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O Canto do Mar


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Publicado em 3 de Outubro de 2012

O canto do mar (1953), de Alberto Cavalcanti

A primeira cena de O canto do mar, com um plano distante mostrando uma série de retirantes a caminhar pelo sertão, com um estilo de filmagem documental, evoca imediatamente a lembrança de Deus e o Diabo na Terra do Sol e outros filmes do Cinema Novo, que tinham no sertão brasileiro seu espaço de referência para tratar dos problemas da desigualdade social no Brasil. Quando os retirantes chegam ao litoral, de onde partirão em navios para tentar suas vidas no Sul do país, o filme assume outra natureza, mais próxima à do cinema clássico narrativo, mas com uma forte influência do neorrealismo italiano.

Somos então apresentados a uma família que vive quase na miséria, cujo patriarca é um antigo marinheiro que ficou enlouquecido, vivendo pelas ruas da cidade. O filho mais velho, melhor amigo do pai, deseja fugir dali com uma moça pela qual está apaixonado e o mais novo está muito doente, além da bela filha, infeliz com a vida na miséria. É por intermédio da figura do marinheiro louco que o filme apresenta sua faceta mais interessante: a dimensão onírica, através de cenas de sonhos e flashbacks que retiram o filme do mero registro realista, empurrando-o para territórios mais ousados.

Há uma cena no filme cuja carga dramática e densidade na execução merecem menção especial: a filha da família, cansada da miséria e vendo o estado de sua mãe, envelhecida precocemente pelo trabalho de lavadeira de roupas, exposta dia após dia ao sol inclemente do sertão, resolve aceitar a proposta da cafetina da cidade para tornar-se uma prostituta no cais. Ela então estende um espelho para que sua mãe veja como seu rosto está marcado pelo sol, pelo trabalho. Representação e realidade como metáfora do cinema.

O filme é notável, também, pelas cenas que buscam uma aproximação com a cultura popular brasileira, através da cena da festa do bumba meu boi e das canções praieiras, à moda de Dorival Caymmi.

Acrescente-se a isso um final amargo, no qual a matriarca da família, que sempre desejou colocar seu marido em um hospício (há duas cenas magníficas no filme, uma no plano da realidade, em que o marinheiro louco é recusado no hospício por falta de vagas e outra no plano do sonho, no qual o filho mais velho tem o pesadelo de estar sendo, ele próprio, internado em um hospício) acaba por levá-lo à morte, e temos um dos clássicos desconhecidos do cinema brasileiro.

 

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2012



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