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Teatro: violência, fé, crença e cultura


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Publicado em 10 de Julho de 2012

Shakespeare alguma vez disse que a vida está fabricada com a madeira dos sonhos.  A vida diária transcorre numa espécie de sonolência, ou pelo menos numa zona crepuscular, onde seu sentido não nos fica bem claro, onde o destino do outro nos é longínquo e  próximo ao mesmo tempo. Presos ao instante e ao lugar, nosso viver de cada dia é habitado por figuras passageiras.  Uma existência que parece afastada da história e de seus grandes dramas; de suas epopeias e de suas comédias.

Nossa existência cotidiana, fortuita como o instante ou o lugar, cujo material é descartável, como as imagens crepusculares, se encontra no meio de uma voragem de certo modo comprometida com o curso objetivo de um processo histórico. A tenacidade do impacto nos provoca uma revelação.  Arde, então, a madeira dos sonhos e a sua chama nos aponta um mais além: o de uma vida coletiva.  Um mais além que não é apenas a de um mundo supra-terreno, mas, que mostra a mesma realidade terrena em outra dimensão.

E, por meio de uma amarga comprovação, somos levados a sair do conformismo diário  para alcançar a compreender  a evidência de que não estamos sós, de que nosso eu e nossa afetividade estão, de certo modo, inseridas dentro da história. Talvez, curvar-nos diante da revelação de uma presença, a de uma violência não sempre definível, mas constatável.  De uma violência que no mais remoto de nosso passado, não foi o da luta do homem contra o homem, mas o forte impacto do meio natural. A sua resistência contra um ser que não queria mais ser animal e que tentava sua sobrevivência com um novo recurso: o da Cultura. Cultura, que é, em si mesma, negação da natureza, rebeldia que age e violenta a natureza, atuando sobre ela, transformando-a, vergando-a e  submetendo-a,  já não aos desígnios dos deuses,  mas aos desejos dos  homens.

Violência primeira, violência primária. Pedra friccionada contra pedra, produzindo o fogo; árvore que deixa de ser árvore para servir como madeira. E, assim, toda uma transfiguração, uma perpétua metamorfose de uma coisa em outra coisa, revolução permanente de todos os materiais. No exato momento em que o homem fez uso da Cultura para afirmar-se como homem, ele a impregnou sempre de uma violência, que para sempre a deixou contaminada. Violência que se foi exercendo gradativamente, etapa após etapa.  Primeiro a dos elementos naturais, logo aquela dos homens contra os homens, fundando hierarquias de valores, de beleza e de amor. Violência desenfreada, iracunda, vinda, quem sabe, de que potências cósmicas, que  impulsiona o homem a criar, a roubar à natureza, para  impor  o seu desejo de domínio. E ele mesmo, o homem, guardar o seu segredo, em algum espaço recôndito, que dará lugar a inúmeras interpretações, sujeitas estas a sempre outras.
Para a psicanálise, por exemplo, o sujeito humano emergiria de uma rede de significações que lhe seria dada por um Outro, sujeitado que é ele ao Desejo de um outro e à Cultura que o envolve.   É daí que ele iria se instalar, se inaugurar como sujeito em “outra cena“, à qual não teria acesso – o Inconsciente – cenário onde se formam e situam apriorísticamente suas matrizes básicas de significações.  Apenas desse lugar, tal como um espectador, irá filtrar e perceber um real, criando, em última instância, a sua realidade.

Que violência! O ser humano seria um ser de interpretação, de certo modo, alheio a si mesmo.  Em um pretérito fantasmático ficaria situado o leme que nortearia para sempre o seu percurso existencial, marcando suas escolhas e decidindo de seu prazer.  Toda uma trama determinando o seu drama pessoal, cujo núcleo trágico original radicará em sua condenação a uma incompletude essencial. Um Eu, só viável a partir de um outro que, espelho inicial, o reconheça e nomeie. E, daí, o sujeito criará matrizes significantes – representações – determinantes de sua realidade psíquica, a única que, de fato, para ele existirá: o Inconsciente comparece como o  lugar  produtor de representações .

Mas, toda essa trama original não livrará o homem de tratar de adequar-se a uma realidade mais urgente, onde as trocas se farão possíveis, por ser o sujeito humano, afinal, basicamente, um ser produtor e produto da Cultura.  Isto é, norteado por leis, inventadas por ele, no empenho de opor-se ao Caos.  Mas, embora essas leis sejam convenções, portanto arbitrárias, faz-se necessário um consenso em torno delas como fundamento para a perpetuação da Cultura.   Este espaço maior de convivência, estará sempre norteado por que organizarão e viabilizarão uma troca ordenada, uma articulação fecunda. Normas estas, criação dos homens, já que, no caos inicial, inexiste qualquer possibilidade de vida que seja fruto de leis e organizações hierárquicas.

