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Umberto D. e nosso cinema consignado


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Publicado em 13 de Dezembro de 2011

Para os Bandeirantes do Ponto Cine

“Só a morte é possível/Enquanto a vida é luta/Pelo impossível/E de glórias/Inglórias/Se de antemão/Sabemos a vitória /Vale pela força/E pelo desempenho/Como na arte/A astúcia/A vencer o velho/E o novo/E o tempo que passa/E se não passou/É a arte ou a velhice/Que pesou/E se vence a arte/Pode não ser eternidade/Mas é vida/Surpreendida/ Num instante/Onde um ser que passa/Fez o flagrante/Arte e vida/E basta/Morte e velhice/Vencidas/Luta de morte/Luta de vida/De instantes/E de tempos/Bastantes.”

                                  (De Um Flagrante Basta, de Sindoval Aguiar)

 

Leitor, vamos iniciar esse modesto trabalho sobre um grande filme de Vitório De Sica, com uma simples, mas necessária pergunta: por que “velhos” filmes geniais como O Grito, Noites Brancas, Othelo, Umberto D e mesmo Deus e o Diabo Na Terra do Sol não passam mais nos cinemas que se dizem de arte? Viraram telas, as da televisão que só comporta o lixo da sua programação? Ousaríamos dizer, aproveitando o espaço, que a eterna  crise no cinema brasileiro, é uma crise imposta de dependência. Que dependência? Um bom filme, sem dúvida, deve refletir sobre ela. Dependência política, econômica e cultural onde entra o nosso cinema. Mas… já vivemos um tempo em que a nossa cultura não era lá muito melhor, mas a dependência não se fazia sentir tanto. E o cinema não era tão atingido.

O controle sobre ele era rigoroso, mas havia uma real sustentação interna, mercadológica e cultural. Produzíamos de 80 a 100 filmes por ano. Possuíamos aproximadamente mais de 4000 salas de cinema em todo Brasil. E hoje? Talvez, nem um terço desse número. O cinema nacional também foi desregulamentado para atender à flexibilização das leis e interesses duvidosos. Muitos foram os que enriqueceram fazendo picaretagens, mas sendo vendidos como santos ou salvadores da pátria. Estatística séria e precisa para quê?

Houve uma época, não muito distante, mas parecida com um conto de fadas, em que o filme nacional para ser exibido, teve que conquistar uma reserva de mercado, a fórceps – pois o cinema estrangeiro não nos permitia espaço, quando a lei era mais truculenta do que o mercado. Hoje a lei é única, e mesmo que o filme fosse bem de bilheteria, teria que deixar o mercado. Foi e ainda é assim! O distribuidor estrangeiro, com a complacência do exibidor, exigia.  Mas, foram lutas memoráveis que precisam ser conhecidas e reincorporadas ao nosso cinema. O grande público já não fazia qualquer distinção que prejudicasse o cinema nacional. Já o defendia em condições de paridade criativa e técnica com o cinema estrangeiro. E na sua importância como cultura de massa, era defendido e respeitado como parte de nossa realidade econômica e cultural. E pela sua importância na construção de uma identidade para o povo, não pode deixar de viver em crise: endógena e exógena.

Já nos foi dito que depois do holocausto a poesia não seria mais necessária. Seria o caso de sabermos se o cinema, como arte, não será mais necessário depois do fetiche, uma imposição do mercado e da indústria principalmente cultural. Mas isso somente poderemos saber, quando o cinema nacional voltar a ser exibido em centenas de salas e abordar matérias e ideias pertinentes à nossa formação, ainda tão precária e tão dependente. E o cinema pode perfeitamente contribuir para que a nossa própria cultura faça os questionamentos e apresente as respostas para aqueles problemas que nos interessam como país em desenvolvimento e cuja sustentação temos de sobra. Inclusive cultural e cinematográfica.

