Revista Moviola – Revista de cinema e artes » O Cavalo de Turim

O Cavalo de Turim


Por

Publicado em 30 de Abril de 2012

“O homem só é homem na superfície. Levante a pele, disseque: aí com ela o maniqueísmo. Depois nos perdemos em uma substância insondável, alheia a tudo o que conhecemos e, todavia, crucial.”


Paul Valéry em Chaier B


Para os amigos Renaud Leenhardt , Andrea Tonacci  e Fernanda Chicolet.


Nossa utopia é a do nosso lugar, deste que conquistamos como desafios, principalmente a barbárie, o que denominam modernidade e onde os espertos e sem talento algum se projetam como vanguardas e que nós sempre confrontamos com coragem e dignidade, tentando ver no outro o que eles mesmos não veem, porque negam a universalidade que nossa individualidade tenta construir. Chegamos à utopia da amizade, da cumplicidade e conjurações de um mundo melhor para todos. Sim, estamos vivendo no limite dos perigos! Temos consciência de tudo isso. Isso porque o mundo podre e baixo que tenta nos acolher é pantanoso. Nos cabe então nossas utopias e ainda ir um pouco além, arrastando conosco os blocos históricos de poder, que sempre nos ameaçaram. Conflito entre poder e medos. O que também temos, mas, nada a perder!

Felizmente temos a consciência da nossa escravidão, e a impossibilidade pacífica de sair dela. Achamos que sairemos da vida da mesma forma como entramos: com um sólido ato de violência. Violência que querem transformar em espetáculo, desejo, traição e alienação. O ato de nascer! Daí as cidades de deus e tropas das elites, sempre bem remuneradas e defendidas pelas mídias. E aos poucos estamos descobrindo que não existe transcendência em qualquer ação que realizamos. Acreditem, a única transcendência possível é das ideias. E todo ato depois de gerado por elas está morto e acabado.

Queiram ou não temos que defender nossa individualidade que nasce dessa consciência e que pode nos levar ao prazer, à violência e à dor. A tudo aquilo que chamamos realizações ou perdas; porque enclausurados em nossos guetos, espaços ou trabalho, a realidade sempre nos acompanhou, sendo parte de nós e de tudo o que pensamos ou fazemos assimilando a vida sem restrições ou preconceitos. Apenas com uma visão crítica original, corajosa, amparada por ideias e exemplos, pensando colaborar para mudanças. O ser é linguagem. Todas as linguagens passando por todos os simulacros que são as linguagens sujas e baixas do poder. De qualquer tipo de poder, da Ancine ao Palácio da Alvorada sempre defendendo a mesmice e à burocracia imunda, interessante para a manutenção histérica e histórica da luta de classes na cultura. Não à toa um ministério da guerra e da cultura. Alguma diferença? E onde é diferente se todos os sistemas são iguais?

Passamos por todo esse lixo sem macular a nossa crença, as nossas utopias, os nossos experimentos, e sem o massacre que sofremos agora de toda parte com o modelo único de sobrevivência ditado pelas leis do mercado. Ocupado e sem oposição alguma, não é? Mas… felizmente, ainda não fomos atingidos, porque não viramos produto descartável, tipo De Pernas Para o Ar, Cilada. com ou Bruna Surfistinha.  Quem se lembrará dessas bostas em dez anos?  Procuramos ganhar o mundo saindo de nós mesmos, para tentar construir e distribuir ideias. Não como um ato programado de violência, espetáculo barato e exploração. Acreditamos nas ideias, nas multidões conscientes, nos mitos desde que representem uma ideia além da realidade que sempre nos atormenta.

Também sabemos deixar de acreditar quando a liberdade se via ameaçada. Liberdade! Que liberdade? Aquela que nasce da nossa consciência e que sabemos ser aliada da coerção? Nunca acreditamos em nada absoluto. É tudo transitório, felizmente. Hoje, feliz ou infelizmente, o exercício de liberdade é cada vez mais individual, nosso, do excluído de tudo, menos de ideias. E é evidente que as concessões sempre serão necessárias, mas sem que sejamos forçados a vender a alma a deus ou ao diabo.

As multidões conscientes e os pensamentos universais estão mortos! A grande cultura e os grandes pensadores estão banidos por essa causa, porque sempre souberam que a vida é uma clausura individual que querem universalizar com espetáculos e ideias tolas e absurdas. Estas que passam a ser geniais pela nossa ignorância, pelos medos, pela necessidade e pela coerção. Aqui, o capitalismo não demora a entender que está gerando um grande inimigo: os ovos da serpente. Ainda assim, não acreditamos que a humanidade ficará embrutecida, submissa a essa ordem por muito tempo. Nietzsche, Tchekov, Brecht, Godard, Adorno, Benjamin, Glauber… municiaram os guetos e os campos de extermínio com o melhor dos explosivos: as ideias! E nós todos as carregamos um pouco. E muitas vezes somos obrigados a ler e ouvir que somos homens duros. Respondemos apenas que não. Somente sofremos as nossas dores e as dores do mundo. De um mundo que está ficando cada vez mais longe como nos mostra Béla Tarr  no seu belíssimo nitcheano e oportuno Cavalo de Turim. Mas… não podemos carregar a tragédia sem um pouco de humor e poesia. Para nós a necessidade da arte é essa: não deixar endurecer a alma dos mais sinceros sentimentos de afeto e preocupação.

