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O fim das férias


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Publicado em 26 de Junho de 2012

Na segunda mesa à esquerda de quem adentrasse a lanchonete, ligeiramente escondido em meio às famílias que tediosamente se espalhavam por todos os cantos, em todos os cubículos vermelhos de couro falso, eu tonto, sendo novamente apresentado ao meu filho. A senhora Auster estendia-me um olhar de repúdio pelas costas do garoto, mas se transformava subitamente, um sorriso largo, todas as vezes em que Leonardo parecia prestes a dar meia-volta e virava o pescoço na direção da avó. Se eu estivesse capacitado para medir o tempo numa situação como esta, diria que se passaram pelo menos dez minutos entre o começo da caminhada de Leonardo e o momento em que ele finalmente se sentou à minha frente, tempo mais que suficiente para que um homem enlouqueça. Eu, que já havia enlouquecido à constante espera do fim das férias de verão do meu filho, me encontrava a salvo. Não me levantei da mesa, com medo de assustar o bichinho afoito que eu tentava sem sucesso caçar. Como era branco, vivendo naquelas neves todas, como um esquimó. Diferente do menino amorenado que Sarah levara para entreter os avós, quando da última de nossas brigas. Sentou-se à minha frente. A senhora Auster postou-se a uns dez passos, como um equilibrista.

Eu não sabia o que podia falar, não tinha ideia do que lhe haviam dito que ocorrera com a mãe, tinha medo de assustá-lo, de afugentar o meu bichinho-branco. Não devia dizer que ele viria comigo, não seria justo fazer muitas perguntar e não ficava bem insultar a senhora Auster, de modo que parecia impossível advogar em minha defesa. Perguntei se ele queria comer, naturalmente em inglês. Meu filho era um estrangeiro perfeito, pediu waffles e uma geleia que tinha um nome complicado e que parecia amora ou framboesa. Sabia ainda uma ou outra palavra em português, e as pronunciou para me agradar, lentamente; cantou um pedaço de uma cançãozinha velha, e era claro que recordava parte da letra guiado pelos sons, sem entender bem o que dizia. Era um estrangeirinho branco de neve. Perguntei pelos seus amigos, descobri que ele gostava de beisebol, um esporte que nunca entendi, que tinha levado oito pontos no joelho e que os outros garotos não se confundiam com o nome, porque é igual ao do diCaprio. Não lembrava quase nada do Rio e me perguntou se eu tinha computador em casa, o que me fez rir. Segurava o garfo com a mão esquerda. Canhoto. Essa bobagem me fez feliz.

A senhora Auster cronometrou-me com precisão cruel. Leonardo me deu um abraço rápido e saiu carregando o presente. Depois passou ainda ao meu lado, por detrás do vidro, prestes a atravessar a rua, devidamente escoltado. Virou-se. Deu-me um tchau. Eu tentei gritar alguma coisa, esqueci o inglês, engasguei, tremi. Ele riu de mim, tímido, meu filho.

 

*Pintura de Henri Matisse.

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Maria Caú é formada em Cinema pela UFF e faz Mestrado em Literatura Comparada na UFRJ. É apaixonada por Woody Allen e Philip Roth. Escreve contos e poesias, que acumula em pastas e gavetas escondidas do mundo. 



6 Commentários sobre 'O fim das férias'

  1.  
    Daniella

    26 Junho, 2012| 8:01 pm


     

    O conto é singelo, mas meticuloso. Nos detalhes dá pra perceber uma preocupação grande com os detalhes. Adorei!

  2.  
    Aristeu Araújo

    3 Julho, 2012| 8:36 pm


     

    Caú, este teu texto é muito elegante.

  3.  

    7 Julho, 2012| 10:54 am


     

    Maria! Maria!
    Sempre com a capacidade de surpreender a cada linha.
    Concordo com a Daniella acima, detalhes que ficam pulando de letra em letra.

  4.  
    maria lucia montenegro

    7 Julho, 2012| 7:46 pm


     

    Maria Cau, você expõe,numa linguagem bonita e escorreita, emoldurada por Matisse, e de um jeito super sensivel, as angustias masculinas, frente a paternidade.
    Lindo conto. Amei.

  5.  
    Clarisse

    8 Julho, 2012| 1:05 pm


     

    Bem legal o texto. Me fez pensar sobre como tanto amor pode caber em tanto estranhamento. Parabéns, Maria. “Senhora Auster” é uma homenagem?

  6.  
    Maria Caú

    11 Julho, 2012| 1:59 am


     

    Meus caros, obrigada pelo carinho. Clarisse, é uma homenagem sim ;)
    Abraços!

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