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Estado de exceção


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Publicado em 22 de Agosto de 2012

 

“Onde reside, pois, a causa de ainda sermos bárbaros?” (Schiller, em Cartas sobre a educação estética do homem)
Como construir imagens criativas e ousadas trabalhando com os muitos fantasmas passados da repressão? Todos viraram santos?  E como não transformar a violência num fácil espetáculo de Hollywood? Como evitar a implícita sensação de horror como a única linguagem possível na lobotomização produzida pelo mundo das imagens? O filme Estado de Exceção, de Juan Posada, tenta desmaterializar o perigoso culto a disciplina policial-militar. Sendo que sua grande qualidade e esforço foi não reproduzir a mesmice dos “rambos”, “robocops” e “pacificadores” trágicos de uma pedagogia duvidosa e ultrapassada.

Daí, as tantas anormalidades do ridículo mundo da ordem como a única identidade possível para o equilíbrio no absurdo de vidas opacas. Juan Posada anula por completo a representação oficial da repressão num delicado grau de exacerbações criativas, raras na ficção nos dias de hoje onde é o mercado que dita o que se deve ou não fazer. E entre o vampirismo do fácil e a morbidez muito comum ao tema, seu interesse é legitimamente dissonante na linguagem fragmentada (em blocos ou capítulos) com uma narrativa exemplar. Digamos é um primeiro longa bastante original.

Tal como a história arruinada, o cinema funciona aí como uma deslocação politicamente humana do horror! Juan não quis construir um espetáculo de louvor ao tema da repressão. O país e sua imunda burocracia já nos são suficiente, pois muitos são os ganchos nos atando aos horrores visíveis do passado e do presente. Ainda vivemos hoje os escombros deixados pela ditadura. Mas… o filme vai além de uma descrição naturalista do espetáculo de projeções intimidatórias de direita. Senhores, ela ainda existe!

 

Dito de outra forma, não interessa ao jovem realizador enganar com o enfraquecimento tanto do espectador como do cinema. O filme desconstrói com maestria o sentido de urgência (na verdade imposição) da alienação como mensagem conservadora. Ora, como entender os mecanismos disciplinares sem formação humana alguma da polícia que está no filme? Cultuá-la sempre foi mais fácil. E está na moda.  Agora, como germinar uma reflexão profunda desse tipo de autoridade sem subjetividade alguma? É preciso também sublinhar o funcionamento místico da entidade com São Jorge, como padroeiro da instituição. E o que isso quer dizer? Na verdade um escudo defensivo do prazer-dor ou mesmo o desprazer ligado sim mais ao medo e ansiedade, que ao crescimento e maturidade.

Poderíamos falar das muitas referências indo de Brecht a Ruy Guerra, passando por Glauber. Um filme para nos fazer pensar neste estado de exceção em que vive a humanidade, com a violência de sustentação dos “podres poderes” da república sendo vendida como “pacificadora” e como se isso fosse possível. Um anti Tropa de Elite, fechado entre cenas de horror não espetacularizadas; sendo um cinema de intensidades e sensações gritantes. E por isso mesmo essa guerra silenciosa de episódios indelicados como referência das imagens. Digamos que a repressão é na verdade um ciclo infindável de regressões a barbárie, num sistema tedioso de repetições. E que ao abolir radicalmente a nocividade de um possível espetáculo (como foi o cinemão do senhor Padilha que foi continuá-lo em Hollywood, com o infantilismo dos robocops, Juan da visibilidade na sua fragmentação narrativa, a uma observação mais delicada da desestabilização do jogo da “ordem” no país.

Ora, são homens ou máquinas frias o que se vê? Exemplarmente o filme nos revela uma percepção obsessiva da dor como a única excitação possível dos pequenos-grandes poderes. Mas como ele é imposto e mantido? Como exerce o seu controle sobre a população? Em algum momento pode-se traçar minimamente um lado humano? Não. Tal definição leva-nos a não acreditar em fala alguma aqui, de culto à democracia. Ela nunca existiu. A sua percepção não passa de uma frágil representação de interesses duvidosos, usando a tudo e a todos. Convenientemente o cinema e os demais meios de comunicação, que na sua configuração trabalham ideologicamente os discursos, a religião, a humilhação, o medo, a dor e a fama vinte e quatro horas por dia, meses, anos e décadas com o sentido de dopar e intimidar. Não deixando de ser em momento algum, um espaço militarizado entrando em todo e qualquer espaço público ou privado, reescrevendo não a verdadeira história da luta de classes, mas o horror em forma de espetáculo.

 

Quanto mais baixo, mais se cultua a auto-experiência de falsos esforços bem remunerados claro, de culto na verdade a uma “ordem” fascistizada de cima para baixo. Em tal estado de dor espetacularizada pelo cinema e pela TV, a introspecção serviria para quê? O único valor é o da “ordem”! Mas que ordem é possível na miséria gritante? Miséria e ordem não são antagônicos? Estado de Exceção afirma sim, o nosso país real. A nossa tendência elaboradíssima ao fascismo, sem minimizar nada! E nunca entre nós, a nocividade imunda da violência urbana foi tão bem colocada e analisada como neste pequeno filme. Ora, por que os seus personagens seriam humanos se os exemplos políticos são os piores possíveis? Nos referimos, claro, a ordem ensaiada e imposta como lei! Mas em que a justiça seria diferente? Não faz parte da mesma ladainha aliada a religião e ao poder?

