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Marighella, o santo ateu do socialismo


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Publicado em 17 de Setembro de 2012

 

Tudo que é fecundo no Brasil não vinga! Predomina uma mentalidade de fechamento para os sonhos, a poesia e a beleza. Qualquer desvio criativo é o isolamento ou a morte. E no que nada é alterado, propaga-se o mau gosto das elites numa priorização infindável de fascismos. Eis o porquê do predomínio da anormalidade como a melhor expressão para o nosso empobrecido cinema de mercado. Mercado sempre ocupado pelo lixo de fora e de dentro. Como foi sempre assim, e só piora, o que pensar? Com a prometida abertura, não viria um novo país? Cadê? Já não nos bastou a pauperização cultural dos anos de chumbo?

Mal chegávamos à juventude e caímos na ditadura. Aqui a política foi sempre uma coisa distante só para os engravatados. O país foi sendo levado numa desaceleração dos sonhos de todos nós. Aqueles que lutavam por uma verdadeira Democracia, eram tidos como bandidos ou terroristas! E mesmo assim fomos todos perseguidos e censurados, pois a difusão da verdade estava proibida. Tudo estava hierarquizado numa espécie de estandardização do horror! Queríamos através das imagens, construirmos um outro país. Dar feições humanas não só a cinema, como a vida de todos. Fomos confinados em espetáculos de medos e humilhações!

Muitos morreram, muitos enlouqueceram, muitos desapareceram. O Continente foi todo ele transformado num cemitério de aberrações. E, no sufocamento do diálogo, o repertório passou a ser o engodo da dominação técnica. Ou, a mecanização das ideias como se aqui ou lá fosse um grande quartel. Ou seja, nunca foi dado ao povo acesso ao pensamento e ao saber. Menos a ainda a sensibilidade. Foi sempre levado como gado da cachaça para o futebol. Como apropriadamente pensavam os teóricos da Escola de Frankfurt: “…o capitalismo em sua forma mais avançada, a diversão e o lazer tornaram-se um prolongamento do trabalho”, e que vem até hoje vitorioso.

Mesmo com as pequenas mudanças aqui e ali, o povo segue sendo idiotizado pela religião, pelo espetáculo e pela TV. O “filme” Batman lançado em 900 cinemas é o quê? O que faz no poder a nossa ministra da Cultura que finge que nada sabe ou vê? Algum cineasta condenou publicamente essa ocupação criminosa e militar do nosso espaço? O projeto do Brasil, lamentavelmente segue sendo não mexer em nada! Ênfase aos novos clichês das novelas ao Neimar! O povo leva-se no espetáculo das inutilidades. Ir ao cinema, só se for filme de Hollywood. O bonequinho aplaude e fica de quatro. Quantas estrelinhas ou bolinhas para essa sua posição?

Bons filmes ainda são feitos aqui. Mas os aplausos e reverências só são para as “periguetes” de Hollywood. O governo agradece e elabora novos aumentos! E com isso nunca se enraizará entre nós o respeito pelo humano. Ora, como se justificar que se morra desencantado hoje com o país? Os jovens sonhadores e combatentes do passado envelheceram, e o que se vê são novas percepções de fascismos. Será que todas as entranhas do país estão definitivamente podres? Não poderia ser tudo diferente? Sensibilidade deixou de ser referência? Vimos pela terceira vez o delicado filme Marighella, Isa Grinspum Ferraz, com seis espectadores na sala. De quem é a culpa dessa decadência e desinteresse pelo olhar questionador de uma jovem realizadora?

O tal do Tufão, na TV, é a ênfase que se dá ao olhar? Mas na ditadura não foi assim? Não mudou nada? Creiam, muitos são os que continuam exilados no nosso próprio país. Os novos idiotas que foram filmar em Hollywood, se sentiram traídos lá, e vivem de pedir desculpas. Cineastas de aluguel! – são como são chamados aqui. Ultrapassados pela própria história da humanidade. Podem acreditar: nenhuma ficção dos últimos anos é tão humanamente verdadeira e criativa como o longa de Isa Grinspum, sobre o seu tio Marighella. Vendido como bandido perigoso no passado, e mostrado hoje como humano no cinema.

Claro que deve ter lá cometido seus erros, mas foi um homem muito maior que esse nosso tempo de anões, vampiros e mensaleiros. Mesmo o cinema que poderia ser diferente da TV e melhor, segue sendo superpovoado de múmias e idiotas. Mas… o que dá dinheiro  não é mais este ou aquele filme visceral, mas a pipoca com Coca-Cola. Diante da tela sem verdade alguma, os arrotos infindáveis dos novos abastados. Tornou-se difícil explicar o declínio do cinema de ideias. Mas como dizia Pascal muito apropriadamente: “Ninguém morre tão pobre que não deixe alguma coisa”.

