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O som ao redor


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Publicado em 8 de Outubro de 2012

O Som ao redor, de Kléber Mendonça Filho, Brasil (2012)

 

Os primeiros planos de O som ao redor mostram fotografias em preto & branco que evocam o passado colonial e rural brasileiro. Tal passado estará intimamente ligado ao que será narrado no decorrer do filme. O que O som ao redor pretende, através da representação de um drama familiar é proporcionar um retrato da formação social do Brasil, aquele do “é dando que se recebe”. Mas, ao invés do primarismo estético de um Sérgio Bianchi, o que se vê neste filme é um exercício de cinema formidável, sob todos os pontos de vista.

Uma rua de Recife pertence praticamente inteira a uma única família, comandada por Francisco (Waldemar José Solha), espécie de coronel contemporâneo. Ele possui, além das terras em Recife, um engenho de cana de açúcar. Através de variadas cenas fragmentadas, vamos sendo apresentados ao microcosmo representado pela família de Francisco e os outros moradores da rua. Há João (Gustavo Jahn) um rapaz que passou anos no exterior e agora é corretor dos imóveis construídos nos terrenos de seu avô, trabalho pelo qual demonstra insatisfação. O tio gente-boa (Lula Terra) e o jovem rico metido a marginal (Yuri Holanda). Em paralelo ao núcleo familiar de Francisco o filme mostra uma família, que vive na mesma rua, e cuja mãe parece saída de um filme de Almodóvar, passando o dia a tentar calar os latidos do cachorro da casa, a fumar maconha e masturbar-se numa máquina de lavar roupas. Tais personagens, em sua mediocridade, têm suas vidas funcionando sem maiores mudanças, até que um grupo de seguranças privados chega à rua e traz um segredo do passado que diz respeito a Francisco.

O filme, apesar de tratar de um tema bastante sério, a formação da nação brasileira e suas desigualdades sociais, aborda a questão com um humor nonsense que serve para enfatizar o quão absurda é a situação de um país socialmente injusto como o Brasil. A narrativa fragmentada procura não oferecer interpretações fechadas sobre os personagens do filme, permitindo que seja estabelecida uma relação de empatia do espectador mesmo com aqueles que ocupam os papeis mais desagradáveis, como Francisco e seu neto que rouba toca-fitas de carros na rua. O uso de planos abertos no cinemascope enfatiza o vazio dos espaços enormes dos apartamentos onde os ricos têm espaço de sobra para morar enquanto os planos fechados evocam o grotesco de figuras como Francisco.

Os ruídos da metrópole estão incorporados ao filme para enfatizar que a sua superabundância, nos dias de hoje, faz com que não tenham significado algum, som e fúria significando nada. Os únicos personagens que possuem uma força vital que os conduz à ação e à mudança são os irmãos que comandam a segurança da rua.

Despudorado, engraçado, corajoso e com uma linguagem extremamente bem-articulada, O som ao redor é obrigatório.

 

Trailer

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Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2012



2 Commentários sobre 'O som ao redor'

  1.  
    W. J. Solha

    8 Outubro, 2012| 9:36 pm


     

    Tenho orgulho de ter participado dessa obra-prima do cinema, fato que reconheci logo ao ler o roteiro, cuidado que tive antes de aceitar convite para um texte

  2.  
    W. J. Solha

    8 Outubro, 2012| 9:37 pm


     

    Onde digitei texte, leia-se teste, por favor.

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