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Um Nelson em Tom maior


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Publicado em 13 de Fevereiro de 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Já ninguém mais lembra o passado/ Nem se ele existiu/ Quando nos oferecíamos ao encanto/ Do desconhecido/ Para hoje nos oferecer e nos perder/ Nos encantos do espetáculo/ Com a despolitização da vida/ A alienação da arte/ A estética do fascismo/ E a entrega sem desejos/ Não basta ser humano/ Tem de ser imagem”.

(Sindoval Aguiar em Nem me Lembro)

 

Se a TV prostitui tudo, a música dá a diferenciação possível entre a criação profunda e os consumidores. É, digamos, uma força de resistência e de conscientização descentralizada da produção de excrementos para o mercado. Nelson Pereira dos Santos com A Música Segundo Tom Jobim, documentário co-dirigido com Dora Jobim, insiste que temos que procurar a felicidade na lata de lixo da indústria cultural, e guiar o público até Brecht. Mas Nelson não é Brecht, mas o cineasta que lapida imagens para operar a catarata das massas, sabendo que a redenção não virá com o baixo uso do espetáculo da violência ou com Hollywood. Mas com Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Tom Jobim…

Ora, só a música transcende os muitos discursos fascistas do nosso tempo. Ela chega a todos de diversas maneiras, e não precisa do progresso artificializador tecnológico. Ela enriquece todo esforço revolucionário. Foi assim ontem com Bach, Verdi, Wagner, Mozart… Segue sendo assim com Arrigo Barnabé, Macalé, Tom Jobim… Felizmente seu processo segue sendo desestabilizador através dos tempos. Ao parasitismo putrefato da política partidária, ela responde com uma poética acumulação de sonhos e paixões, impondo-se como formulação de caminhos. Nelson Pereira dos Santos uma vez mais substancia o cinema, desta vez falando pela música de Tom Jobim.

Deixa a ficção falida aos boçais da aliança publicidade-TV, para privilegiar uma espécie de organicidade dos muitos afetos vividos por Tom. É importante salientar que a música não precisa de empresários, bancos ou burocratas. Ela existe nas festas populares, nos bairros operários e até no Carnaval. Também não é um produto descartável como “A Eguinha Pocotó”, mas uma superação histórica do capital que vive e morre nele mesmo. Ou seja, a música sempre será uma arte popular, decisiva para a compreensão da história. E esse filme de Nelson sobre Tom é realmente um espetáculo em seu sentido grandioso. E falar de um espetáculo nos obriga a algumas observações.

Espetáculo eminentemente musical a nos conduzir em razão do tempo de domínios, exclusões e massificações e, onde até a luz se apaga pela banalidade, a uma reflexão também crítica, política e ideológica. Não deixando escapar os meios de produção e o capital que tudo emporcalharam. Tornando a mídia, a tela, luz de uma vela sem fé e de muito perigo. Mas Nelson Pereira é um cineasta de muitos experimentos e sabe definir os espetáculos à semelhança de um Buñuel, que fazia da música coisa tão importante e misteriosa, como suas próprias histórias, tornando-a quase imperceptível em seus filmes. Pelo que possuía de sublime, como nos tambores de Calanda, de que falaremos mais adiante.

O filme sobre Tom Jobim é um fenômeno musical de tempos levitados que Nelson nos traz nos fazendo acreditar que todas as diferenças culturais existem, estão aí, só precisando ter a sua luz captada, abrindo espaços, que imperceptíveis, vão se fechando na eliminação das diferenças particularistas de nossas existências e de nossa força de expressão criativa, destruídas e dispersas pela violenta investida de um tempo que não se contém nem se contenta pelas incursões desmedidas na cultura do espetáculo. Nos causando uma inferioridade e nos deixando um universo de vazios bestificados e arrogantes. Como se quiséssemos salvaguardar a selvageria do mundo! Tornando o ser humano um combustível carnívoro para as máquinas. Com a cultura não nos protegendo contra nada, servindo à própria barbárie, como dizia Pasolini, nessa agitação mortífera das telas, principalmente as das televisões de todos os espaços públicos e privados. Quando toda a inquietação da música, da poesia estão sem luz flutuante a caminho das esferas. O que esse filme sobre a música de Tom nos traz e nos projeta é o próprio universo. Nos assimilando também com lágrimas, delírio e paixão. E encantamento.

Nelson se deixou levar pelo encantamento! E fez coisa rara. A musicografia de Tom para uma leitura infinita de todos os sentidos; mesmo daqueles ausentes, cujos ecos de tão percucientes, se farão tocar. Musicografia cinema. Porque linguagem, expressão, poema, luz refletindo como som e imagens; com tantas histórias! Falando todos os idiomas e cujos segredos e intimidades, a cada um se revelam como ao autor/diretor que soube ouvir e conduzir todos numa regência de Tom. Porque intimidade e cosmogonia. Nostalgia nas esferas! Nelson subvertendo a natureza da linguagem. Fases e faces misteriosas que só o tempo e a arte revelam e que o cinema, como o mito, nem sempre projetam, retém à espera do tempo. O tempo de Nelson. O tempo de Tom Jobim. Como tivemos um tempo de Pasolini. De Drayer, Lang, Buñuel, Glauber etc.

Buñuel em seus filmes projetava os ecos dos tambores de Calanda, sua cidade natal. Neles, mistérios e provocações, histórias e pulsões. De muitas Espanhas. E daquela que ele gostaria que fosse. De Picasso, Goya, Velásquez, Lorca, Dali e de tantos mais. E com ecos desses tambores que tudo significa: da música, do poético ao trágico! E da diferença de Buñuel. Como nessa musicografia de Tom, uma diferença de Nelson Pereira dos Santos. Onde as diferenças de Brasil são também mistérios e projeções, desde Rio 40 Graus, Rio Zona Norte, o subúrbio de Caxias no Amuleto de Ogum, e outros Rios, como esse de Tom. O de Nelson em sua multiplicidade de tempos, histórias, representações e vontades. E Nelson sabe do que estamos falando! De caatingas e rincões, de metrópoles e solidões, de aglomerados militarizados, de culturas polarizadas e centralizadas, de muitos canais e de um só escoadouro. Nelson é também, muito desse retrato musical de Tom. Filme que emite sinais luminosos de vaga-lumes cruzando escuridões culturais de fascismos, de poder centralizado cooptando pelo discurso de paixão, adesão e medos. Nunca com o sentido cultural de Paz e Liberdade, de um Tom sempre maior.

 

Trailer do filme:

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Luiz Rosemberg Filho é diretor de cinema, escritor e artista plástico carioca. Foi roteirista de Adyós General e Viva a Morte. Dirigiu Assuntina das Amérikas, Crônicas de um Industrial e O Santo e a Vedete – até hoje inédito nos cinemas brasileiros. Atualmente dirige curtas-metragens em formato digital “para não enlouquecer”.

Sindoval Aguiar é mineiro, roteirista, ator e diretor. Ele co-dirigiu dois longas, ao lado de Braz Sediak: Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja.  Escreveu roteiros para filmes como Álbum de Família, Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende.



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