Uma outra questão: tentar entender os conflitos do passado não nos leva a um presente melhor? O desprezível não deveria ser o bom cinema brasileiro, mas as estranhas influências hollywoodianas. Influências que atuam na economia, na cultura e no conteúdo. Ora, como não compartilhar e defender com este delicado filme sobre Marighella feito por sua sobrinha Isa Grinspum? Muito apropriadamente Rosário Fusco dizia que: “Ação é criação. Fazendo é que se inventa, na hora: aqui, já.” Esta suma de uma concepção estética de um pensador amigo de Drummond e companheiro de Humberto Mauro naquele longínquo e inesquecível movimento cultural de Cataguases, cidade mineira, nos acompanhou obrigando-nos a pensar em Marighella não só como um ser humano quase único mas, também, como alguma coisa de mitológico: olhar, imagem, imaginações.

Aquele, que logo de início fez do verbo, ação. Inventando não somente a si, mas, essa coisa que sempre nos fascinou: uma invenção do mundo.  Marighella não inventou só o Brasil, o seu Brasil. Inventou o mundo. E o percorreu transformando o nosso futuro em agora, hoje, num pacto nunca desfeito: utopia, arte e ação, assumindo o em si e o para si. O que encantou Sartre, Godard, Cris Marker e muitos de nós, seus companheiros em suas experiências de campo e sonhos, esperanças e utopias, Em campos muito próximos, mas não tão expostos que a coragem, a imaginação e as ações de Marighella, até o mito intimida! Ele humanamente, poeticamente, elegantemente desafiou todos, sabendo ser a vida única e o tempo para vivê-la, exíguo demais. Principalmente quando poucos sonham e não podemos transformá-los em realidade como a dialetizada e construída no seu mundo, vasto mundo, intenso, particular, extenso, seu… de todos nós e de todo mundo. Marighella é essa estética de Rosário Fusco! Só a temos com essa intensidade se a construímos com o que temos e com o que nem temos. Mas… sensorializamos, sentimos, nos envolvendo, não ficando em cima do muro, mesmo sabendo que a luta é só uma fuga da prisão em que nascemos!

 

Marighella, o filme. Pequena obra-prima no sentido artístico, estético e acabado como apreendemos. Do início ao fim, incluindo os letreiros finais. Edição, sonorização, finalização transfigurando para as elevadas veredas da imaginação como o rap, irrepreensível, como o mais belo réquiem possível à nossa imaginação, à lembrança do bravo artista do sonho e das utopias brasileiras, transformado em guerreiro. O guerreiro da beleza, que nem a morte pode enlutar. Marighella, material histórico, didático, poético, dialetizado, significado e significante. Significações para a formação e o aprendizado de geração e gerações que se aliena e se alieniza de escolarizados e diplomados que não sairão do lugar; nem que as filantropias os elevem com as religiões e ideologias.

Marighella foi tudo isso: esse Brasil inexistente, mas sonhado e sambado, futebolizado, globalizado… Como definiu muito bem Antônio Candido, ao se definir como um dos maiores mestres da cultura brasileira, de cuja crítica ninguém pode sair indefinido, ileso ou elevado, sentenciando Marighella, com aquele seu profundo olhar de pesquisador. Sensibilidade e paixão; pela alma desse povo esquartejado e que só aos poucos, ao longo de milênios, o corpo, a inteiridade, o em si e a alteridade vão sendo montados e reconstruídos. De ações, paixões, coragem e poesia.

Disse Antonio Candido: “Marighella era um anjo sem deus, porque era ateu.” Que bela figura construída com tudo; substancias, elegância, imaginações. Hipérboles e todas as demais companheiras de retóricas e elevatórias. Como só Antonio Candido tem competência! Marighella, uma obra realizada com o rigor do mito. O que não se deixa comprometer. Como uma obra de arte que só pode ser analisada depois de acabada. O tio Marighella foi visto pela sobrinha-diretora como um ser acabado, finalizado, depois de plenamente elaborado por tantas naturezas inseparáveis. As dos fenômenos e as das imaginações e utopias. Com tudo isso desaguando na práxis. E com uma elevação inesperada, acima de todas as ideologias, e sem negar as utopias. Universo de um ser único que, sem negar sua individualidade, só caminha carregando a totalidade e, com ele,  a transfigura num dos momentos mais trágicos de nossa realidade: o da tortura ao crime. E quando a morte não enluta, nos fazendo celebrar o mais belo e popular réquiem que o Brasil conhece. Esse rap de memória, histórias e mônadas de uma totalidade.

