Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Por que Humberto Mauro?

Por que Humberto Mauro?


Por

Publicado em 15 de Outubro de 2012

 

Como se cria uma imagem poética? Como imaginá-la de forma artística e profunda? Aparentemente não se pode reunir contradições complexas na sua formatação. No entanto, transcende justificativas e explicações confrontando o conceito menor de mercado. Uma imagem é uma imagem; e nasce se verdadeira, como referência do saber e da arte. E quanto mais inacessível como justificativa, tanto mais justa será. A história da imagem cinematográfica é uma espécie de fundamentação da nossa eterna dúvida! Seu caminho de conhecimento e transformação é infinito. E, é queiram ou não uma ruptura com o vazio do tempo. Do tempo sem beleza ou potência cujo único valor é o oportunismo e o dinheiro. E que é exatamente onde o fascismo se instala como conceito de poder. Mas não é pouco?

A imagem que já foi transformada em mercadoria de luxo, no cinema de Humberto Mauro foi um modo de expressão muito próprio e rico; e que só fomos descobrir depois em Joaquim Pedro, Davi Neves, Sergio Santeiro, Ana Carolina, Carlos Alberto Prates… Todos como reverso da falsificação “vitoriosa” de fascismos. Mauro admirável como postura e acabamento germinou um “reluzente espelhamento” de sensibilidade e conhecimento. Diante do seu cinema somos todos o começo de alguma coisa próxima e nova a estabelecer uma aceitação vigorosa do país, indo muito além da submissão e do conformismo. Ousaríamos dizer que todas as imagens de Humberto Mauro foram para nós uma crença poética num cinema melhor e mais humano.

Foi e segue sendo um belo exemplo de consciência e de importância fundamental para todos nós, pois Mauro segue sendo um inventor de uma simplicidade poética mineira invejável e ousada; que ousou não ser comum ou igual aos seus companheiros. Exatamente como foi Glauber anos depois no tempo de todos nós. Mauro fez do cinema uma janela aberta para a vida e para a história da educação. Fez mais de 600 curtas educativos que miseravelmente se perderam no tempo. Mas como bem dizia Albert Camus: “A nossa época morre por ter acreditado nos valores e que as coisas podiam ser belas e deixar de ser absurda”.

O cinema de Humberto Mauro nos faz lembrar a suavidade dos afetos num cair de tarde da primavera. Deveria ser sempre exibido em escolas, cinemas e centros culturais. Não como “esforço” vendido pela pobreza da burocracia, mas como real necessidade para a formação melhor do nosso povo, pois ficou sendo uma preciosa mostra de referências e caminhos para todas as gerações. E revendo hoje, o seu cinema simples e ao mesmo tempo complexo, devemos adotar uma crítica profunda ao projeto imperial tanto do Cinema Novo, como do cinema experimental, pois foram feitos num tempo de medos e refúgios. E também de covardia!

O Cinema Novo foi até poder no fim do Instituto Nacional do Cinema (INC) e início da Embrafilme, mas mais para acomodar do que para confrontar o fascismo reinante. Deu nesse pobre e empobrecido cinema de mercado. Claro, sempre defendido por velhos e novos idiotas. O fracasso do projeto do INC gestou a Embrafilme, que gestou a Ancine como uma espécie de legalização da nefasta burocracia aliada à barbárie jogando uns contra os outros. E, nessa combinação de mongos, a decadência de um cinema que já foi um marco histórico de formação de todos nós.

Bem, segundo o diagnóstico Maureano, o seu cinema sem abrir mão da profundidade cênica, era uma espécie de tentativa de renovação do conceito cultural do popular. Não confundir com populista! O seu genial História do Brasil é um belo ensaio Rosselliniano feito muitos anos antes do mestre italiano que tentou inovar a TV resgatando a filosofia e a história para uma real transformação do saber, no mais importante meio de comunicação de massa, lamentavelmente nas mãos sujas de Berlusconis e companhia. Lá como aqui! Mas onde a TV não é a voz do poder? Como um instrumento tão importante fica aqui, nas mãos de múmias como Sarney, Barbalho, Silvio Santos e outros tantos políticos? Ora, não dá para enxergar a impureza da auto-mistificação da ideologia de seus donos? Mas não é uma concessão pública? E como esses Mefistófeles sem sensibilidade alguma podem ser donos de um instrumento tão importante?

