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Longa viagem noite adentro


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Publicado em 12 de Dezembro de 2012

 

Apagou-se a luz. Vou acender a estrela dos meus sonhos.  

Adônis

 

De um modo geral, sabe-se não é de hoje, que a família como história do respeito às diferenças, apodreceu. Nem vamos mergulhar fundo nesta questão, pois ela é só reflexo de perdas, loucuras, autoritarismo e frustrações. Claro, cafetinada ainda pelas religiões de resultado na TV. Que da cotidianidade edifica a sua aversão ao afeto, ao gozo e a liberdade. A família moderna talvez seja a pior droga do nosso tempo, excitando-se só com o horror! Mas é onde ela pensa que goza. Mas como gozar com a infelicidade? Que sentido tem o gozo com uma ordem enloquecida e demente? Ela nos dá a impressão de assemelhar-se a uma espécie de morte-viva. Vendo-a sendo defendida por histéricos religiosos (na verdade comerciantes da Fé) na TV, causa-nos tristezas e desolação.

Frieza, arrogância, doença, medos, traumas, vulgaridades, exploração, carolices… são os instrumentos da cegueira familiar do nosso tempo. Dói-nos as más relações entre pais e filhos. E o que deveria ser um doce encontro de gerações, acaba sendo uma cegueira difícil de definir. A nossa raça não soube compreender diferenças e a liberdade. Menos ainda a inquietação criativa que é normal nos filhos. A paisagem familiar é úmida, fria e triste. Sem um só desejo humano tornou-se o esplendor de frustrações onde a grande droga é a própria família embrutecida. E que no seu mosaico histórico religioso se tornou inexpressiva sem um só traço humano. Daí as tantas e tantas humilhações nesse amontoado apodrecimento de palavras inanimadas. Julgando-se todos semi-deuses da ordem e do saber. Mas na verdade, pobres de espírito.

Mas… a família não reflete também uma porca relação de poder? O vácuo político das nações não seria também isso? Sim, temos náusea física de vermos um político ou um religioso falando na TV. Todos se parecendo na festa do capital. Sempre gritando ou sorridentes, vendem o paraíso no inferno. Ora, como conduzirmo-nos a um pensamento criativo e ousado? Sensibilidade nunca fez parte dos fantoches da política partidária, e menos ainda dos homens que se dizem mensageiros de deus. Que deus? O do dinheiro? Da vida que vai passando vive-se só vazios e futilidades. Ora, como se ter afeição por farrapos da autoridade? Com isso chegamos ao magistral filme-peça de Sidney Lumet: Longa viagem noite adentro , lançado em DVD pela Versátil. Uma obra magistral e rara nos nossos dias.

Vamos então falar da jornada de um tempo redescoberto, tempo dilacerado, mais especificamente tempo de barbárie. Vale a pena qualquer tela onde obra assim se desenrole, particularmente como parte de um processo de formação e muito próximo, presente mesmo desse nosso capitalismo financeiro de excedências, e onde o dinheiro vira produto e, ao mesmo tempo, meio de produção. Sucateando nossas vidas, escolas, hospitais… Uma infraestrutura básica de nossa sustentação e desenvolvimento, a de uma significação histórica e mais dialética. Como esclarecimento, formação e consciência.

Filme de 1962, baseado na peça fantástica de Eugenne O’Neill, e onde nada destoa. Autor, diretor e atores, expressões de um marco na vida do cinema como sempre o vimos. Como uma significação no processo de formação de todo artista. E como elemento na construção de uma consciência! Consciência segundo a qual Marx definia em seus primeiros escritos e mais tarde, na crítica a Feuerbach, aprofundando e ampliando o que este havia apresentado como uma ideia na formação de consciência. Para Marx, o ser humano enquanto produto e agente social em que vive e onde nossas relações sociais são recíprocas entre a realidade objetiva, concreta, e nossas ações (as do sujeito); ações estas de transformação da natureza e da própria sociedade; devendo superar assim o idealismo e o abstracionismo expressos em Feuerbach. E assim definindo o que viria a ser uma realidade: ideias! A partir de nossa consciência, do que estamos vivenciando e como o entendimento de uma existência, construindo. E não somente aceitando, fazendo acordos de estranhas conveniências, como esta ascensão à classe média pela filantropia e como dependentes da fome, do medo e do horror de um tempo dilacerado e encoberto!

E tendo consciência como seres sociais nem sempre políticos, para afirmar que este nosso tempo é o mesmo tempo do mundo e deste capitalismo financeiro avassalador blindado, tornando a existência mais absurda e na qual o capital financeiro a juros, segundo Marx, se potencializa em sua excedência máxima – para exterminar! Matando ao mesmo tempo o sonho e o sono. Quando se podia sonhar com alguma esperança. Com uma concepção do trabalho a nos alimentar. Agora tudo é mais-valia e mais nada. Potencialização e militarização da porta de casa à porta do banco. Situação que só mesmo a arte pode enfrentar quando não comprometida, como os intelectuais gramscianamente orgânicos que se tornaram dinheiro, produto descartável e meios de produção – com raríssimas exceções.

