Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Tabu

Tabu


Por

Publicado em 4 de Outubro de 2012

Tabu, de Miguel Gomes (idem, Portugal / Alemanha /Brasil /França, 2012)

Na primeira cena de Tabu (título, também, de um filme realizado em parceria, no início dos anos 1930, por F. W Murnau e Robert Flaherty, a respeito de tema semelhante e que também é dividido em duas partes) vê-se um típico aventureiro dos tempos das explorações coloniais do século XIX, a caminhar pela savana africana. As imagens, em preto & branco, remetem aos filmes de aventura e viagens dos primórdios do cinema, dos quais, no Brasil, os mais ilustres representantes são aqueles do Major Thomaz Reis. Em seguida, vê-se uma senhora em uma sala de cinema vazia assistindo ao filme de aventura. Através desta primeira cena é feita a ligação entre os dois temas do filme: o passado colonial, em África, como dizem os portugueses, e o presente melancólico de pessoas de certa idade, solitárias, que parecem não ter mais muito que fazer da vida. Como personagem central uma senhora demenciada (Laura Soveral) que teima em gastar todo seu dinheiro jogando no cassino do Estoril. Ao longo do filme será mostrado, através da narração (feita pelo próprio diretor do filme) de um senhor (Henrique Espírito Santo) e de um longo flashback que aquela senhora viveu muito tempo em África e que lá eles se conheceram e se amaram.

O filme é dividido, portanto, em duas partes: a primeira, em preto & branco, é filmada em longos planos estáticos que buscam representar o estado de lassidão em que se encontram os personagens e, talvez, Portugal. Na segunda parte, também em preto & branco, o estilo de filmagem adota uma câmera mais livre, a fim de acompanhar a movimentação dos personagens pelos espaços livres da África. Na segunda parte do filme não há diálogos, apenas a narração do velho Ventura a costurar os eventos mostrados na tela. Os momentos de som sincronizado vêm dos momentos em que a banda de Mário (Manuel Mesquita), na qual Ventura é baterista, se exibe, com destaque para a cena da festa na casa da piscina, onde é nítida a homenagem às bandas indies contemporâneas.  Esse é um acerto do filme em sua segunda parte: não há, como em O artista, o pastiche do cinema mudo. Existe um experimento em torno da memória que unifica as imagens da tela através da voz daquele que se lembra delas e não um pastiche de um cinema que não pode mais existir porque, como já foi dito, o cinema mudo sempre quis falar, bastaria, para isso, existirem condições técnicas e financeiras para tal.

Em sua segunda parte, Tabu tem o desenvolvimento de um melodrama e não há muito que se possa dizer contra o filme. No entanto, parece faltar a Tabu mais paixão ao se filmar. Num festival que exibe uma retrospectiva de John Carpenter, isso acaba por incomodar.

 

Cenas do filme

YouTube Preview Image

 

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2012



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

19 de Abril de 2018

  A mostra Corpos da Terra, cujas produções selecionadas refletem sobre a resistência indígena no Brasil atual, tem sua segunda edição entre os dias 20 e 23 de abril. O evento é realizado em parceria com o CineMosca e, além da exibição de filmes, terá mesas de discussão sobre a diversidade de mundos indígenas em […]

Por Revista Moviola

17 de Abril de 2018

  A dica de um precioso acervo para entender a situação indígena no Brasil atual é da jornalista Raquel Baster, mineira que vive atualmente no estado da Paraíba e colaborada com algumas atividades do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTN-NE), entre elas, a oficina de roteiro para o documentário Mulheres rurais em movimento (2016), filme […]

Por Revista Moviola

14 de Abril de 2018

O documentário O desmonte do Monte, dirigido por Sinal Sganzerla, aborda a história do Morro do Castelo, seu desmonte e arrastamento. O Morro do Castelo, conhecido como “Colina Sagrada”, foi escolhido pelos colonizadores portugueses para ser o local das primeiras moradias e fundação da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de sua importância histórica e […]

Por Revista Moviola

12 de Abril de 2018

  O documentário Auto de Resistência, dirigido por Natasha Neri e Lula Carvalho,  aborda os homicídios praticados pela polícia contra civis no estado do Rio de Janeiro. As mortes e as violações dos direitos humanos acontecem em casos conhecidos como “autos de resistência” – classificação usada para evitar que os policiais sejam responsabilizados pelos homicídios, […]

Por Revista Moviola

11 de Abril de 2018

O filme Livre Pensar – cinebiografia Maria da Conceição Tavares homenageia uma das economistas mais importantes do Brasil e, particularmente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A sessão de exibição do documentário ocorrerá dia 24 de abril, às 18h, no Salão Pedro Calmon da UFRJ (Av. Pasteur, 250, 2º andar / Urca). A […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio filme França Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.