O inimitável Humberto Mauro segue sendo um terno exemplo para todas as gerações. Solar, é um misto de exaltação amorosa transcendente no seu cinema e de uma rara efervescência poética. Não usou o cinema como muitos “coleguinhas” que o sucederam, já que foi sempre um cineasta fértil e criativo. Comovente como pessoa humana foi um inventor. Trazia em suas veias uma sensibilidade rara. O seu trabalho visto hoje permanece de fundamental importância e assunto para muitos livros, sem esquecermos o do mestre Paulo Emilio Sales. Mauro foi sem dúvida alguma um desvio e um confronto no seu tempo. E reconhecemos no seu cinema um imenso amor pelo Brasil. Não o falso amor televisivo das novelinhas e novelões.

Por mais genial e histórica que seja para o nosso cinema, a obra de Humberto Mauro, deve ser vista e considerada como a de uma essencialidade, a nossa. Mais ainda, em sua fenomenologia. Principalmente por estar revestida de muito empirismo e idealismo. Claro, acompanhados do talento, do esforço e experimentos pouco comuns no Brasil e naquela região onde o venturoso cineasta se iniciava; o interior mineiro, carregado de naturezas, da sua e da outra; de esperança e de utopia; condições superadas e transfiguradas em cada aventura. O que pôde comprovar depois, ao enfrentar a verdadeira realidade do cinema; realidade inicial, nascente, e que ao longo do tempo estratificou, incapaz de rompimentos, por falta de mais “Humbertos Mauros”.

Estas são as razões de seu monólito, o único do cinema brasileiro. Coisa rara, e tão rara, para ser descoberto só em escavações neste país dos esquecimentos, de espetáculos e de festivais que tudo encobre com a festa, fazendo das negações afirmações, impossíveis de serem desvendadas senão com os mísseis de uma dialética negativa em suas normas, formas e em espaços restritos como o desse monólito de Mauro.

Seus filmes, sua história, sua memória e seus sonhos. Sonhos que a ideologia de dominação do nosso cinema não conseguem minimizar e desfazer. Cinema impossível na continuação dos longas, interrompida com o genial O Descobrimento do Brasil, entregando-se com o mesmo empenho às realizações possíveis dos seus muitos curtas. Onde o cineasta continuou o mesmo: irremovível e inconfundível no cinema do seu tempo, seguro do seu próprio movimento, construtor de uma estética, uma ética e de um sentido quase mitológico pelo que propunha realizar e materializar sem ideologizar; o que a mística do nosso cinema jamais permitiu. Pelos bloqueios e traições. Mauro abriu mão de uma obra enciclopédica depois de Ganga Bruta e do Descobrimento, para uma obra utópica, hermenêutica, a de sua própria construção como personagem de grande integridade e onde a crença e as realizações são presenças inseparáveis, mantidas as diferenças, que a unidade não é igual a totalidade! Mais ainda numa construção assistemática de sociologias e de utopias! Como foi o cinema de Humberto Mauro. Uma bomba poética e idealista de retardos de eternas explosões e eternos silêncios. Porque assim respira o nosso país, morte simulando vida! Nossas últimas estatísticas sobre as mortes “pacificadas” no Rio de Janeiro, revelam isso: com as mortes diminuindo mas, os corpos aumentando.