Essa ‘longa jornada noite adentro’ é a história de uma tragédia familiar dostoieviskiana. Mais até porque uma aliança de feudalismo, colonialismo e capitalismo a juros, dinheiro-produto e meios de produção. Nossa história de formação que carregamos há 500 anos. Nos Partidos políticos, nas vidas partidas e no sistema inteiro. Mas esta tragédia familiar é, talvez, um pouco mais dolorida pois, trata-se da vida íntima e pessoal do próprio O’Neill num ajuste de contas com a sua história e consigo mesmo. Onde o humor e a ironia são deixados de lado, deixando imperar só a dor, as lágrimas e o luto em seus mais altos sentidos dialéticos e humanos. E onde o sensível diretor Sidney Lumet não se mete; fiel a essa história e, ajustado, artística, técnica e elevado como um mestre de sua profissão, narra, olha, vê e escuta. Para nos transmitir como ninguém! O que o cinema americano sabe fazer ideologicamente, Lumet fez como artista e comprometido com o seu tempo e com a história escrita por O’Neill.

Tragédia cujas substâncias são as de todos nós. Como sempre, até que tardiamente, percebemos que tudo já está irreconsciliavelmente apodrecido. E que só a arte salva na subjetividade! Dilacerando fome, medos e horrores. Em ações terroristas de críticas macroestruturais, sonhando mudanças. Sonhos de nossa consciência, exorcizando aprendizagens! E não há outro caminho possível senão as trilhas que só mesmo os desesperados percorrem como solução antes do fim; os dilaceramentos do corpo, da subjetividade, do sonho e do tempo. Quanto mais avançamos nas trilhas, mais a jornada se alonga. E é sempre noite!

Filme de mestre de linguagem e narrativa até pouco aceitas. Pela precisa opção. Essa terna aproximação do cinema ao teatro quando o processo criativo tão elevado determina esta aliança. E sem ela, o resultado não poderia ser o mesmo. Situação em que só a realidade pode conferir à escrita. Pela negação do espetáculo, da visão massificada, da banalização tecnológica e a aproximação dos tempos tão esquecidos e dilacerados, perdidas as substâncias… para que outras surjam e nos assumam a mando da ideologia do capital. Tornando-nos inconscientes do senso comum e prontos para qualquer sabatina para o folclore do aprendizado colonial de nossa formação. Enriquecer a qualquer custo mesmo que o bordel tenha que ser montado na própria casa. Dizem ser esta uma das últimas etapas! Para muitos de nós, está sendo e, até já foi!

É um momento tão raro no cinema contemporâneo que é preciso reiterá-lo. Longa jornada noite adentro, estamos todos lá. Nós, eu e você, Baudelaire, Shakespeare, Florestan Fernandes, a morfina, o álcool, o sonho e finalmente, o sono; este que faz e torna a vida tão pouco possível e breve. Obra tão bela e tão plenamente realizada que, por si só basta. Um alimento máximo em nossa alimentação, satisfação e dor. O que só uma tragédia grega já nos ofereceu. Também os livros finais de Celso Furtado pelo sentido autobiográfico, pela sua postura e pelo sentido de uma beleza a ser satisfeita e por uma ideia de  Brasil não completada, nos deixaram também um pouco tristes e saudosos de quem vai nos deixando assim, com essas despedidas. Agora podemos entender que o fim de uma longa jornada como essa só poderia ser assim mesmo. Como nesse filme triste e encantador.

Onde a residência da família é quase um túmulo como cenário. E mais ainda pelo tom e atmosfera, a delicadeza sutil das abordagens no avançar e recuar, e onde tudo é clímax e anticlímax e onde nada se perde, para ir se transformando juntos, hegemonicamente cenários e personagens, histórias e tempos; sinfonias. Residência-túmulo com todas as nossas substâncias. E com todos os sonhos. Até o sono quando o cenário escurece levando todos os personagens e suas histórias; única e familiar. A de todos nós. E só mesmo com a tela escura poderemos nos transportar também para lá. Revisitando amigos, reparando o tempo, sonhos e nossa esperança que é também utopia de jornada sem fim. Um texto e um filme obrigatório para todas as gerações. Uma necessidade para conhecermos melhor esse mundo feio em que vivemos, lutando apenas por uma porca sobrevivência, e se achando gente fora e dentro da TV. É muito pouco, mesmo!

Veja cenas do filme com Katharine Hepburn, Jason Robards e Ralph Richardson:

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