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Dogma 95, 17 anos depois


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Publicado em 12 de Dezembro de 2012

 

Dezessete anos atrás, eu começara a ver o cinema e o teatro com olhos virgens e deslumbrados. Fazia um curso de dramaturgia com Antunes Filho e pensava que a coisa mais interessante dos últimos tempos era o Dogma dinamarquês, manifesto assinado por Lars von Trier e Thomas Vinterberg, entre outros, para que a mídia voltasse a atenção para a producão cinematográfica nórdica. Ele deram ouvidos, porém os cineastas, com um golpe traiçoeiro, já não respeitavam mais as suas próprias regras. Os dogmas são para serem desobedecidos. Hoje, passada mais de uma década e meia, ocorre em Londres o primeiro Festival de Cinema Nórdico, realizado de 30 de novembro a 5 de dezembro, e a estreia mundial de The Hunt (A Caça), depois do prêmio para melhor ator em Cannes. Fui lá conferir.

Um breve panorama

A Caça

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Por Skype, Vinterberg me revela que A Caça é, da mesma maneira que os filmes do Dogma, sobre verdades e mentiras e que, depois do grande sucesso de Festa de Família (1998), ele teve de reinventar outras maneiras de criar uma história, para que ela não se tornasse um “vestido de festa”, algo meio fajuto e superelaborado. A Caça, que passou na Mostra de São Paulo deste ano, nasceu de um encontro do diretor e um psiquiatra, que lhe passou um roteiro, baseado em caso real. Da história de um professor de primário erroneamente acusado de pedofilia, Vinterberg veio a descobrir que o caso de Lucas (Mads Mikkelsen), que você pode ter visto como o vilão de Cassino Royale, não era isolado. Para escrever a história de A Caça, Vinterberg comparou o relato do psiquiatra com outros dinamarqueses, franceses e ingleses. Na sua essência, é uma história de amor e amizade, mas é também uma impressão de uma vila inteira que se submete ao medo. Vinterberg confessa: “Não tive a noção de que este filme se tornaria escuro”.

A Caça não é darkésimo, parafraseando Caio Fernando Abreu, apenas na fotografia, a qual conscientemente brinca com o azul do inverno e o laranja das luzes de Natal, mas o é também na mancha à la Nathaniel Hawthorne que marca o Lucas caçado. Perguntei-lhe o que na sua opinião é um país civilizado e a resposta, curiosamente, acerta a mira na Dinamarca, apesar de toda a crítica do Dogma. “É um país em que as pessoas não saem por aí agredindo os outros, em que as pessoas insistem na bondade e que preservam um comportamento de não-violência, mesmo se estão emocionalmente sob pressão. Na Dinamarca, as pessoas são muito educadas, mas podem ser muito teimosas. Esse filme é sobre até que ponto um homem civilizado continua a se comportar civilizadamente diante de determinadas circunstâncias. Eu ainda não tenho uma resposta.”

Helsinki, Forever

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Saindo de uma versão dinamarquesa para Fanny e Alexander, entrei na sala escura do mítico Riverside Studios, onde uma vez se gravava Top of the Pops e Doctor Who, para esta sinfonia imagética à cidade de Helsinque. O diretor Peter Von Borghe escreveu mais de 20 filmes sobre cinema e nasceu numa pequena cidade do Norte da Finlândia. Os seus dogmas são até mais rígidos que os de 1995: incluem na dialética da cidade pessoas mais sozinhas que estátuas.

Este mundo frio, pontilhado por pinturas da cidade, vai buscar em clássicos do cinema finlandês e documentários sobre as Olimpíadas de Helsinque e a demolição do Kinopalatsi uma montagem sobre a história da cidade entremeada pela história do cinematógrafo. É uma interessante recuperação de cenas em que o passado é mais poderoso que o presente. Helsinque, Forever é um eco, e como tal chega a nós por reverberação, sem propriamente nos tocar.

Beyond

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Nesta produção de 2010, entretanto, o eco do passado atormenta a personagem de Noomi Rapace e volta aterrorizando de um modo surdo e sufocado como em Bergman. Não por acaso a diretora Pernilla August fora escolhida por Bergman para ser a babá de Fanny e Alexander.

Os lapsos de tempo em Beyond são inteligentes e fundamentais na construção do clímax que vai revelar o trauma da personagem principal. A dificuldade em se falar abertamente dos problemas, e lidar civilizadamente com eles empurrando-os para dentro do próprio estômago, gradativamente vai sendo construída nos diálogos entrecortados, nas imersões em água (Noomi é uma nadadora) e numa espécie de corrida com ela mesma para se afastar dos fantasmas da mãe e do pai. Beyond fala de uma violência doméstica e de um Estado que, mesmo com um “welfare state” superdesenvolvido, é impotente para evitar certas tragédias.

Parece, então, que o Dogma 95 ainda poderia dar mais frutos, se analisarmos a temática deste filme. Imagino se Beyond tivesse sido rodado dentro das 10 regras do manifesto. Alguém se habilita?

Jar City

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Jar City, de Baltasar Kormákur, é um thriller de 2006 baseado num romance. De fundo tétrico e bizarro, dialoga com Antiviral, de David Cronemberg. Uma menina morre de uma rara doença genética, um policial deve encontrar o assassino de um homem, a filha do policial está grávida e metida com drogas, há um caso de estupro que volta à cena depois de 30 anos. O cenário é a gelada Finlândia. Que tal a vitamina?

As formas de perversão humana são cada vez mais alvo de interesse dos roteiristas de cinema. Os heróis de hoje não são mais humanos (são super-heróis ou alienígenas) e os homens estão reduzidos à sua própria condição viciosa.

Resumindo, Jar City é uma busca ao assassino seguindo as pistas do cérebro do morto dentro de um vidro de formol. Sim, há humor negro, e sim, a genética é a onda do milênio que justifica toda a fissura pelo macabro frankensteiniano. Todos temos demônios dentro de si.

O Dogma 95 pode ter sido assassinado pelos próprios criadores Vinterberg e Von Triers, mas existe um zombiezinho por aí. Ai, que medo!

 

*Cobertura do 1º Festival de Cinema Nórdico feita em Londres para a Moviola.

Maysa Monção é formada em cinema pela Universita Tor Vergata de Roma e em comunicação e letras pela Universidade Mackenzie. É professora, tradutora, crítica, dramaturga e performer. Curadora da sessão italiana do Portobello Film Festival, Maysa trabalhou com Antunes Filho e Gerald Thomas no teatro.



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