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Cinema e educação na era dos dinossauros


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Publicado em 5 de Novembro de 2012

“(…) foram muitas as vezes que aprendi algo a partir de um filme americano tolo”.

Ludwig Wittgenstein

 

O Cinema do Feitiço Contra o Feiticeiro – Cinema de Massa e Crítica da Sociedade,  escrito por Leonardo Carmo e publicado pela PUC-Goiás neste ano, dialoga com o ensaio O trabalho da obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin. O livro afirma o potencial cognitivo e político da experiência cultural mediado pela tecnologia privilegiando o cinema. Escrito como dissertação de mestrado em Educação Brasileira pela UFG, o autor não discute as versões e controvérsias da recepção deste ensaio, objeto de estudos criteriosos no cenário acadêmico brasileiro. A leitura vai direto ao ponto das relações entre as possibilidades da existência da obra de arte na sociedade capitalista e assume o cinema como uma mercadoria que, se seduz o público, ao menos em alguns casos, ilumina criticamente o seu processo de sedução.

A mercadoria no caso é o Jurassic Park, dirigido por Steven Spielberg, 1993 e no revés, não é considerada uma obra inferior, mas uma obra da arte cinematográfica salva pelo que talvez ela tenha de mais condenável: sua função de distração e entretenimento em escala massiva. O livro não se presta ao cortejo da indústria cultural e nem mesmo defende o cinema de Hollywood. Antes de se atirar o autor aos dinossauros, é preciso encarar sua proposta ousada e reconhecer que mesmo cometendo equívocos, a abordagem – se pudermos usar o termo, original – traz o tema do trabalho da obra de arte para o centro de uma discussão pertinente: o que é analisar um filme? O cinema de massa possui qualidades emancipatórias ou ele é um espelho da autoalienação e faz da violência uma satisfação artística?

O Cinema do Feitiço Contra o Feiticeiro dialoga também com as formulações de Norbert Bolz. Não se deve por uma questão de respeito dizer que pensam o problema do mesmo modo. Mas, a constatação de que não há qualquer diferença entre obra de arte e mercadoria, pelo menos a partir da perspectiva de Walter Benjamin, é percebida por ambos.  A questão é como Leonardo Carmo responde a isso na sua proposta de análise do Jurassic Park. Não há em seu modelo, fetichização da obra de arte como uma elaboração das altas esferas que escapa da padronização industrial e nem o espectador é reduzido à passividade, ao menos diante desse filme. A película não tapa os sentidos do espectador, mas, atua como uma crítica à autoalienação e aí pode-se reconhecer que o cinema não é o único braço a subjugar a existência humana com gratificações artificiais que transformam a sociedade em um  Auschwitz  prazeroso. Nesse sentido, a educação escapa de seus aspectos formais e transforma-se em uma fuga desesperada tal como a empreendida pelos visitantes do parque no filme.

A análise proposta derrota o espectador vencido pela pipoca e o refrigerante e transforma o mergulho sensorial proporcionado pelo filme em uma aventura crítica. As sequências ganham outra errância. A troca de olhares entre o dinossauro e o caçador Robert Muldoon; a tolice de John Hammond, o proprietário do parque e o seu senso comum sobre a natureza da ciência e das práticas científicas; as observações quase de alcance popular de Ian Malcolm – lembrando ser o ator Jeff Goldblum o mesmo de A Mosca, de David Cronenberg e Independence Day, de Rudolf Thomme –, traduzem a complexidade da fita. A análise do papel da biotecnologia nos roteiros destas películas e a recusa em compreender a ciência com precisão matemática – por exemplo, o principio de incerteza de Heisenberg, que reaparece em O Mundo Perdido: Jurassic Park e Jurassic Park III, convida revermos o filme com outros critérios. O autor mostra que a revolução tecnocientífica, a fabricação de seres vivos com a interpenetração da codificação dos genomas e dos recursos da informática, integram o roteiro. O filme é dissecado como um cadáver: as sequências e planos aparentemente tolos ganham relevo geobiológico, sem nos esquecermos da função que os supercomputadores exercem durante toda a ação fílmica. Aqui, lamento Leonardo Carmo não ter dedicado mais análise à mise-en-scène do filme.

Partindo de Benjamin, o livro indaga: qual a experiência sensorial ou estética do Jurassic Park? O filme é uma fantasia materialista, um conto de horror onde as forças sombrias emergem do conhecimento científico ou do seu mau uso. O público interessado em análise fílmica ou o professor que sabe das dificuldades de instrumentalizar o cinema em sala de aula talvez encontrem nesse livro o esboço de um caminho, ainda que tortuoso e incerto. Em Benjamin e a obra de arte/ técnica, imagem, percepção, da Editora Contraponto (2012), Susan Buck-Morrs, em seu texto reconsiderando o ensaio da obra de arte observa sem descuidar do papel domesticador das mídias no contexto político e social, que  a formulação de Benjamin da politização (não partidarização) da arte exige a difícil tarefa de desfazer a alienação do sensório corporal, restaurar a força instintiva dos sentidos corporais humanos em prol da autopreservação da humanidade, e fazê-lo não evitando as novas tecnologias, mas, perpassando-as.

Em linhas gerais o autor valoriza o transitório, o efêmero, o que de imediato passa desapercebido.  Quem navega nessa direção é Mark Rowlands em Scifi = Scifilo – a filosofia explicada pelos filmes de ficção científica, publicado pela Relume Dumará, no qual a filosofia e o sentido da vida são examinados desde Frankenstein ou o dilema mente-corpo em O Exterminador do Futuro. Há pouco foi divulgado que a preparação de alimentos cozidos ajudou a desenvolver o cérebro humano.  Talvez outro olhar sobre o cinema de massa seja um forno de novos paladares ou pelo menos evite o azedume com que muitos desses filmes são vistos e analisados. Para Leonardo Carmo, o olhar do dinossauro revela menos o temor do homem e mais a crueldade deste para com a natureza. Brincar de Deus é perigoso, diz a paleobotânica do filme, doutora Ellie Satller.

Fica claro no livro que as formulações sobre arte e sociedade na era tecnológica formuladas no ensaio da reprodução da obra de arte resistem e sobrevivem a qualquer fetiche de popularização leiga ou acadêmica. Walter Benjamin seria o último a desejar um culto a sua personalidade mesmo em nome de não trair suas ideias, suas proposições encantadoras, fáceis de aceitar mas,  de complexa compreensão. Este ensaio recusa a ver o cinema de massa como mera fantasia e mostra pelo olhar do dinossauro que mais grotesco do que ele é a indústria cultural. A dimensão crítica do filme e do livro está nesta mediação. Para o autor, o dinossauro pode contribuir com a educação estética do homem e nesse sentido o feitiço se volta contra o feiticeiro. A experiência sensorial do Jurassic Park não conduz o espectador ao sonho, mas, ao despertar da ilusão do domínio narcísico da natureza.



1 Commentário sobre 'Cinema e educação na era dos dinossauros'

  1.  

    6 Novembro, 2012| 5:14 pm


     

    Rô, gratissimo. E agradeço o espaço da Revista Moviola! Um abraço cinematográfico, Leonossauro Rex.

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