A obra-prima de Bela Tarr, insere-se na construção e na busca de uma arqueologia da linguagem, esta que nos atemoriza, para viver e morrer. O que nos leva a fugir de nossas descobertas. Espaço e procura de Nietzsche: “Se quisermos considerar o espelho em si, veremos nele, apenas, nada mais do que as coisas; se queremos compreender as coisas, retornaremos em último lugar ao espelho – essa é a história mais geral do conhecimento” ! Só podia ser mesmo Nietzsche, esse que, ao ver o cavalo de Turim sendo chicoteado, abraçou-o e chorou. Por todos nós e por nossa humanidade. Que ainda não chegou à humanidade desse cavalo.

O Cavalo de Turim, filme que define o sentido pleno de nossa tragédia, uma concepção histórica e ética de nosso caminhar, de linguagens interrompidas, em busca de nosso fim. E aceitando que o poder, a mídia e a produção façam do espetáculo essa Torre de Babel, na desconstrução da linguagem, para nossa possível elevação e transfiguração. Nietzsche, Goethe, Marx, Benjamin, Foucault e tantos outros, mais a genialidade de espelho de nós mesmos, para um eterno retorno, nele, para o entendimento das coisas e, nunca sabendo o que é ou, são realmente uma coisa completa. Então, precisamos retornar sempre, acompanhados pela genialidade do filósofo transcendental da Origem da Tragédia, sua obra de juventude e da qual jamais se separou e que a confirmou em seu diálogo maior com O Cavalo de Turim. Chorando com ele. Enlouquecendo, como uma solidariedade possível. Ou, com a morte, no caso de não aceitação da escravidão que aceitamos e que nos submete, como vida, sustentáculo da ideologia dominante na construção do poder; essa coisa tão insignificante que o espetáculo pobre eleva – e nos eleva como uma coisa maior – e que a ele nos submetemos.

Filme de ruídos e de um discurso do silêncio. Esse de nosso interior e, intocável como o do mito. Discurso de nossa origem e de nosso fim, nossa única e possível transcendência, mesmo assim, inconscientemente arrasados pelo lado de fora, penetrados sistematicamente pelo espetáculo empobrecedor. De culto, fetiche, desejos, compensação  e punição. E que, quando se vai um pouco além,  denominam hedonismo, pena de morte, bombas, guerras, extermínios… Tudo isso é O Cavalo de Turim. E tudo sendo o choro de Nietzsche. E nos dando uma certeza, já que as indagações estão esgotadas: O único ser que se escraviza conscientemente, pela compensação como vida, é o humano. E fazendo dela sua punição. Uma tragédia na construção do poder para sua própria submissão.

Filme avançado de nosso estado de poesia e crítica, coisas raras no ciclo só de consumo do descartável e de arquiteturas do vazio, sem espelhos. Numa construção ética, estética e da própria dor, enquanto a natureza exterior exulta em seus ruídos musicais incansáveis e eternos, acompanhando-nos como um réquiem. É Mozart nos acompanhando, também! Filme também de cascata tonotroante só possível numa tragédia, essas que os gregos já nos brindaram. De desespero, experimentos e desejos. E com todas as possíveis aproximações; o princípio e o fim de todas as naturezas. E sempre na tentativa de construção de uma linguagem maior, mais exemplar, a de nossa sublime e interrompida elevação. No encontro de Apolo e Dionísio. Da energia e da crença, essa nossa fé, convertida nas coisas. Silêncios e ruídos, como nuances, música, tempos claros e escuros cheios e vazios, o que somos e negamos, e afirmamos para quase nada. Mas, pelo menos, para o enriquecimento da tragédia e desse estupendo filme que o Brasil deverá recusar como um exemplo do mundo empobrecido em que vivemos.

Um filme para não se definir. Porque tudo! O nosso nada! Hipotético, subjetivo e de realidade surreal, pelo que fazemos e pelo que fazem de nós. De qualquer forma, não se pode deixar de arriscar e chamá-lo de uma arqueologia da linguagem na definição da tragédia humana. Com aquele cavalo sendo a essência da natureza, essa que queremos ou, pensamos querer humana, demais humana e que esse Cavalo de Turim soube nos mostrar e nos elevar. Como essência das coisas e das palavras. Silenciosas, e ruidosas, à espera das nossas, como entendimentos e elevação. Pelo menos no choro, como em Nietzsche. Filme que eleva também, todas as formas de comunicação. De movimentos, silêncios e ruídos. Principalmente, pela presença constante, infinita, da música repetitiva e original. Sons e ruídos de dissonâncias e das possibilidades da linguagem, quando é buscada, como aproximação, individuação e a de um processo para a totalidade numa evolução de idealismo mitológico, como na mística.