O rap de Mano Brown, como réquiem e como uma celebração, um canto da elevação de Marighella. De cujas alturas ninguém o tira. Nem a história. Nem o esquecimento da memória. Porque na natureza, nada se perde. Se transforma. Como a transformação de cada um de nós depois desse filme genuinamente brasileiro, sem tela, exibido em um único cinema de um circuito de bancos. E repetindo uma vez mais: enquanto Batman, filme americano, exibido com 900 cópias em, no mínimo 4.500 sessões e integrando o circuito de um sistema globalizado econômica, política, militar, cultural e ideologicamente. Em todo o país e com as imagens de um Brasil inexistente. Desterritorializado, sem princípios, sem vontades e sem identidade. E com a nossa existência podendo ser aqui, como em outro planeta. Em Marte, por exemplo, onde a Nasa gasta mais de 2 bilhões de dólares para pousar um artefato espacial! Brincando de videogame.

Marighella é então esse filme. Tão indefinível quanto possível. Porque tanta coisa e, por que não, tudo! Para todos nós que queremos e amamos um Brasil e uma brasilidade, a de Marighella, este que Isa Grinspum conheceu, pesquisou, amou, imaginou e filmou numa espécie de ressurreição sob o prisma da vida e da morte, como numa visão trágica nietzscheana permeada pela beleza, não de Apolo e Dionísio, mas pelo gráfico de precisão da arte espessando e espelhando tantos movimentos e tantas ações, também indefiníveis, porque entre luz e trevas. Auroras e crepúsculos! Essa vida mágica, fantástica de sonhos e de utopias. Uma vida Marighella! Marighella empírico e idealista. O princípio de Kant, para depois num diálogo franco e aberto, específico e maduro, com o logos para alcançar à dialética. E com ela indo até o fim, nos deixando os esclarecimentos necessários e indispensáveis, para nosso futuro caminhar. E que não devemos antecipar, como essa negação que tem sido nossa carga a carregar.

O que sempre assusta e desequilibra em nosso empirismo e em nosso idealismo, por mais transcendente, envolvente e sensorial, e como representação de nossas ideias, está sempre faltando mais, como nossa elevação. Como esquerda e direita. Sem rumos e no mesmo lugar; de um gráfico que, hoje, já conseguimos definir melhor. Felizmente. E sem muitas perguntas, porque já são respostas. Como contradições, circunstâncias e convicções. Somos como os escorpiões. Essa é nossa natureza. Fenomenologias que filosofam. Ainda temos os mortos como Marighella, com quem podemos contar!

E, ao final, com um gráfico político, poético e dialético, de cuja luz foi iluminado para nos refletir e advertir que a luta, a nossa, continua nas trevas e que a nossa esquerda como a nossa direita têm o mesmo sentido. O de uma continência militar, essa nossa paralinguagem de nada explicar. Mas com substâncias de um mesmo fenômeno físico, político, histórico e cultural; células de um mesmo tumor, difícil de extirpar. Como o nosso cinema. O de Roliude e o feito por nós mesmos….(?).

Felizmente, ainda contamos com muita arte, muito rap e muita poesia para esbanjar. Como nessa obra mais do que necessária, orgânica e formadora para todas as gerações. Prima, sobrinha e histórica. Muito de nós. Como memória, exemplo, espelhos e espessamentos. Sem esquecer, jamais.


Veja o trailer

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3 Commentários sobre 'Marighella, o santo ateu do socialismo'

  1.  
    dina moscovici

    18 Setembro, 2012| 2:45 pm


     

    os comentários de Rosemberg sempre ajudam a reconhecer o
    BOM CINEMA

  2.  
    MIGUEL PENNA SATTAMINI DE ARRUDA

    18 Setembro, 2012| 3:54 pm


     

    O artigo sobre o filme de Marighella é maravilhoso, de uma clareza impar e mostra um pouco o porquê o Brasil atual está atingindo um nível insuportável de falta de cultura, educação e civilidade. Somos escravos do cinema americano, o maior lixo jamais produzido por qualquer país do universo. Parabéns aos autores.

  3.  
    luciane

    23 Setembro, 2012| 12:16 pm


     

    preciso ver!

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