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Olho Nu


Por

Publicado em 26 de Setembro de 2012

 

“Que coisa magnífica e deliciosa é um ser vivo! Como ele é bem adaptado à sua condição, como é verdadeiro, como é pleno de ser!”

J.W. Goethe

 

Desde Nelson Cavaquinho, de Leon Hirszman, não víamos uma obra tão densa e criativa da MPB, no cinema brasileiro. Claro, sem esquecermos Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos. E muito ainda se poderá escrever sobre o longa Olho Nu, de Joel Pizzini, que documenta a vida e a obra barroca e selvagem (no bom sentido) de Ney Matogrosso. Filme-labiríntico sobre um cantor, pensador, transgressor e ator gigantesco. Uma lição de vida, de postura e de cinema. Personagem épico da nossa música popular. Um cantor raro que num só gesto se funde a um ator-autor-história e natureza.

Filme que numa montagem delicada e densa de mais de trezentas horas, documenta com maestria uma vertigem poética e edificante que nos faz romper com o pobre e empobrecido cinema de mercado (sem mercado, pois filme nenhum se paga), que hoje reina como continuação do velho regime empresarial-policial-militar da ditadura. Mas como foi que nos deixamos transformar neste corpo sem vida criativa? Neste corpo sem vida da política? Esteticamente pobres nos acomodamos a linguagem televisiva das novelas. Mas… também a TV poderia ser melhor. Só que não num país como o nosso dominado por latifúndios tanto da terra, como do ar. Ou seja, aqui ainda manda o atraso e o dinheiro sujo. O espetáculo burro e a violência policialesca.

Digamos que o novo filme de Joel Pizzini é uma espécie de acesso direto ao espaço da consciência e do prazer. Somos conduzidos ao espaço infernal, transgressor e criativo do prazer de ser para a vida plena, e não para a morte. E o que Ney Matogrosso vive na música brasileira é o impalpável, o incontrolável de um tempo sem tempo, onde cada momento é único e definitivo com o público se conscientizando da necessidade de despir-se da porca moralidade, da religião castradora e de obrigações idiotas como pagar contas, impostos avassaladores e trabalho obrigatório onde se assassina todos os dias o prazer de estar vivo.

Entra aí o Ney-ator bidimensionando uma multiplicidade de caminhos e confrontos onde filme e personagem se reconhecem num horizonte de expressões transgressoras entre Artaud e o nosso inventivo José Celso Martinez Correa de A Selva Nas Cidades e a primeira e mais fantástica montagem de O Rei da Vela. Talvez Ney seja a sua vivência na MPB: um ator-cantor além de todo e qualquer julgamento menor. Ou seja, Ney é um irradiador de luzes investigativas. Um espelho que reflete mesmo na escuridão das ordens e proibições. E que indo sempre além, pode amedrontar as eternas viúvas da repressão. Mas também iluminar e potencializar o seu próprio sol da criação.

Sujeito político na superação da imunda política partidária do nosso tempo. E que, não sendo parte da mercantilização da mass média, a supera expondo-se como instauração de uma desordem ordenada do seu próprio corpo-movimento. Na desconstrução moral de uma ordem para todos, junta-se a uma estratégia sexual brilhante do possível, transformando a alienação da informação e do mercado em diversas teorias através das quais a “videovigilância” da nossa “nova” história torna-se banal. Ou seja, o grandioso não é representar o idiota-religioso-culpado da TV, e sim cantar e interpretar, para inclusive se superar sempre.

Cá entre nós, muito mais profundo que ser um burocrata palaciano, ou um político idiota dos nossos muitos partidos, sempre com uma falsa resposta afirmativa pronta na TV. Televisão que sempre serviu ao capital, não a criação. Daí se entender esse bolo fecal de “celebridades”, sucesso, censura, moral e a repressão a felicidade plena para todos. Ney canta os excessos do gozar o momento. O momento do movimento arbitrário de cada música. Digamos, uma reestruturação de tempos inacessíveis aos idiotas da ordem de difusão do descompromisso com o prazer. A música para Ney é uma vitória sobre si mesmo. E que chega ao ator potencializado por um corpo livre, cintilante, variado e multicolor.

E longe da bizarrice de um bufão, é um ornamento da beleza e da razão. Sua autenticidade cênica tem a gravidade e a poesia da vida e da morte, numa constante superação de atos moralizantes desestabilizadores das pulsões vitais da vida. É na nossa música popular brasileira, talvez o mais catártico investigador dos limites do prazer, pois é como canta, dança e interpreta. Ney é artesanal, osso, terra, livre e solar. Por trás de tudo está a leveza desnudada da sua voz espelhar, das suas questões e, sempre, do seu ritmo avesso a um ser satisfeito com a baixaria política da imoral normalidade vendida pelos meios de comunicação de massa.

Olho Nu é uma vitória exigente e nobre do nosso cinema. Indo com o seu épico personagem a uma nitidez dialetizante do bem que ao negar o mal torna-se performático e polêmico. Ou seja, supera-se se apropriando tanto do aprazível como do ridículo da falsa comunicação sem prejuízo algum para a música popular ou para o nosso cinema. O filme (para nós, o melhor de Joel Pizzini) é uma espécie de uma catedral inacabada de questões plásticas e teóricas. Dois artistas que se juntam numa completude de sonhos, passagens e encantamentos nobres. E cada sequência, cada enquadramento é uma rica expressão grandiosa de vida não-mecânica. Um espetáculo não bestializado pelo capital religioso da moral. Com razão Ney se sai como um gigante em experimentações e rupturas que o regem da cabeça aos pés. Ao se expressar com o corpo como uma escultura viva de Rodin, abandona definitivamente as poses fáceis e digeríveis de serem vendidas no mercado de carne humana: a TV! Seu corpo cênico é uma rara força teatral submetido as desarticulações da Commedia dell’Arte.