Ousaríamos dizer que Humberto Mauro incomoda mais do que Glauber, pelo seu caráter estruturalmente natural e artístico como em Schiller, o poeta alemão em seu trabalho sobre estética, definindo o sentido da liberdade inseparável do sentido da beleza. E onde o futuro com a ciência, a tecnologia e o progresso abandonavam o humano. Acabou banido por isso. Esquecido, claro! Esse também o sentido ontológico de Mauro em seus filmes, o da presença crucial do tempo humano; o que a nossa realidade, a dos espetáculos e festivais negam. Pelo monopólio da mídia criminosa, dos bancos e dos meios de produção; e dos prêmios, os dos produtos sem conteúdo, forma ou espaços para as dialéticas. Como as violências, as mortes e as guerras pelo mundo. Invasões transvestidas de nacionalidades. Porque o grande traidor é sempre o interno, o de casa, o do jogo duplo. Como nas ditaduras e em nossas democracias de fachada para inglês ver. Movimentos de uma existência difícil de documentar, a não ser numa procura infinita e indesejável, como a presença do próprio tempo que vamos esquecendo sem presente, passado ou futuro. E sem ontologias.

O Descobrimento do Brasil, esse filme ontológico de Humberto Mauro, encerra um ciclo e faz iniciar outro. Mauro sabia o que fazia. Depois de um filme como esse, com música de outro genial artista brasileiro: Villa-Lobos, era preciso preservar-se, recuando à espera, como fazem os mitos e Mauro, inconscientemente, dava conta de rito que seria permanente em nosso cinema. Rito inseparável de nossas necessidades de sustentação e de desenvolvimento do setor, dificuldades já percebidas e enfrentadas desde então. Por outro lado, deixava um filme como o Descobrimento, definidor em sua obra por estar inscrito além do tempo.

Filme para ser visto e revisto como um próximo e um distante. Sendo o próximo esse nó que nos incomoda e que queremos desatar, como dizia Ernest Bloch no épico Princípio Esperança, por significar o nosso querer ser. Esse Descobrimento do Brasil deveria estar nas escolas como aprendizado sobre o nosso tempo histórico e cinematográfico onde só se desaprende. Pelo envolvimento com o tempo ideológico que não conseguimos romper. Filme que é um grito estético como Limite, de Mario Peixoto, seu contemporâneo e de outro gênero, confirmando nossa riqueza em diferenças e estilos e, como sustentação de culturas e de mercados, de sujeitos e de filmes menos objeto. Nos cabe falar sempre do cinema de Glauber e do cinema de Mauro, desses extremos que se comunicam pela riqueza da arte como significante e significado, agregadores de tempos e dialéticas pela significação ética e estética da arte e de suas presenças como as maiores referências e como significações históricas. São as referências também para um ser humano que se desumaniza, de um novo que envelheceu, e de um velho sempre novo pelo que representa no presente e pelo que carrega de passado e de futuro.

Nada mais oportuno nesse tempo de espetáculo e de Festivais do Rio, e do mundo todo, da nocividade da Globo, da Rio Filmes, da Ancine, de interesses tão assimétricos para o cinema brasileiro, apresentamos Humberto Mauro como um cânon pelo sentido antropológico do seu cinema e pelo que acreditava na força estética e ética da arte como um sentido humano. E o que a sua condição individual propunha para o desenvolvimento do cinema brasileiro é marcante nos filmes, na relação longas e curtas metragens, pelos aspectos didáticos e práticos, com a teoria naturalmente, se definindo como uma ontologia de buscas infinitas e variadas pelo sentido geográfico, humano e antropomórfico. Humberto Mauro, às vezes, se esquecia de que aqui é Brasil e de que as coisas não se fazem assim, tão simplesmente.

Vivemos sempre numa sociedade burguesa à beira da barbárie! Onde a semântica de seu discurso cinematográfico não podia encontrar eco. E nem silêncio para reflexão. Mauro olhava o cinema como se olhasse para o seu próprio corpo e descobrisse sua alma e a projetasse em seus filmes. Como uma superação de si e da própria realidade. E como marca de seu tempo. Mauro foi resistente a todo contra cânon, este de nossa modernidade envelhecida, vencida pelo medo que temos do passado, da escravidão e dependência, de cultura e formação. Soube alimentar com sua presença e com o seu trabalho um dos momentos mais difíceis de nosso cinema, resistindo à força do individualismo e insistindo na busca de uma unidade nunca encontrada. Fez do cinema uma hermenêutica para tornar a linguagem do cinema um convencimento pela simplicidade dos códigos, a evocante singeleza narrativa transformando natureza, movimentos e personagens em atmosfera como força e fruição de qualquer olhar e como uma aquiescência do mito.

