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Holy Motors


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Publicado em 13 de Outubro de 2012

Holy Motors, de  Leos Carax (França, 2012)

 

O início de Holy Motors parece assinar o filme com o índice da autorreflexidade: vemos o próprio Leos Carax, diretor do filme, acordando de um longo sono em seu quarto. Um travelling circular o acompanha até uma parede do quarto, que vamos descobrir logo em seguida tratar-se uma passagem secreta. Uma porta escondida se abre entre o papel de parede, que representa uma floresta sombria. O cineasta adentra em seguida pela porta, como um caçador ao bosque. O que encontramos do outro lado da parede é uma fantasmagórica sala de cinema. A sequência insere no próprio filme, deste modo, o estatuto de sua existência:  Holy Motors é o retorno de Carax ao longa-metragem, depois de 13 anos sem filmar uma obra de fôlego. O retorno não é apenas uma oportunidade para Carax refletir sobre a sua própria trajetória; é também um acerto de contas com a história do cinema.

Holy Motors se apresenta, primeiramente, sob o imperativo de contar todas aquelas histórias que ficaram em silêncio durante tanto tempo. O filme põe em cena, desta maneira, onze histórias diferentes, que nos remetem rapidamente a certo reportório de contos e gêneros do cinema. As histórias, contudo, se cruzam em um único e mesmo corpo: Denis Lavant interpreta Sr. Oscar, um “homem que viaja de vida em vida”, enquanto circula de limosine por Paris. Oscar é construído no filme como um homem profundamente ocupado, cuja agenda é repleta de encontros misteriosos. O protagonista assume a cada um dos encontros uma personalidade e uma história nova, de modo que o personagem pode se transformar em um pai de família em um drama doméstico, um serial killer em um filme de ação oriental ou um mendigo louco e anarquista em uma comédia burlesca. O filme, construído ao modo de uma grande montagens de atrações, nos convida a acompanhar cada transmutação do personagem e do filme como um espetáculo à parte, que oferece ao filme uma estrutura episódica.

Desta forma, Holy Motors nos apresenta um personagem que materializa as principais tensões do momento da historia do cinema que deu corpo à obra do cineasta. Leos Carax é conhecido como um dos primeiros autores franceses dotados da consciência de que chegou depois, depois do “cinema moderno” e do “cinema clássico”. O local da tensão criativa parece ter se deslocado para os cineastas de sua geração da relação cinema – mundo para a relação cinema – imagens do mundo. O motivo da transmutação contínua e sem referente último do personagem traz para o filme o mal-estar deste momento da história do cinema: as imagens apresentam-se para Oscar sob o signo da equivalência, volatilidade e disponibilide completa, como mercadorias em uma vitrine.  As próprias câmeras de cinema, nos é dito no filme, não são mais aqueles objetos grandes e pesados de ontem, o que fazia de cada tomada de posição da câmera uma escolha dotada de certa gravidade, que exigia dispêndio de esforço físico e precisão. Hoje, as câmeras “são menores que minha cabeça”, como diz o personagem; quando não são “invisíveis”, disseminadas em todos os lugares.

O que diferencia Carax, no entanto, de outros cineastas também amaldiçoados pela condição de “maneirista” ou, ainda, “pós-moderno”, é que seu cinema nunca é redutível à postura inventariante, museológica e complacente de alguns de seus colegas. As suas preocupações verdadeiras talvez sejam, na verdade, de uma natureza que, no fundo, nunca deixou de ser clássica. “O que o faz continuar, Oscar?”, pergunta um personagem. “O que me fez começar: a beleza do gesto”, responde. As transformações de Oscar não são apenas um processo de variação contínua; são também um retorno ao corpo de Denis Lavant, que nunca abadona o centro de gravitação do plano. Os gêneros privilegiados no filme são sempre gêneros em que o corpo do ator pode aparecer em toda sua inventividade, em que o vemos em sua fúria, em sua euforia, em sua loucura: o musical, a ação, o burlesco. Da mesma forma, é sempre o corpo do ator que encontramos no final de cada performance: o corpo exausto e franzino de Denis Lavant, preparando-se para mais um encontro.

A cena do estúdio de produção de imagens de síntese é, deste modo, paradigmática. A sequência nos apresenta Oscar vestido com um traje dotado de sensores de movimento, que pode nos lembrar o icônico figurino de Tron (1982). Os movimentos executados pelo personagem são reproduzidos em corpos digitais de monstros animados, que provavelmente são a matéria visual do videogame que está sendo produzido. Os gestos de Oscar criam um circuito de referências visuais conhecidas – a dança, o videoclip, o filme de artes marciais, o filme erótico e, claro, o videogame de ação – que, no entanto, nunca se fecham em si próprias; sempre aparecem em função da apresentação do corpo em movimento. O filme, não por acaso, se inicia e termina com as famosas imagens do movimento do fisiologista Etienne-Jules Marey, que estiveram nos primórdios do cinema. O acerto de contas com a história do cinema se coloca, deste modo, no reencontro com o fascínio originário por este corpo que se move em toda a sua graça e exuberância. Holy Motors é um grande e belíssimo estudo do corpo em ato, das potências do gesto e do movimento.

 

Trailer do filme

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Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2012



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