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Paralelo 10, tese para infinitas discussões


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Publicado em 26 de Junho de 2012

 

“ Em vez de obedecer à história, inventá-la, ser capaz de imaginar o futuro e não simplesmente aceitá-lo. Para isso é preciso revoltar-se contra a horrenda herança imperial, rompendo com essa cultura de impotência que diz que você é incapaz de fazer, por isso tem de comprar feito, que diz que você é incapaz de mudar, que aquele que nasceu, como nasceu vai morrer.” (Eduardo Galeano)

 

Para Beth Formaggine

 

Digamos que o país ainda vive, e quer que perdure por muitas décadas, a trágica herança da ditadura. A plenitude de uma elite corrupta a adorar a sua constante produção de m… E foi sempre assim. Nosso grande mérito é não termos expressão própria alguma, e no cinema sermos solidários a contaminação poluente e ideológica de Hollywood, de hoje. Ou seja, substituiu-se a história por um estado pleno de alienação.

Deu-se status ao imediatismo cínico de um cinema-morto. Erroneamente deixou-se de pensar na prepotência egóica do capital. Institucionalizou-se a burocracia partidária, e a imaginação tornou-se parte de uma “nova” exploração classista de pura enganação. Todo mundo é cineasta, só que sem nada de criativo ou profundo para dizer. E nunca o cinema brasileiro foi tão lixo do capital, enfatizado claro, o espetáculo pelo espetáculo e a linguagem televisiva das novelas. Mas como foi que chegamos a isso?

Legitimando todo e qualquer esvaziamento de sentido. Espaço onde os velhos e “novos” ideólogos em defesa do mercado (?), sentem-se integrados a constante hipocrisia do poder. Poder que justifica o mercado ser do outro que nos invade militarmente. E claro que economicamente e culturalmente. Mas, não vamos aqui chorar pelo passado. Mas… já tivemos um cinema mais rico, ousado e criativo. Já tivemos uma lei de obrigatoriedade fundamentada juridicamente, e detonada por Collor e seus capangas. Hoje, nem adianta reivindicá-la com fatos e a imaginação, pois a traição venceu. Venceu o sabujismo, o sistema de produção patronal globalizado e a glorificação do espetáculo barato. O mercado todo poderoso dita as regras e… Bem, deixa pra lá.

A debilidade se apossou do “nosso” cinema, só que filme nenhum se paga na bilheteria. Então, por mais amaldiçoados que sejamos, impera, sim, a pilantragem! Tirando Djalioh, Tom Jobim, Canções, MS Sganzerla e Paralelo 10, de Silvio Da-Rin, o que se tem como novo no nosso cinema até julho deste ano? Que importância tiveram filmes como Heleno, Xingu e Paraísos artificiais? Nem a grana da produção e de lançamento os ajudou a se tornarem importantes. Fracassaram na bilheteria e na crítica. Quem sabe a solução para estes “gênios” não está em seguir os idiotas que foram filmar em Hollywood? Mas… foi para isso que várias gerações lutaram de Humberto Mauro a Sergio Santeiro, Tonacci, José Sette? Mas o que se foi filmar lá? Alguma coisa importante para o cinema brasileiro ou para o ego dos realizadores? O que se ganhou com isso?

Bem, chegamos ao novo trabalho de Silvio Da-Rin, que primorosamente reflete sobre a terra brasileira. “…A terra é nossa; a terra não era de um dono só, a terra era de toda comunidade. No nosso sistema de vida não tinha ninguém pra roubar nossa terra. Faz 500 anos que nós estamos lutando….” De A voz do mito em manifestação indígena.  Um filme grandioso que confronta a produção cínica do mercado. De “filmes” idiotas manipuladores da alienação e do reducionismo histórico. No cinema, talvez seja essa a origem do dinheiro: a de dar dimensão a traição, a prostituição e ao sucesso artificial. E digamos que são os “saberes” constituídos da brutalidade partidária moderna. Ora, a que partidos os órgãos ligados a cultura são oferecidos? A partidos que odeiam a liberdade e a criação. Alguma diferença dos Anos de Chumbo?

Passado e presente investem no conformismo-cínico. Na brutalidade do não-sonhar. Na doutrina do “quanto pior melhor”, para que a burocracia se torne uma essência perpétua a beneficiar sempre a elite do poder. Espaço onde a baixeza tornou-se um militantismo obrigatório. Um militantismo contra a igualdade com os mesmos direitos para todos. Da-Rin sai dessa porca civilização e na selva explora a beleza e o cansaço além da viagem. Tenta reeducar o nosso olhar empobrecido pela TV, para nos entendermos como Nação. Deixa-se levar pelo espaço mágico e pela luz. E a mágica natureza oferece-se como um grande poema a ser descoberto pelas imagens belíssimas e pela montagem expressivamente plena e ousada de Joana Collier. Não são poemas colados ao acaso, são, sim, invenções dialéticas entre avanços e o encantamento crescente da beleza, que nos faz lembrar Apocalipse Now. Só que aqui o embelezamento está no saber olhar a poesia da terra e só imprimir o fundamental num filme sem heróis e onde a vivacidade está na viagem, no encontro e na vida.