No caso do teatro, império da invenção, outras imposições, outros desafios. Transpor espaços diferentes, demarcadores simbólicos plenos de significação. Bastará nomear: este é o espaço do público, aquele o da criação.   Cada nova palavra inaugura, violenta, revoluciona qualquer ordenação anterior. Tem forma, tem peso, pode ser lei   absoluta. Também, no vazio do espaço cênico, um ator aparece, talvez no silêncio, sem articular um único som. É Presença, devir aberto a todas as possibilidades. O simples estar ai, é criação de mundos.  Ou uma luz, um simples feixe de luz sobre o espaço deserto, é já um personagem. Si se resiste a angústia dessa simples presença de um nada, tão somente vibração de intensidades, aos poucos essa luz se fará cheia de interrogações, despertará nossas projeções imaginárias que irão refugiar-se nas trevas, nas sombras que se refugiam atrás de seu brilho.  Luz e sombra, num jogo fantasmagórico. E aí, a pergunta essencial: onde se instala o fundamento? Que processo é esse, que dará sentido a essa combinação aleatória de dados, ao menos, aparentemente caótico, que levará ao jogo da criação?  É apenas, quando esse processo, quando esse  jogo é aleatório, quando esse jogo é puro azar, isto é, passe a conter  todas as probabilidades,  mas nos surpreenda no seu resultado; frustre, de certo modo,  todas as nossas expectativas,  violente  nossas esperanças de  subjugar o futuro ao nosso desejo, que, talvez, nos tenhamos acercado daquilo que pensamos ser a criação.  Assim, o processo criativo, em algum lugar, alguém o disse, não se faz de um possível antecipado à realização desse possível, mas sim de um virtual não dado, nunca passível de sê-lo, à atualização desse virtual.  Tudo, como num lance de dados, onde o resultado assombre e exceda o próprio jogador.

Quem sabe, que momentos esses, privilegiados, quantos desses momentos podemos recordar, em que o milagre se deu, aqueles em que o ator, de repente, tem um branco, esquece o seu texto decorado, vacila, e se deixa ele mesmo invadir pelo inesperado,  pelo vazio que  aparece diante dele como espaço aberto,  onde   entre a  memória e o  presente um abismo se apresenta e o  absoluto  emerge  num sentimento abissal.  É um fora que penetra no território suposto conhecido, o não previsível que invalida e violenta todas as certezas.  Estava tudo em ordem, a palavra que seguiria a outra palavra, já prevista.  E, agora, o caos, o balbuciar lento das palavras, arrastando as sílabas.  E a emoção que nasce nesse interlúdio, nesse momento suspenso no ar, que faz que o espectador, ele também, sinta que o mundo está sendo inventado naquele exato instante.  Ator e espectador, heterônimos de si mesmos, máscaras sobre outras máscaras que deixarão transparecer um corpo intenso.  Um corpo, que, seguramente, abriga uma alma, que, como pensava Platão, antes de se ter encarnado no corpo, passeou, na companhia dos deuses, pela planície das ideias.  Mas, que seja um corpo belo, que esteja na via erótica.

 

*Pinturas e desenho (conforme ordem de publicação): detalhe do cartaz do filme Caravaggio, Cesar Klein, e Da Vinci.

 

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Dina Moscovici leciona no Tablado, no Rio de janeiro. Graduou-se em Direção pelo Institut de Hautes Études Cinématographiques em Paris e Direção Teatral pelo Théâtre de Nations.  Foi diretora do Teatro Estudio da Universidad Nacional da Colômbia e Vice-Presidente da Fundação do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. Escreveu o romance Não iria explicar ao vento, publicado pela Editora 7 letras, e colabora em diferentes revistas.



2 Commentários sobre 'Teatro: violência, fé, crença e cultura'

  1.  
    Rossana

    8 Março, 2016| 12:35 pm


     

    Texto sensível que vai do logos ao espírito criativo como numa danças de ideias que se intercalam e dialogam entre si na interpretação de fenômenos humanso como a arte,e a cultura

  2.  
    Renato Melo

    5 Fevereiro, 2019| 6:41 am


     

    Que Deus sempre te ilumine. Mestra, foii uma grande honra estar, jamais esquecerei.

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