante; de interesses dinásticos e inquisitoriais. Elites de tradição, família e propriedade, e de Estado, como o brasileiro. Senhores de políticas dominadoras como Sarneys e Collors. E acreditamos que a Europa esteja se desfazendo dos restos dessa poderosa burguesia sempre vencedora. E nós, na América Latina, temos que ajudar na aceleração deste processo, preparando-nos para um processo mais longo e mais duro. Como o que vamos enfrentando no cinema sem telas, sustentado por festivais e ‘super orçamentado’ para se ganhar na produção. Esse acordo já é internacional pelo medo, pela adesão e pela filiação aos donos do poder e dos meios de produção e exibição. Bancos e mídia. Como os que vamos enfrentando. Vamos nos manifestando como Descarts, o filósofo: se pensamos, existimos. Mesmo que já nos tenham matado, como pensam! Nos fazendo valer com o que temos: determinação e ideias.

Nosso cinema ainda vive. Vejamos, os vivos e os mortos se manifestando nas imagens do que fomos, do que somos e do que seremos. Descendentes de mito e resistência! E Celso Furtado, nunca falou tanto de liberdade e alienação, e nos comprometimentos de uma burguesia que se sustenta na violência e no terror, como em seus instantes plenos e derradeiros. Próximo à morte. Ele sabia que o mundo ocidental não quer mudanças e, para responder, esse mundo esmagado só tem a violência. Resposta à violência que recebe. Furtado passou por todas as etapas. Das primitivas às academias. E sabe que a dor de um colonizado é mais cruel do que a fome de um selvagem, se defendendo nas montanhas e nas florestas. Professor na Sorbonne, Furtado trabalhou ativamente os mesmos conhecimentos filosóficos e culturais, além dos econômicos de que era mestre, contra a alienação e em defesa da liberdade. A mesma trajetória de Sartre, Toynbee, Maria da Conceição Tavares, Chico de Oliveira, Florestan Fernandes e alguns aqui de mesma formação cultural e humanista.

Uma obra rara. Denso fragmento de um tempo. E que agora retorna como tempo oportuno, vindo do abismo do esquecimento. Como tudo de uma ideia que política, filosófica e graciosamente, denominamos uma ideia de Brasil. Ideia que retorna ultrapassando o obscuro para chegar até nós. Ultrapassando até mesmo o cinema, de que é feita, pois estamos falando do filme O longo amanhecer. Obra condenada pelo obscuro e o abismo do esquecimento de que somos feitos. Sem o fundamental para sua exibição mais que necessária: telas! As que não possuímos mais. E, se já as tivemos, foram também muito obscuras. Retiradas do fundo do abismo, com suor e dor superando a própria lei. Eram as telas de uma obrigatoriedade obtidas com a espera e a crença, com o que está subjugado hoje. Nunca conseguimos, por muito tempo, ultrapassar a marginalização e a barbárie; o que tentou durante toda a sua vida Celso Furtado. De governos e desgovernos! O que esse filme nos traz como uma rememoração do tempo oportuno, à espera da beleza pela luta e pela crença. Projetos e processo. De um tempo nem tão obscuro. Como o de agora.

O de tentativas vãs. O de tentar para nós e para a nossa América Latina a riqueza de que fomos e que somos: substâncias em processo. E que querem objetos. Longe das telas. Ou como o Avatar americano, sem o sentido do humano! Meios de produção ou de sonhos produzidos ou copiados. Do que não somos e nem sonhamos. Porque os nossos ainda são só uma ideia. A de Brasil! Comendo, sentindo-se a si mesmo, como Celso Furtado sempre sentiu se expressando, projetando em movimentos de cultura, iluminações e sofrimentos. Sem negar a alegria, a espera, o momento adiado, o país do futuro pelo qual ele lutou para fazê-lo no presente. E conseguiu em sua profunda, simples e transcendente formação filosófica. Tudo muito bem carregado nessa cinebiografia, como os 400 camelos de um persa na Antiguidade, fugindo das guerras com 116.000 mil obras. Como a única riqueza a ser salva.

O filme de José Mariani possui a mesma significação, a de uma riqueza que foi salva para nós. Para a nossa América Latina. Um pouco de nossa realidade e de nossa quase pura filosofia. A de Darcy Ribeiro, Antônio Olinto, Antônio Candido, Florestan Fernandes, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e uns poucos mais. Todos em luta e à espera. Que esperar é preciso! Espera que esse filme, nostálgico da paixão, nos faz suportar. Pois nos afastaram de tudo, até mesmo dos processos como os imaginados no filme. Nos deixando mais vivos, de esperas e do que nos tem faltado: mais determinação, força incomparável a nos fazer sujeitos. Como Celso Furtado, deixando em suas últimas obras, um certo cansaço mas, muita eloquência e vigor no não desanimar, como uma prestação de contas. Por onde passou semeou. E não há como não colher. Mais ainda aqui, na América Latina. Já não só como um produto final. Mas como uma filosofia do ser humano, onde quer que se encontre.

Filme que nos ajuda a nos descobrir. Como objeto e como cultura. Povo de uma plenitude violentada, resistente, crente, à espera. Impossível descartar Lula desse processo nem tanto consensual. Celso Furtado era isso: radical, consensual, pleno, disposto a negociar com o tempo, a filosofia, seus conhecimentos antropofilosóficos de muitas existências e resistências. E de trucidamentos! Uma obra para se ver, ouvir e sentir. Pelo sentimento do que temos de melhor na superação do obscuro.

 

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