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Chocó


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Publicado em 7 de Outubro de 2012

Chocó, de Jhonny Hendrix HinestrozaColômbia (2012)

O filme de Jhonny Hendrix Hinestroza tem um final surpreendente e ensina que antes de tudo uma revolução começa em casa, seja a quebra de um padrão, a transformação da rotina, a definição de novas escolhas ou atitudes. Chocó, que dá título ao filme, é o nome da personagem principal e também um dos departamentos situados no Oeste da Colômbia cuja capital é Quibdó. A região notabiliza-se por sua numerosa população de descendentes de africanos. E é Chocó, a personagem, que nos guia por caminhos da comunidade onde vive e mostra as paisagens dos seu dilema familiar, das relações de trabalho, do amor sagrado pelos filhos, dos ritos religiosos, da violência, do racismo e da complexa realidade que a faz ser Chocó.

Enquanto Chocó trabalha numa mina em busca de pedras de ouro, lava roupa para ganhar um pouco mais de dinheiro e cuida dos filhos e da casa, seu marido apenas joga, bebe e a agride quando ela se recusa a manter relações sexuais com ele. O fato da mulher trabalhar e o marido não fazer nada o dia inteiro nos remete a uma situação similar em A Fontes das mulheres (2011), filme memóravel de Radu Mihaileanu,  que também aborda o papel das mulheres em comunidades violentamente machistas. Embora o contexto destes dois filmes sejam diferentes, em A Fonte das mulheres, um grupo de mulheres andam quilômetros para abastecer suas respectivas casas com água. Já seus maridos, passam o dia conversando nas calçadas do vilarejo. Nos dois filmes há uma questão comum: a mulher e o seu papel numa sociedade na qual os homens ditam regras e relutam a qualquer possibilidade de mudança para não perder o poder sobre as esposas e os benefícios que têm ao explorá-las.

Há muitos fios para tecer discussões a partir do filme de Hinestroza. Chocó é uma metáfora do lugar onde vive e da situação da região no contexto comlombiano. Sua tragédia familiar é anônima. Chocó é agredida, mas a população local não se choca, não reage, parece esquecer sua existência assim como a região é esquecida pelo governo daquele país, mesmo com suas riquezas naturais. Mesmo sendo uma região ainda pouco explorada, o filme mostra a extração ouro nas minas acontecendo de forma indiscriminada e com a utilização de mercúrio, que afeta o meio ambiente e os trabalhadores.

A música é outro elemento que chama atenção e marca algumas passagens do filme. Está presente não só na casa de Chocó, onde seu marido músico toca. Há outras personagens que cantam enquanto trabalham. Também há música nos encontros religiosos, mas a religião dos afrodescendentes que ali estão é a dos colonizadores espanhóis, aqueles que compraram escravos africanos e os trouxeram para a Colômbia.

Chocó, que ama seus dois filhos e é capaz de fazer qualquer coisa por eles, é a síntese da história do seu povo e daquela região. Depois de uma sequência de violações, a personagem reage. Busca ao seu jeito uma forma de resolver a falta de dinheiro para comprar uma simples torta de aniversário para filha. Questiona o marido que gastou as economias dela com jogo e bebida. E por fim, toma uma decisão que mudará o rumo familiar. Chocó é uma entre as tantas personagens que fazem as veias da América Latina permanecerem abertas.

Trailer 

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2012




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