Uma odisséia do Acre ao Paralelo 10, fronteira com o Peru. Ao longo do tempo, o vigoroso depoimento do sertanista José Carlos Meirelles expondo-se as imagens poéticas e as populações ribeirinhas. No caminho pelo rio, a grandeza da floresta ainda virgem. Floresta confiável, nossa e necessária. E o que há de surpreendente é a luz, o espaço e a paisagem que os nossos olhos nunca viram. É sim, um filme-revelação do Brasil, muito próximo do Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, que fala do homem Carapiru. Da-Rin fala da terra. Desse espaço incompreendido da beleza. Eis pois o exercício do encantamento nos aproximando e ao mesmo tempo no alimentando de imagens infinitas e longínquas. O espaço como um corpo vivo a ser redescoberto. O que poderia ser preenchido pelo encontro da luz com a paisagem e o homem, torna-se crepuscular pelo valor da terra. O dinheiro uma vez mais isolando, afastando e muitas vezes matando. Ainda assim, uma história de lutas no coração da selva. E um pulsar a comandá-la. Linguagem de forma, estética e substância entre seus principais personagens: mito e realidade. Onde o ser humano é vida. E também pode ser morte porque está exposto a outras naturezas. É obra que nos ajuda na busca de uma identidade. A nossa! Há tanto tempo expropriada. E com a narrativa ganhando inesperada dimensão pela confissão surpreendente de ninguém menos que um sertanista, narrador da história; confissão corajosa e inusitada pelo que se trata e por quem a fez. E o que seria um paradoxo em suspense e incompreensível, a maturidade da linguagem e a força expressiva da dialética, diluem e superam para a contemplação do espectador. Com a natureza mostrando que nada é simples e fácil à espera de associações e entendimentos. Esta revelação que nenhum espetáculo irá superar.

Este é o filme maior de Silvio Da-Rin. Surpreendente, pelo olhar acompanhando o  mito. Onde a natureza em seus movimentos ouve, revela e absorve, acrescentando pela maturidade do enfoque e na superação de contradições e na comunhão de extremos. Que se repelem ou se atraem num jogo de habilidade, coragem e paciência. E muito esforço! Um encontro raro de civilizações na construção de um Processo Civilizatório bem brasileiro, coisa bastante comovente e de se orgulhar. Numa abordagem exemplar. Científica, cinematográfica e antropológica esclarecedora e necessária. E pelo generoso e transcendente sentido humano.

Na verdade é uma expedição para o contato com índios dispersos que se tornaram arredios agora, denominados “bravos”… O que torna o projeto do filme proposição elevada e ao longo da narrativa, de indiscutíveis naturezas. Sendo a principal delas, a busca de uma arqueologia para tantas ontologias. As do ser disperso e excluído, simplesmente porque existe. E se a realidade não é mais a de sua existência, esta que os meios de produção esqueceram. Sem a noção do dia, da noite, da chuva, do alimento e da proteção, ciclo que não quer se repetir como negação do mito. E, como rapsodos, começando a mentir com a aproximação dos brancos. E com tanto cinismo que nem as selvas ensombreiam mais. E diante o Estado de repressão, só mesmo o de emergência.

O filme de Silvio Da-Rin é tese para infinitas discussões. O que o seu cinema favoreceu pelo domínio da linguagem conjugando técnica, forma e estética desfazendo recortes, como na edição e sonorização, verdadeiros primores que alardeiam a narrativa. Principalmente na sobriedade da arte que a natureza focada contempla num trabalho de câmera preciso por não incomodar em desnecessários movimentos e onde a natureza conduz os travellings no sentido da luz, do dia e da noite. Manifestações espontâneas dessa câmera em sintonia com a montagem e a sonorização que é o som que contempla e conduz sem interferir como numa sinfonia a indicar andamentos, cortes, inserts, tempos e espaços antecipatórios… de expedição que o diretor e a equipe assumiram. Escavando, descobrindo mistérios até o encontro da mística. Mito e realidade em paráfrases próprias, particulares e de associações; afinal o que se quer é o contato máximo de realidade e decisões reveladas, e de quem se exigem crenças e confiança. A mixagem que a técnica acompanha e ritmo e harmonia.

Portanto, demarcar as terras indígenas desses bravos, definidos no filme, é garantir a territorialidade do próprio país e, para quem explora a natureza a partir de suas próprias necessidades, sem deixar crateras. E não pela voracidade e excedências dos meios de produção cuja natureza se tornou criminosa como escavadeira para covas coletivas de seu próprio extermínio.

Cenas de Paralelo 10

 

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1 Commentário sobre 'Paralelo 10, tese para infinitas discussões'

  1.  
    Lux Brugnagox

    2 Junho, 2013| 9:21 pm


     

    O brazil se descobre hoje em dia como o Brasil que faz prate de um um mundo que se expande e se e se descobre dentro de si mesmo!
    Vê-se não mas do passado para o futuro; como os velhos magnatas e sim como os filosofos chineses do interios para as metropolis, pois é da terra que surge o pão e não da mão que se faz a solidão!

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