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Killer Joe – Matador de Aluguel


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Publicado em 29 de Setembro de 2012

 

O mais recente trabalho de William Friedkin é um típico exemplo de adaptação que, mesmo conservando boa parte de seu roteiro e mise-en-scène da peça original, foge completamente do que se chama perjorativamente de “filme teatral”. O cineasta produz uma obra completamente visceral que envolve o espectador num crescendo que remete aos mais novos trabalhos de Tarantino misturando uma decupagem veloz e diálogos afiados além de um toque básico de referências pop.

Quanto à segunda qualidade evocada, o cineasta se esquivou na coletiva de imprensa após a estreia mundial no ano passado durante o Festival de Veneza, no qual infelizmente o filme foi completamente esquecido na noite de premiação. “Tem muitos filmes bons que vêm de peças, livros, videogames, tudo quanto é lugar. Mas na peça, os diálogos já são ótimos”, dando os créditos ao autor da peça e responsável pela adaptação, Tracy Letts.

Mas quem assistir ao filme pode comprovar que o veterano diretor não se aproveitou corriqueiramente de um “copiar/colar” ao transportar a obra dos palcos às telas. A primeira cena que se passa no meio de uma tempestade já demonstra o apuro visual que a equipe vai estampar na obra.

A história se desenrola em um quiproquó numa família desajustada que mora em um trailer. Pai (Thomas Hayden Church) e filho (Emile Hirsch) bolam um plano para matar a esposa do primeiro (Gina Gershon) e dividir o seguro que a filha deles (Juno Temple) irá receber. Para cometer o crime perfeito eles chamam Killer Joe (Matthew McConaughey), um policial texano que faz hora extra.

O elenco trabalha na mais perfeita sintonia. McConaughey é o destaque, como o policial meio psicopata que cuida do visual e escolhe com cuidado as palavras que dirige às personagens com igual atenção que usa com as armas. Charmoso, inteligente e decidido, fica apaixonado pela personagem de Juno, uma menina de apenas 12 anos e decide exigir ela como garantia. É um personagem inesquecível e até agora marca o ponto alto da carreira do ator que nunca tinha feito tanto a graça dos críticos quanto do público.

Hirsch está um pouco irreconhecível como um jovem apressado, rebelde e rude, mas que tem uma atenção especial pela irmã, e fica sempre entrando em conflito com a madrasta, interpretada com maestria por Gershon que cria uma personagem multifacetada quando poderia muito bem cair no caricatural. A mesma situação acontece com Temple, de 22 anos, que faz uma caracterização visual e de personagem muito boa, já que sua personagem tem 10 anos a menos. Se não chega a convencer, não era esse propósito que o filme pedia, utilizando muito bem os exageros na criação.

Ao lado de McConaughey, o destaque é Haden Church que aqui parece lembrar seu passado televisivo em Wings, com um personagem sempre a par de tudo mas cuja maior preocupação se resume a apanhar mais uma garrafa de cerveja. Suas caras e bocas enquanto vai ficando cada vez mais atrás do jogo intelectual interpretado pelos três outros adultos são igualmente sensacionais.

Se a montagem traz lembranças de um telefilme em alguns momentos (especialmente os primeiros 15 minutos de projeção), ela engrena incrivelmente no final, incluindo algumas cenas antológicas, como a da galinha. E o último plano cria uma discussão interessantíssima sobre como criar uma narrativa, especialmente cinematográfica, mas que também pode ser ampliada aos campos teatrais e literários, apesar do choque inicial.

 

Trailer do filme

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Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2012



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