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Cesar Deve Morrer


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Publicado em 10 de Outubro de 2012

Cesar Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani (Cesare Deve Morire, Itália, 2012)

No presídio de segurança máxima de Rebibbia, em Roma, condenados – com penas que variam de 15 anos à prisão perpétua – encenam Júlio César, de William Shakespeare. Ao fim da apresentação, Paolo e Vittorio Taviani voltam seis meses no tempo, para nos mostrar todo o processo dos ensaios.

Paolo e Vittorio Taviani filmam as sequências iniciais de Cesar Deve Morrer (surpreendente Urso de Ouro no Festival de Berlim 2012), em que os atores prisioneiros interpretam Júlio César no teatro do presídio, a cores. Quando os irmãos se detêm no período necessário para a montagem da peça, escolhem o preto e branco, como se Shakespeare estivesse em plena “construção” aos nossos olhos.

Durante os ensaios, o teatro está em obras. Com o palco fechado, os prisioneiros interpretam nas próprias celas, nos corredores ou no pátio. O diretor da peça insiste que cada preso utilize o sotaque de sua região: dialetos de toda a Itália se misturam, para reforçar a simbiose entre atores e personagens. Shakespeare escreve sobre a Roma Antiga, mas um dos detentos comenta que texto serve igualmente para a Nápoles contemporânea. Cesar Deve Morrer, parábola sobre o direito à liberdade em face à opressão do Estado, que se alimenta da vida real dos homens atrás das grades.

Na escolha dos atores, o diretor de Júlio César pede aos condenados que informem o nome, data de nascimento, cidade de origem e filiação, mas como se estivessem em um posto de controle. No primeiro quadro, eles se despedem da família; no segundo, os guardas da fronteira os obrigam a falar. Já no começo dos ensaios, Paolo e Vittorio Taviani diluem os limites da representação clássica e revelam os mecanismos não apenas do teatro, como também do próprio cinema, com o intuito de, a partir da ficção, expor a verdade sobre a hipocrisia burguesa que, embora privilegie o individualismo, pune-o com o rigor do Estado quando ele se volta contra a Ordem estabelecida.

Nas peles de Bruto, Cássio, Décio, Lúcio e dos demais senadores romanos que assassinaram Júlio César, os prisioneiros de Rebibbia gritam por liberdade, por justiça, contra a tirania. Revoltam-se. Atos que, catárticos na representação, seriam criminosos fora do palco. Através de Shakespeare, Paolo e Vittorio Taviani escutam os condenados: a morte de César (que, embora recuse a coroa três vezes, é o Poder de fato em Roma) significa o levante contra o próprio Estado, contra sua máquina de sujeição do indivíduo.

Em Júlio César, entretanto, os conspiradores são derrotados. Marco Antônio, na impressionante sequência em que, do pátio, ao lado do corpo de César, discursa para as celas, convence os presos de que Bruto e Cássio traíram a República, ao invés da salvá-la da tirania. Depois, o retorno de Otávio restaurará a Lei e porá fim à Guerra Civil.

Com o término da encenação de Júlio César, os condenados retornam às celas, à espera da nova peça do próximo semestre. De acordo com Cosimo Rega, que interpretou Cássio, apenas quando conheceu a arte, ele passou a sentir verdadeiramente preso. O teatro como método de controle: em Cesar Deve Morrer, o Poder sempre vence.

 

Trailer do filme:

YouTube Preview Image

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2012



1 Commentário sobre 'Cesar Deve Morrer'

  1.  

    5 Março, 2013| 1:10 am


     

    […] originalmente na Revista Moviola. Gosto mais do filme do que ele merece. Guilty […]

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