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Habemus Papam


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Publicado em 6 de Maio de 2012

Nanni Moretti é hoje o diretor italiano de maior prestígio internacional. Talvez por isso seus últimos filmes tenham se distanciado de seus temas mais peculiares, um misto de autobiografia e crônica italiana. É provável que Moretti tenha se dado conta do alcance que ele tem mundo afora. Em O Quarto do Filho, filme lançado em 2000, Moretti escreve e dirige um drama, algo bastante incomum em sua filmografia. Depois, em 2006, ele exibe O Crocodilo, um filme político que parece enterrar de vez com o passado de filmes pouco compromissados ou de menores pretensões. Agora, por fim, chega às telas Habemus Papam, longa-metragem que se propõe a descortinar um dos rituais mais obscuros do mundo ocidental, o conclave.

É no conclave onde é escolhido o novo Papa. Como se dá a votação, que pode envolver até 120 cardeais, pouco sabemos. No fim do sufrágio, que pode durar dias, o Papa vitorioso é anunciado à praça do Vaticano no latim “habemus papam” e o escolhido se dirige à varanda para saudar o povo. É justamente aí que Nanni Moretti irá iniciar seu longa-metragem, penetrando no secreto ritual e mostrando (ou supondo) como se dá a escolha do novo pontífice.

No entanto, Habemus Papam está longe de ser um elogio à igreja. Moretti está muito mais preocupado em saudar o que há por trás do ritualístico, do santificado. E como em essência o cinema de Nanni Moretti é cômico, é com humor que ele irá desbravar tal universo.

No filme de Moretti, a votação se dá em vários turnos, pois os cardeais não conseguem chegar a um acordo. Assim, para poderem dar um fim à sessão, todos tem a ideia (secreta, pois o voto é sigiloso) de escolher Melville, um cardeal pouco expressivo que estava fora da lista dos favoritos a sumo sacerdote.

Enquanto os votos são lidos, ouvimos os pensamentos dos cardeais que quase em uníssono rogam a deus para não serem escolhidos. É algo parecido com o que Wim Wenders propõe em Asas do Desejo, quando os anjos visitam a biblioteca e ouvem os leitores e suas leituras silenciosas. Pode parecer uma citação forçada, mas não. Mais para frente, Moretti tratará da questão do anonimato e da invisibilidade. Melville, o Papa eleito, vagará por uma Roma que ainda não o conhece. Em muito ele não passará de um idoso como tantos outros, um tanto invisível portanto. Assim como aqueles anjos.

As simbologias empregadas no filme são fartas. Ainda no início, o conclave se inicia às escuras. Há um apagão na capela sistina, o que deixa os cardeais em polvorosa. Um medo primordial, como os medos que o próprio catolicismo infringe a seus crentes. Melville, o escolhido, se confessa depois amante do teatro. Gostaria de ser ator, mas sabe que não leva jeito para a coisa. Desistiu há muitos anos da carreira porque era mau ator. E aqui Moretti faz uma das mais geniais sacadas do filme, pois ele aproxima a atuação tetral com os rituais da igreja. No momento do “habemus Papam”, Melville entra em pânico. Como o ator que observa o público da coxia e estanca na hora de entrar no palco, o novo Papa não tem coragem de chegar à varanda para dar a benção ao numeroso público ali presente. Ele não está pronto.

Sob grande constrangimento o ritual é interrompido. Um psicanalista é chamado (interpretado pelo próprio Nanni Moretti) para tentar reverter o medo papal. Mas, grande ironia, a investigação da alma humana (num sentido mais pagão) leva anos, com sorte meses. Além disso, sessões de psicanálise envolvem confissões sexuais, relatos de sonhos e desejos guardados a sete chaves. Tudo expressamente proibido para um Papa e seu interlocutor, claro.

É com enorme firmeza que Nanni Moretti irá conduzir sua história, tratando esse conto do Papa que não quer assumir seu posto como uma crítica à igreja e seu obscurantismo, mas também com enorme respeito ao que é humano. E é bom lembrar que o humano não é só o que é bonito ou poético. O humano traz consigo a inveja, a raiva, a ganância e tantos outros sentimentos danosos, como faz questão de lembrar o diretor de teatro Enrique Diaz no documentário Moscou, de Eduardo Coutinho. No documentário, Coutinho registra a montagem da peça As três irmãs, de Checkov.

A aproximação com Moscou, aqui, se faz oportuna. No filme de Moretti, o Papa é um aficionado pela peça A Gaivota, também escrita por Checkov. Tanto lá como cá, há um desfoque daquela tênue linha que separa (ou nunca separou) a ficção da realidade. Para Coutinho, observar o Grupo Galpão na criação de uma peça é registrar a criação de realidades, de universos próprios, concentrados, únicos e efêmeros. O teatro é um grande criador de verdades. Em Habemus Papam, o registro parece buscar um outro ângulo dessa verdade construída. E Nanni Moretti não está falando apenas alguma obviedade ateia como “o Homem criou deus a sua imagem e semelhança”. Seu impulso é o de revelar que as tais verdades não existem. Algo como o que Sigmund Freud revelou em seus escritos.

Para Freud, o Homem contemporâneo padece de três grandes feridas, referente a três grandes desdobramentos científicos. A primeira delas veio com Copérnico e sua teoria heliocêntrica, que tirou a Terra e o ser humano do centro do universo; a segunda chaga foi Darwin quem trouxe com sua teoria do evolucionismo, e a certeza que agora não fomos criados à imagem e semelhança de deus. Por fim, em auto-referência, Freud diz que a terceira ferida é a psicanálise, criada por ele mesmo. A psicanálise fez o Homem perceber que não é dono de si nem consciente total de seu eu.

O que o filme Habemus Papam fala, é que o Homem precisa dessas verdades, sejam elas científicas ou religiosas; sejam ficcionais ou documentais. A ritualização em torno da escolha de um novo Papa é um gerador de certezas, um ansiolítico milenar que está ali para ratificar que os ciclos existem, que tudo – no fim – será bom e/ou igual ao que sempre foi.

O Papa de Nanni Moretti, no entanto, é uma espécie de quarta ferida. Ele está ali para dizer que não, não é o representante de deus. Sua incerteza é o vazio do outro, da igreja e do papado. A dúvida de um Papa é a dúvida da própria igreja. A dúvida do Homem, desde que crente.



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