De um todo não comprometido e de uma individualidade ainda portadora de energia e fé, não tocada pela ideologia ou qualquer princípio de organização humana. Presentes todas as dialéticas ainda não comprometidas pois, nem a submersão, essa elevação na busca, escapa no filme. Do sublime à sublimação. Nessa relação fantástica de pai e filha e onde a natureza é obrigada a ceder o lugar para uma experiência mais filosófica na discussão e na construção da linguagem, antes do caráter da praticidade , dos impulsos e pulsões a que somos levados e instigados como necessidades, desejos, transgressões e punições. E na construção dos ritus e dos espetáculos maculados pela ideologia, poder e na separação de toda organicidade – vida e morte; tão íntimas, próximas e desentendidas.

Um filme também de segredos e afetos. Tentando nos revelar as rupturas de um pensamento comum, este que a nossa história nos coloca como um absoluto, uma arqueologia possível de nosso conhecimento e de nossa origem e, que desde o princípio, vem sendo maculada por todo tipo de ideologia na construção de poderes. Individuais e de todos os outros. Submetendo-nos a um domínio impossível de ser rompido para um retorno constante, como nos sugere Nietzsche, em busca do melhor de nós, da natureza, para uma possível superação. Da tragédia e do prazer como culpa e punição. E chegarmos à elevação daquele cavalo, o de Turim. A que o filme retorna sempre. E com à inegável elevação. Só nos resta sair em busca de um cavalo, abraçá-lo e, também, chorar! Mas, antes é necessário assistir a esse filme incomparável, pela relação de tempos, silêncios, ruídos e música. De naturezas! A nossa e a desse Cavalo de Turim. E que mereceu esse filme raro. Raríssimo entre nós que vivemos do culto idiota do mercado e da TV. Aqui, filmes como Sudoeste, Carta ao Futuro e Marighella são esforços individuais épicos, pois são também anti-hollywoodianos e necessários, pois não se satisfazem com bolinhas, estrelinha,  bonequinhos e festivais. São usados, mas usam também porque nos fazem pensar numa história nova tanto para o cinema, como para política. De lixo já estamos muito bem servidos. Lixo que serve ao mercado, não a poesia. E cinema sem poesia, vira televisão. Fascismo, né?

Clique e assista o trailer:

YouTube Preview Image



2 Commentários sobre 'O Cavalo de Turim'

  1.  
    DINA MOSCOVICI

    30 Abril, 2012| 6:48 pm


     

    QUANTA PROFUNDIDADE : DÁ PARA PENSAR MUITO. OBRIGADA

  2.  

    23 Maio, 2012| 11:57 am


     

    A primeira vez que leio uma critica cinematográfica que se desloca da margem da imagem e se imiscui na plenitude, na essência da obra como um áporo.

Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

19 de Abril de 2018

  A mostra Corpos da Terra, cujas produções selecionadas refletem sobre a resistência indígena no Brasil atual, tem sua segunda edição entre os dias 20 e 23 de abril. O evento é realizado em parceria com o CineMosca e, além da exibição de filmes, terá mesas de discussão sobre a diversidade de mundos indígenas em […]

Por Revista Moviola

17 de Abril de 2018

  A dica de um precioso acervo para entender a situação indígena no Brasil atual é da jornalista Raquel Baster, mineira que vive atualmente no estado da Paraíba e colaborada com algumas atividades do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTN-NE), entre elas, a oficina de roteiro para o documentário Mulheres rurais em movimento (2016), filme […]

Por Revista Moviola

14 de Abril de 2018

O documentário O desmonte do Monte, dirigido por Sinal Sganzerla, aborda a história do Morro do Castelo, seu desmonte e arrastamento. O Morro do Castelo, conhecido como “Colina Sagrada”, foi escolhido pelos colonizadores portugueses para ser o local das primeiras moradias e fundação da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de sua importância histórica e […]

Por Revista Moviola

12 de Abril de 2018

  O documentário Auto de Resistência, dirigido por Natasha Neri e Lula Carvalho,  aborda os homicídios praticados pela polícia contra civis no estado do Rio de Janeiro. As mortes e as violações dos direitos humanos acontecem em casos conhecidos como “autos de resistência” – classificação usada para evitar que os policiais sejam responsabilizados pelos homicídios, […]

Por Revista Moviola

11 de Abril de 2018

O filme Livre Pensar – cinebiografia Maria da Conceição Tavares homenageia uma das economistas mais importantes do Brasil e, particularmente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A sessão de exibição do documentário ocorrerá dia 24 de abril, às 18h, no Salão Pedro Calmon da UFRJ (Av. Pasteur, 250, 2º andar / Urca). A […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio filme França Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.