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Bestiário


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Publicado em 5 de Outubro de 2012

Bestiário, de Daniel Côte (Documentário, Canadá/França 2012)

O conceito de espécie vem do latim species, que significa “aparência”, “visão”, “aspecto”. A raiz etimológica do termo é comum a espelho (speculum), espetáculo (spectaculum) e espectador (spectator). A etimologia da palavra espécie revela, desta maneira, uma proximidade originária entre os animais e as imagens conservadas na linguagem, que parece indiciar que a relação estabelecida entre os humanos e os animais no Ocidente sempre passou, de alguma forma ou outra, pelo olho. As instituições que mediaram em nossa cultura os encontros entre os animais e os humanos parecem ter sempre sido grandes máquinas de visão – do zoológico e do circo, aos catálogos e atlas científicos -, dispositivos que instituíram formas determinadas de observar e classificar os animais, que construíram a partir de técnicas separação, catalogação, serialização e espetacularização os nossos modos de ver o animal.

Bestiário é um ensaio poderoso sobre esta enigmática relação entre os animais e o olhar humano. O documentário de Denis Côte é um retrato paciente e rigoroso sobre três instituições no Canadá que produzem o encontro entre um olho humano à deriva e um animal que ignora as razões de ser observado: um workshop de desenho, um ateliê de taxidermia e um parque de safari, sendo a este último que o cineasta dedica a maior parte de seu filme. O filme certamente pode lembrar os documentários institucionais com animais de Frederic Wiseman, como Primata (1974) e Zoo (1993): Côte compartilha com o documentarista americano a sensibilidade de um dedicado etólogo, que observa atenta e meticulosamente os corpos, as ações e o comportamento tanto dos bichos quanto dos homens, assim como a capacidade fulminante de reconhecer nos gestos mais anódinos e nas situações comuns vividas na instituição a violência imanente a suas práticas de poder.

O filme de Côte é construído, contudo, de uma forma completamente distinta daquela de Wiseman. A câmera observacional do documentarista americano sempre filmou a instituição nos modos de um grande teatro; o modelo do drama cede lugar neste filme a uma atividade ao mesmo tempo mais radical e mais modesta: Bestiário é uma coleção de fragmentos. O filme é composto por pequenos retratos arrancados dos seres e lugares, em uma câmera fixa delicada, que são aproximados em uma montagem que nunca apaga as suas lacunas, tampouco os reconstituem em cena, em drama ou estória. O cineasta nos oferece tais pedaços do mundo, ao mesmo que procura reconstituir os modos de vida que animais e humanos compartilham na imanência da rarefação e fragmentariedade de suas imagens.

Bestiário constrói aos poucos a iconografia da vida em cativeiro, em particular com as imagens do parque safari no inverno, quando os animais são subtraídos da visibilidade espetacular. Os recortes de Côte nos apresentam um mundo formado de paredes envelhecidas, cercas, grades e jaulas, ao mesmo tempo que pelos sons metálicos dos corpos que se batem contra as grades e dos gemidos, gritos e uivos dos animais. Vemos as criaturas frequentemente em uma imagem sem perspectiva de profundidade, em composições incomuns, que dificultam a identificação das figuras, o que aumenta a atmosfera de clausura e desolação. A adesão à duração da própria vida em cativeiro tinge o filme com o marasmo da vida dos búfalos, cervos e leões aprisionados, ao mesmo tempo, deixa que o filme seja invadido pela ansiedade e agonia das aves e zebras enclausuradas, com os seus arroubos de movimento e desespero bestial, sempre filmados por uma câmera impassível. Os retratos dos rostos de animais, cujas feições nos são quase sempre opacas, ilegíveis, também pontuam o filme com a sua presença enigmática, quando não nos desperta uma empatia inesperada.

As imagens do safari no verão nos apresentam um imaginário ao mesmo tempo estranho e familiar. Os animais, separados e distribuídos para a sua visibilidade recreativa, guardam uma profunda indiferença em relação aqueles que os observam: uma criança parece se distrair com um macaco que, no entanto, lhe vira as costas; uma família parece se divertir com suas câmeras fotográficas, sem notar que o leão que fotografam é, na verdade, um animal sonolento e sem vigor; uma lhama se recolhe, em meio à gritaria das crianças, à sua impavidez, como se refletisse em segredo. A atenção ao aparato de visibilidade – as jaulas de vidro, as estradas no meio do safari, as cercas – demonstra um interesse em mostrar como a instituição funciona, como que os indivíduos – animais e humanos – são postos em jogo.

A relação que o filme estabelece entre as três instituições aponta, no entanto, para uma reflexão sobre o animal ao mesmo tempo mais profunda e mais misteriosa. As imagens do ateliê de taxidermia, em que vemos mamíferos e aves empalhados nas paredes, parecem ecoar por todo o filme, tingindo-o com a sua sombra. Os animais, reduzidos à sua pura existência imagética, na figura de suas carapaças empalhadas, destituídas de interioridade e alma, são como que o referente último das instituições que o fizeram de espetáculo: o animal reduzido à sua species, à sua aparência pura e simples. Bestiário parece justamente à procura, no entanto, da existência de outras formas de ver, ouvir e estar junto aos animais, através das suas próprias estratégias estéticas, manifesta em sua atenção dedicada ao gesto, sofrimento e ao rosto das criaturas, como se o filme conspirasse para que, entre a gente humana e a não humana, outras comunidades fossem possíveis.

 

Trailer do filme

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