Daí o nome mais do que sugestivo do filme impossível de Joel Pizzini. Este jovem cineasta deixa a sua marca além da imagem. No que faz e aborda. Em suas ações. Também de espírito e de corpo. Sua linguagem também se impondo como a da “efetividade”. Pela dedicada elaboração do material que toca e que, transformando em imagens, se eleva em tautologias de mistérios da criatividade na didática, montagem ou edição esmerando numa intimidade da obra, do corpo que toca; presença e marca de seu trabalho. Efetividade confirmada nos curtas e agora nos longas. O cineasta confirma a sua presença nas obras como força estilística, elaborando, assumindo e acrescentando como força estética, histórica e dialética. Consciente de concepções e de possibilidades reais no universo das contradições. E com uma significação definida: a de chegar à elevação do humano, demasiado humano.

Ao falarmos de filme impossível como esse Olho Nu, é difícil não falarmos no mercado impossível para o cinema nacional que o irá receber. Quando deveríamos estar em festa para o lançamento desse, considerado impossível, pela grandeza da obra como mais um filme nacional sério, denotação de arrojo, conotação incomparável pela transfiguração na abordagem do universo de um personagem de tamanha magnitude que até ele imbrica, como formação histórica e como ações artísticas e humanas de sentido pessoal, particular e universal. Personagem de verdadeira epopéia moderna de embates e transfigurações.

Afinal, somos uma nação de cinismos e diluições e, da criação de nosso próprio cosmos e onde tudo o que se torna sólido, jamais se desmancha no chão. Idealismo que o personagem desse filme desmascara e desmistifica com astúcia, vontade, arte e dialética. Protegido pela música que o eleva como esfera, a impossível de se desmanchar, em harmonia no cosmo em sua teogonia. Em companhia de Hesíodo, Apolo, Dionísio e outros deuses mais sábios do que nós, pobres humanos e caudatários da força bruta que nos empareda na história, na arte e na vida.

Impossível também falar de um filme importante como esse de Pizzini, das dificuldades que irá encontrar pela frente, sem falarmos da realidade brasileira, que nunca deixou de ser realidade de país dependente e subordinado econômica, cultural e cinematograficamente. Realidade de uma democracia diluída, globalizada e de fracionamentos aristocráticos; os que o cinema sabe elaborar, pela correlação de forças, numa profissão sempre dominada pela elite e o aburguesamento de nossa má formação carente de histórias originais e dialéticas. O que Celso Furtado como ministro de nossa cultura, tentou tocar, sem resultado. Porque sólida, endurecida e patrimonializada, bem no chão.

Cultura que virou produto massificado e de povo tiranizado, policiado, vigiado e punido, como proteção dos estamentos. O que estão fazendo com o nosso cinema, e sempre fizeram, mas, protegendo o que existe de força permanente a favor do cinema de nenhuma grita contra o dominador estrangeiro, compensador. Tem sido raro um artista escapar como Joel Pizzini, nesse seu Olho Nu. Ele resiste com força máxima. Artística, estética e cultural; de formação. Para o homem brasileiro e para o cinema. Cinema que nasceu como uma progressão do mito. Ideias, imaginação e imagens – TELAS! Estas ocupadas em todos os lugares. Sem histórias, ações e dialéticas. Reproduções, produtos fetiches e religiões! Sem o nosso primitivo, o histórico, os primeiros passos na superação de idealismos e necessidades do que nasce nas feiras de trocas e primeiros encontros (Antonio Olinto), guetos e botequins para desaparecimento e descrédito nas academias. E sem transmutações de valores! Tarefa heróica a de Joel Pizzini. Ainda necessitamos demais desses heróis!

E da arte e da estética em seu sentido máximo. O de uma sensibilidade ampliada pelos movimentos de alterações macroestruturais, depois de percorrida a história como antecipou Hegel para chegar a algum princípio dialético, este que Marx ampliou. Indo além da Fenomenologia do espírito. Criando espírito e corpo como substâncias, princípios humanos, mais dialetizados para que o ser feito de si mesmo, pudesse corresponder a esta significação que a nossa cultura não permite, retarda, como alienação e exclusão. Como neste filme de Pizzini. Repetindo: obra de substância demais humana. E de Ney Matogrosso como personagem e, quase mito, espírito e corpo, história e ações de linguagem mais musical em equilíbrio corporal a caminho das esferas. Incomparável como sempre foi e, como o conhecemos em seus primeiros movimentos, como um pássaro da noite em voos de Minerva. A astúcia dos sentidos. Movimento de contradições, definindo extremos! Ney de Olho Nu. Visão mitológica de espírito e corpo que se desnudam. Para uma proteção sem limites da liberdade e de uma verdade conquistada com luta e sacrifícios; a exemplo de Prometeu. Joel Pizzini já está recompensado pela obra plenamente realizada. Um filme necessário à história da MPB, ao cinema e à vida.



2 Commentários sobre 'Olho Nu'

  1.  
    Flávio Queiroz

    12 Outubro, 2012| 12:34 pm


     

    Boa tarde sou Prof.Fávio da UFC e em tese de doutorado abordei o cantor Ney matogrosso.Não conhecia a revista, achei deslumbrante.Parabéns pela proposta bem como pela matéria acerca do filme do Olho nu.

  2.  
    Elis Galvão

    14 Outubro, 2012| 11:12 pm


     

    Que bom, Flávio. Bem-vindo à Moviola.

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