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O cinema que pensa


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Publicado em 22 de Agosto de 2012

Confesso que, mais que encontrar respostas, fui encontrando perguntas que cada vez se fizeram mais insistentes.  Como questionar o que está não apenas tão próximo de todos nós, mas, especialmente, o que já faz parte do nosso próprio existir? Todos já estamos marcados pela experiência que nos é proporcionada pela magia das imagens projetadas num écran.  Imagens que nos transportam a mundos diferentes, há tempos que apontam para horizontes inexplorados.  Vivemos em meio às ideias encarnadas, marcadas em nosso corpo, mas pretendemos criar um afastamento de nossa sensibilidade, desencarnando-as, para atingir o pensamento. Mas, o pensamento é um trabalho que se leva a cabo com todas as possibilidades do nosso corpo, tal como foi marcado, escrito pela série de dramas que nos constituem.

O cinema é, especialmente, arte de identificação, onde o próprio pensamento se faz carne. O cinema é luz, mas, é também sombra.  É também o escondido, o retraído, o não ser, a morte, o crime, a loucura.  Epifanía, fulguração.  Somos nós mesmos contando-nos infinitas vezes as nossas vidas através de outras vidas, nossas próprias imagens especulares. Contando e recontando imagens, repetimos indefinidamente nossas próprias experiências.

Considerado em sua totalidade o cinema é um reino prodigioso. Nenhuma arte pela força de sua expressão atingiu um tão vasto público. Milhões de pessoas vão periodicamente ao cinema.  É ainda a grande ilusão onde aparência e realidade se misturam. A nossa reação diante de um filme tem relação estreita com o nosso processo inconsciente. Atuando por identificação, o filme dá a impressão ao espectador de uma realidade das coisas que acontecem na tela.  Nós identificamos com os diferentes personagens, vivemos suas vidas.  Ou são os personagens os que vivem nossas vidas?

Nenhuma outra arte é capaz de produzir um fenômeno de identificação tão completamente.  Talvez, quem sabe, lendo um romance, podemos “imaginar” uma realidade. No teatro, podemos aceitar uma realidade que nos apresentam, mas, é apenas no cinema que esta realidade se impõe por sua presença.  É uma realidade particular, que por certos aspectos pode ser assimilada à realidade das imagens oníricas. A identificação está em proporção direta com o movimento fílmico.

No teatro, existe uma aceitação à priori de uma convenção proveniente do fato de que o tempo e o espaço que nos são próprios (as fugas do tempo no teatro moderno, tem origem no cinema) se encontram enquadrados por um décor fictício e em situações fictícias. A convenção faz aceitar esta convenção durante a duração do espetáculo, o que não impede a atitude crítica e objetiva do espectador, que se manifesta nos intervalos, e mesmo durante o espetáculo.

O cinema, ao contrário, possui um tempo e um espaço que lhe são próprios e completamente diferentes do tempo e do espaço real.  Esse tempo e esse espaço nascem de um movimento particular que dão vida própria às imagens.  Aí, no cinema, nos não aceitamos uma convenção, mas, simplesmente, o espaço e o tempo engendrados nos obrigam a identificação.

Nestas metamorfoses dos espaços-tempo não existe mais o simples espectador.  No cinema, cada um faz o seu papel.  O espectador não é passivo.  Ainda que as condições da projeção – o escuro e o isolamento sejam propícios a distender as tensões, não se pode esquecer que o filme não passa unicamente na tela.  A complexidade do fenômeno fílmico exige a cumplicidade do espectador. Se o modo de expressão fílmico pode ser comparado a um sonho, o espectador é, aí, dono de seu sonho.  É o espectador quem faz a síntese.  E é graças a ele, a sua inteligência e a sua sensibilidade que as imagens se organizam como um filme, nessa forma temporal aonde o sentido de cada imagem vai sendo dado não apenas por àquelas que a antecedem, mas, também, na associação com as próximas.  O espírito do espectador é tão ativo quanto o do cineasta. O motivo formal não está só na tela.  Está também no espírito daquele que olha e na sua capacidade associativa. Tanto isso é verdade, que o cinema permite que o espectador se introduza como sujeito no filme.  Um deslocamento no espaço, e aí estamos no lugar do personagem.  Somos seus olhos, somos seu coração. E depois, mudamos a 180 graus, e somos o outro, e é com ele que nosso coração vai bater. Somos solidários e fazemos nossas as histórias que desfilam, abrindo atalhos para pensar nossas próprias vidas detrás dos espelhos.

E, agora, minhas lembranças pessoais.  Temos todos, seguramente, vocês e eu, um arquivo particular, uma espécie de bloco mágico onde estão gravadas imagens e lembranças vindas dos filmes que assistimos e que enriquecem nossa imaginação e ajudam a simbolizar nossas relações com o mundo.  Entramos nos labirintos da memória e, como Orfeu, corremos 24 imagens por segundo na procura das eurídices. Com um simples olhar os personagens nos levam aos breves encontros ou desencontros. Temos pressa em desfilar nossas lembranças.  Entramos num bosque de caminhos intricados e deixamos que ele nos fale, nos remeta a aquilo que somos. Na doação, escutamos o que o cinema nos vai dizendo.

Do escuro do cinema, minhas primeiras lembranças.  Eu, pequena ainda, no cinema com meu pai…  As imagens desfilavam na tela, mas, lentamente fui atraída pelo som do choro de meu pai que cada vez se intensificava.  Da tela para o seu rosto, em idas e vindas, fui reconstruindo o que se mostrava na tela… Lídice!  A cidade destruída pelos nazistas na antiga Checoslováquia.  Desde então soube que o Cinema era uma arte engajada, perseguidora de grandes utopias. Que do crepúsculo nos leva a uma visão diurna da vida, onde todos os impossíveis podem ser possíveis.  Meu pai, Lídice, Carlitos, Glauber e todas as chuvas de verão ficarão para sempre registradas em nossa memória, com sua poesia, suas alegrias e suas aflições fazendo algo esteja sempre em obra em um filme: a verdade.



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