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Eles Vivem


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Publicado em 30 de Setembro de 2012

Eles Vivem, de John Carpenter  (They Live, Estados Unidos,1988)

A abertura de Eles Vivem (1989) nos apresenta a chegada de John Nada (Rodney Piper) a Los Angeles em busca de emprego. A figura solitária do forasteiro outsider, embalada em uma atmosfera de desolação pontuada pela trilha sonora, aparece para marcar logo de início a que tipo de filme estamos assistindo: trata-se de um western, um western urbano, como são conhecidos vários dos filmes de John Carpenter. O herói vem, contudo, não apenas de um outro lugar no espaço; ele parece vir – perceberemos logo – de um outro momento no tempo. John Nada é um herói anacrônico, hawksiano, oriundo da América que o cinema americano clássico construiu a mitologia: a América dos valores da liberdade individual, da independência e da bravura.  A América com a qual John se encontra quando chega à cidade é aquela que perdeu qualquer memória dos valores pelos quais os founding fathers lutaram, ou que os perverteu completamente: a América em que o dinheiro e o consumo se tornaram a forma de socialidade dominante, onde o que restou da liberdade foi a liberdade de mercado. O confronto deste herói outdated e o meio corrompido vai ser construído, no entanto, em um plot de ficção científica B: a Terra foi invadido por alienígenas que fizeram do planeta um grande negócio; os invasores vivem entre nós em segredo, controlando o nosso pensamento através de sinais emitidos pela televisão e pela publicidade.

A aventura de John Nada começa de fato quando ele encontra uma caixa abandonada cheia de óculos escuros. Desenvolvidos por um grupo de dissidentes, os óculos permitem que o seu portador reconheça através de suas lentes os alienígenas e os sinais pelos quais eles nos controlam. As imagens vistas através destes óculos, inseridas no filme, nos mostram uma paisagem urbana meio vintage, que parece saída de um cartão postal dos anos 1950, enquandrada em uma fotografia em preto e branco rigorosa, em que nos é desvelado, por trás de outdoors e campanhas publicitárias, as verdadeiras mensagens que os alienígenas lançam para nós. Mensagens de conteúdo primário, estampadas em tinta preta em fundo branco: Obey, Consume, Marry and Reproduce, Sleep, Conform. Com os óculos, John vai se tornar “um daqueles que vê”, como diz um personagem do filme. Forma-se, deste modo, as coordenadas pelas quais Carpenter vai escrever sua carta aberta de reúdio aos Estados Unidos da Era Reagan. Carpenter é curto e grosso na alegoria. É nesta obviedade assumida, não sem que ironia, que reside a sua força.

Eles Vivem marca o retorno do cineasta ao cinema B, depois de várias experiências financeiramente fracassadas com os grandes estúdios. O retorno ao baixo orçamento, contudo, parece vir assinado não apenas pela desilusão, mas por uma vontade anárquica de explodir tudo pelos ares. Se Eles Vivem é um western urbano anacrônico e uma ficção científica de esquerda, ele também é um filme de ação, em um sentido bruto e concreto da palavra. John e seu amigo Frank iniciam a sua caçada aos alienígenas, se juntando a um grupo de revolucionários, que resistem aos invasores. Eles Vivem se torna, então, um filme de insurreição, cinematográfica e política. O filme se desenvolve em uma espiral crescente de cenas de ação como em poucos filmes de Carpenter, que são filmadas ora a partir de um distanciamento irônico, quando não paródico, ora a partir de um distanciamento plástico, em que vemos o cineasta interessado em experimentar novas composições e ritmos, em especial nas rigorosas sequências de combate com a polícia.

As melhores cenas do filme talvez sejam justamente as que Carpenter consegue conciliar o mau gosto deliberado e o senso de anarquia deste filme com o equilíbrio de suas composições e a sobriedade clássica de sua encenação. Este é certamente o caso da sequência mais memorável do filme: a cena em que John e seu amigo Frank brigam. A cena é inacreditavelmente longa, durando cerca de 10 minutos de pancadaria orquestrada.  Rodney Piper é ex-lutador, o que justifica a sua desenvoltura ao mesmo tempo graciosa e brutamontes na luta. A cena funciona como um jogo combinatório: todas as combinações possíveis de golpes e posições entre os atores são postas em jogo por Carpenter, que acompanha com precisão e pulso os seus movimentos, explorando ao máximo a iconicidade que os seus corpos conquistam em cinemascope. Os movimentos são repetidos à exaustão, sem progresso narrativo ou crescendo dramático, deslizando, assim, quase imperceptivelmente, do realismo à paródia e desta novamente ao realismo, conquistado do espectador um riso cúmplice. A sequência não é completamente gratuita: tudo que John quer é fazer Frank por os tais óculos da verdade, o que ele recusa com violência. Frank precisa, deste modo, apanhar bastante para poder, enfim, enxergar. Ver, afinal, não é fácil, não pode ser.

 

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