Em suma, pode-se dizer que a dor faz parte das tantas humilhações porque passamos da ordem à burocracia.  Em que, a desagradável e burocrática Ancine, é diferente da polícia ou de um hospício? Isso no que toca ao cinema! Ela é especializada na mesma burocracia piorada da Embrafilme. E o resto do país? Vive-se só, experiências prejudiciais ao prazer de ainda se estar vivo! Mas é onde a militarização da burocracia vai gozar: no processo da não excitação com verdade alguma. Verdade para quê? Se quer apenas um permanente sentido de fome, medos e vazios para a vida. Não adianta mais chorar pois não há mais lamentos, alegorias ou afetos. Tudo e todos estão virando lixo!

Digamos que o coração da barbárie é a civilização como um todo. Poder-se-á até objetar que o filme em questão, não desce fundo em suas contradições. Que faz um bom uso do antiespetáculo, mas que cai na vacuidade das palavras que são como são, e não como gostaríamos que fossem:  mais elaboradas para pensar melhor as da “razão bárbara” que se vive no mundo de hoje entre a escravidão e o dilaceramento do humano. Apesar disso, diga-se o que disser, é um bom trabalho criativo irradiando caminhos para um possível questionamento das tantas e tantas disciplinas que acabam por justificar perseguições, guerras, humilhações, torturas e assassinatos. Ousaria dizer que esta nossa civilização ocidental é toda ela submissa ao âmbito conservador da barbárie. Penso que é a sua totalidade como expressão máxima! Eis pois o mundo e o tempo em que vivemos. Um tempo triste de legitimação da violência!

 

Lamentavelmente, vivemos todos no reino das ruínas materializando a conta-gotas, a morte que nos consome a todos. E nesse labirinto de tempo sem tempo: as traições, as intrigas, o ódio e a força no esvaziamento do humano. Ou seja, o referencial do primeiro longa-metragem de Juan Posada, é a permanência da dor neste novo-velho país! Dor claro, inseparável da ordem e do poder, onde o espaço aberto da rua é infelizmente, a casa de muitos. Como bem dizia Flaubert: “As residências reais possuem uma melancolia particular, que provém certamente das dimensões excessivas, demasiado consideráveis para o número reduzido de seus habitantes, do silêncio em que nos surpreende vê-las mergulhadas, depois de tantas fanfarras, do luxo-imóvel, que demonstra, pela sua velhice, a fugacidade da dinastia, a eterna miséria de tudo”.

Num mundo levado por máfias, milícias, tropas de elite, partidos políticos, religiões de resultado, meios de comunicação… produzindo consumismo, alienação, espetáculo, dor e muitas vezes morte! E o nome que temos disso é uma espécie de fantasmização desejável de fascismo onde reinará a insensibilidade como o bem estar das elites com suas tolices, polícias e maneirismos. Digamos que o objetivo de Juan Posada com este seu filme é o de desmaterializar o jogo de sedução da violência. Ou seja, nem é um cinema de culto as insignificantes bravatas populistas da pacificação, nem a mistificação domesticada do cinema espetáculo. Goste-se ou não, é preciso ressaltar também um distante sopro bressoniano na complexidade da interpretação com todos os jovens atores ótimos, ainda que desconhecidos do grande público – o que o torna ainda mais ousado, necessário e representativo.

E como afirmava Adorno: “A vida transformou-se numa sucessão intemporal de choques, entre os quais rasgam lacunas, intervalos paralisados”. E é por onde corre o Estado de Exceção, pelo reino da morte-viva! Pelo que está aparentemente distante, mas ao mesmo tempo próxima: uma desconstrução original do conceito de ordem, e que nos remete a uma rica história do saber do mundo grego a Brecht. Juan fez um pequeno filme referencial e transgressor com uma naturalidade majestosa de um bom filósofo. Um filme onde a história é na verdade desencantada com os atuais discursos da pacificação. Como pode haver paz na fome e na miséria?

 

Cena do making of | Estado de exceção

 

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3 Commentários sobre 'Estado de exceção'

  1.  

    19 Novembro, 2012| 7:51 pm


     

    esse filme vai ser maraa principalmente cm a atriz viviane araújo amoo ela d+

  2.  

    20 Março, 2013| 9:11 pm


     

    Um texto digino do grande filme que nos atormenta.

  3.  

    20 Março, 2013| 9:12 pm


     

    JOKA

    Estado de exceção

    A palavra calejada na noite.
    Dia de concerto, arrumação.
    No frio outonal …
    E a noite chega sem resultados.
    E a vida presente.
    Abstratos sonhos , utópicos.

    A palavra calejada na noite.
    Currículos imersos em negro.
    Favelas desconstruída …
    Jorge clava a lança …
    Lançada em sonhos …

    A palavra caleja na noite …
    Policia, gente, pessoas.
    A vida sofrida nas periferias.
    E a marginalidade numa hipocrita sociedade …

    A palavra calejada na noite.
    A negação do pobre …
    O aburguesamento da sociedade …

    A palavra cravejada na noite ..
    A negação do próximo …
    Jorge clava a lança …
    O aburguesamento da sociedade …

    A palavra calejada na noite …

    JOCA

    João Carlos Faria

    Assisti ao filme difícil de digerir mas belo, chamado Estado de Exceção direção e roteiro Juan Posada. Confiram uma obra impactante do começo ao fim.

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