Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Hotel Mekong

Hotel Mekong


Por

Publicado em 4 de Outubro de 2012

Hotel Mekong, de Apichatpong Weerasethakul (Mekong Hotel, Tailândia/Reino Unido, 2012)

Alguns minutos são dedicados à contemplação de lanchas que revolvem as águas do rio que corta a Tailândia e o Laos, o Mekong. As lanchas aparecem ao longe, vistas do hotel, à margem. Do ângulo, também vemos uma ponte, uma estação de energia elétrica, a paisagem verde do outro lado do rio. Mas, apesar de toda a agitação provocada pelo movimento das lanchas, o que mais chama atenção é o surgimento de uma canoa. Ao contrário do outro transporte, que vence em termos de aparato tecnológico, o pequeno barco faz seu trajeto vagaroso, retilíneo, silencioso – assim como o rio. Demonstra ter rumo, diferentemente dos outros, que giram em círculos e parecem se comunicar entre si a favor de um divertimento sem propósito além do próprio passatempo. Este é o final, mas também o prelúdio, de Hotel Mekong.

Apichatpong Weerasethakul, a cada filme, atribui ao conceito de natureza um novo significado. Florestas, animais e rios nunca são apenas paisagens ou coadjuvantes. Em Eternamente Sua, por exemplo, um casal vai para a mata fechada para contemplação. Mas lá, a floresta é um ambiente que vai além do cenário: é um pulmão, uma força revigorante, o próprio bem-estar do casal, que está ali não só para passar o tempo, mas para absorver o espaço (e o tempo). Desde então, a floresta em Apichatpong surge diretamente atrelada à espiritualidade.

Em Mal dos Trópicos, essa ligação fica ainda mais clara. A floresta é abrigo de mistérios, que se desvendam por mitos. E é exatamente esse misticismo que aflora com igual ou maior força em Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas PassadasTudo em Tio Boonmee é natureza. Tudo ali tem origem na união explícita entre homem e espírito – búfalo, macacos, bagres, caverna. Por isso, tudo em Tio Boonmee é visto com naturalidade. E assim também acontece em Hotel Mekong.

Mas, desta vez, o “espaço-tempo” do filme de Apichatpong é o hotel, não mais a floresta. Neste lugar, que leva o nome do rio, acontecem situações prosaicas (ou que se passam como rotineiras). O hotel funciona como um ritual de passagem – e passar é o movimento do rio. O que está ali, em breve, não estará mais.

A metáfora tem um contraponto que se materializa na condição da mãe-vampira. A imortalidade, que a princípio seria uma vantagem em relação à efemeridade das coisas e dos seres comuns, é um problema para a mulher. Logo, o pessimismo de Apichatpong se manifesta na angústia da existência: tanto o que acaba e o que não acaba nunca podem ser extremos sentimentos de agonia.

Em mais uma sequência surrealista, um homem, ao vestir uma máscara que se conecta ao cérebro por meio de eletrodos, passa a ter o poder de ter seu espírito separado do corpo “para vagar por aí”. Temos, mais uma vez, a naturalidade da ficção (científica?) de Apichatpong. Espiritualidade pode ser novamente o que alivia esta angústia existencialista.

E Hotel Mekong é mesmo um filme cheio de angústia. “O que você busca?”, pergunta um personagem ao outro. A resposta não vem – o som do diálogo também desaparece. Enquanto isso, o rio continua a passar na frente dos nossos olhos.

 

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2012



1 Commentário sobre 'Hotel Mekong'

  1.  
    Aline

    4 Outubro, 2012| 5:38 pm


     

    fiquei com vontade de ver

Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

19 de Abril de 2018

  A mostra Corpos da Terra, cujas produções selecionadas refletem sobre a resistência indígena no Brasil atual, tem sua segunda edição entre os dias 20 e 23 de abril. O evento é realizado em parceria com o CineMosca e, além da exibição de filmes, terá mesas de discussão sobre a diversidade de mundos indígenas em […]

Por Revista Moviola

17 de Abril de 2018

  A dica de um precioso acervo para entender a situação indígena no Brasil atual é da jornalista Raquel Baster, mineira que vive atualmente no estado da Paraíba e colaborada com algumas atividades do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTN-NE), entre elas, a oficina de roteiro para o documentário Mulheres rurais em movimento (2016), filme […]

Por Revista Moviola

14 de Abril de 2018

O documentário O desmonte do Monte, dirigido por Sinal Sganzerla, aborda a história do Morro do Castelo, seu desmonte e arrastamento. O Morro do Castelo, conhecido como “Colina Sagrada”, foi escolhido pelos colonizadores portugueses para ser o local das primeiras moradias e fundação da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de sua importância histórica e […]

Por Revista Moviola

12 de Abril de 2018

  O documentário Auto de Resistência, dirigido por Natasha Neri e Lula Carvalho,  aborda os homicídios praticados pela polícia contra civis no estado do Rio de Janeiro. As mortes e as violações dos direitos humanos acontecem em casos conhecidos como “autos de resistência” – classificação usada para evitar que os policiais sejam responsabilizados pelos homicídios, […]

Por Revista Moviola

11 de Abril de 2018

O filme Livre Pensar – cinebiografia Maria da Conceição Tavares homenageia uma das economistas mais importantes do Brasil e, particularmente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A sessão de exibição do documentário ocorrerá dia 24 de abril, às 18h, no Salão Pedro Calmon da UFRJ (Av. Pasteur, 250, 2º andar / Urca). A […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 Fest Rio festrio filme França Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.