Foi um cineasta generoso na busca do sentido pleno da totalidade como sintagma para a construção da imagem e na individualidade de um plano. Condições expressas nas sonatas de Beethoven, passos e etapas como construção dialética de uma totalidade. Conseguida ou não. Mas, buscada e tentada. Como esforço e tensão a tornarem a tragédia o universo do sublime. Grandeza de formas e movimentos de que praticamente só a música é capaz. E que alguns poucos cineastas conseguem. E que só acontece com arte. Com toda a nossa capacidade e com toda a nossa eloquência aí manifestadas. Coisas do esforço, da prática e do exercício de Mauro no cinema, percebendo que a linguagem é também código perverso que escraviza no exercício de uma totalidade, confundindo realidade e abstração e, como uma vivência em busca de uma essência que buscamos sem oportunidades. Situações que enchem os cemitérios à espera do novo. O que esperamos sempre!

 

O Descobrimento do Brasil

YouTube Preview Image

 

Leia também artigo sobre Humberto Mauro e o Instituto Nacional do Cinema Educativo.

 



3 Commentários sobre 'Por que Humberto Mauro?'

  1.  
    Paulo Augusto Gomes

    16 Outubro, 2012| 7:16 pm


     

    Belíssimo texto-homenagem que valoriza o talento e a obra do grande Mauro, na formação das gerações futuras do cinema brasileiro. Rosemberg é um craque!

  2.  
    MIGUEL PENNA SATTAMINI DE ARRUDA

    16 Outubro, 2012| 11:04 pm


     

    Artigo excelente sobre um dos maiores (e melhores) e esquecido cineasta brasileiro. O cinema brasileiro foi destruído pelo falso mercado de obras exclusivamente manipuladoras e arrogantes como os filmes de Fernando Meirelles e Padilha. Humberto Mauro é poesia, sensibilidade, simplicidade e beleza. Lindo artigo. Parabéns!!

  3.  
    José Carlos Asbeg

    5 Novembro, 2012| 6:31 pm


     

    Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar são incansáveis na defesa de um cinema brasileiro livre da padronização televisiva e são infatigáveis na crítica que fazem à dominação colonial imposta pelo império americano e aceita passivamente por sucessivos governos omissos na preservação de nosso mercado cinematográfico como espaço fundamental para a formação de uma identidade cultural brasileira. As centenas de textos que produziram nos últimos anos são um farol para que as novas gerações trilhem o caminho da resistência à boçalização que a mídia brasileira quer nos enfiar goela abaixo. E são, também, uma declaração de amor ao nosso cinema e ao nosso país. O mesmo amor que Humberto Mauro tinha pela cultura brasileira do homem simples do interior. É um privilégio viver na mesma época de Rosemberg e de Sindoval, dois grandes brasileiros.

Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

28 de Outubro de 2019

                            Em 2020, o Internacional Uranium Film Festival comemorará uma década. O evento é o único no país dedicado a expor e debater o invisível mundo atômico e seus riscos radioativos. Em quase uma década, o festival reuniu produções cinematográficas de vários […]

Por Revista Moviola

19 de Outubro de 2019

              O longa-metragem Fendas apresenta uma protagonista mulher e paisagens, sons e imagens que envolvem seu trabalho num centro de pesquisas no Rio Grande do Norte. Seus objetos de pesquisa e seu cotidiano se mesclam. A personagem, uma cientista do campo da física, captura imagens de pessoas à distância. […]

Por Marcella Rangel

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Odeon Oscar Poemas Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.