Lamentavelmente, o investimento real no Continente, é numa desmaterialização dos sonhos. Os países não suportam uma sociedade sem fome e guerras. Ora, onde nasceu a opera bufa do fascismo? O delicado e magistral Umberto D recém lançado em DVD, já é a vida e o resultado das guerras que estavam por vir. Quase um grande documentário do desmantelamento humano, feito com poesia e leveza. Na nossa opinião, o melhor filme feito por De Sica. E numa publicação de 2007 lemos num jornal que: o “olhar de medo é o primeiro a ser percebido pelo cérebro humano”. Medo do cotidiano, da existência que estaria por vir e da vida. Sem hierarquizações viver tornou-se assustador. E como bem dizia Kafka: “Estou aqui, mais que isso não sei, mais que isso não posso fazer. Meu barco não tem leme, navega com o vento que sopra nas regiões inferiores da morte”. Foi como o conservadorismo foi se impondo pelos séculos pelas religiões, meios de comunicação e pelas guerras de ocupação cultural, econômica e militar.

Digamos que a certeza de que vamos todos morrer, marca nossa impotência real frente a uma vida plena de realizações. Paga-se um preço caro pela velhice. O ser sensível (e poderíamos todos sermos sensíveis!), vive em permanente exílio. Fora, ou dentro do seu próprio país. Aos Planos de Saúde, políticos e Partidos não importa a mínima que se viva mal. O objetivo central é que em sendo velho, que se morra logo. Mesmo a cultura de massa é uma enganação. Como afirmava Adorno: “A diversão é o prolongamento do trabalho no capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições de enfrentá-lo.” Ou seja, condiciona-se à esperança ao movimento bem pago das máquinas de controle individual e coletivo como a TV. E toda tentativa de rompimento, se dilui em editais, esperas e papeladas.

Uma vez aposentado, passa-se a não ser nada do interesse do dinheiro. Pagando  sempre com atraso, o tempo que demora a terminar. De Sica redimensiona com seu melhor filme, quiçá às avessas da imutabilidade dos velhos sobreviventes desse nosso tempo. Umberto D  é um simples professor aposentado com problemas de dinheiro e onde só a decadência do sistema é dimensionada como artifício anti-ilusionista, pois a velhice é um espaço onde não há mais começos, e sim enfermidades do corpo e da alma. E onde a catástrofe do fim torna a solidão, a corrosão natural dos que partem sem um só sonho. E apenas quiseram estudar, ler, viver e serem minimamente felizes no caso do professor Umberto Domenicco, em companhia de seu cãozinho maravilhoso que nos remete a cadela Baleia em Vida Secas, de Graciliano Ramos. O que interessa ao realizador e seu delicado personagem, é amplificar o real sentido da vida. Não como alegoria ou nostalgia, mas como defesa de uma outra história para a sensibilidade. Usando o cinema não como excentricidade técnica, mas como construção amorosa da sobrevivência humana.

Ainda a  propósito de Umberto D, essa obra prima de De Sica, um dos extremos do neorealismo pelo rigor narrativo e o rigor da sensibilidade em tocar extremos com as dicotomias expressivas, econômicas e sociais, o forte dos gênios desse gênero como Visconti, Rossellini, Francesco Rosi, Antonioni, etc., onde a cultura nunca esteve a reboque mas, sendo o fundamento crítico de uma astúcia poética, literária e cinematográfica. Como, em situações como essas, deixar de falar de nossa condição, de nosso cinema burocratizado, sempre uma ameaça vendendo encantamento, farsa, aderência? De cineastas envelhecidos e que já nascem de cabelos brancos, na encruzilhada e sem saber o que é, realmente, o nosso cinema. O que é e o que sempre foi! E também o que pode ser!

Cinema que não consegue sair do buraco; crescer rejuvenescendo! Quando nossos movimentos econômicos, políticos e culturais nos impõem envelhecimento. E a nossa experiência e alguma relação com esses fenômenos, notadamente, os sociais e culturais, não podem nos desmentir. Porque o Brasil sempre cresceu assim. Concentrando renda e fingindo fortalecimento interno. Crença e realidades forçadas pelo marketing e uma mídia comprometidos, historicamente, forçando uma economia e uma cultura social distorcidas, pelo nosso despreparo, pelo nosso desconhecimento.  E pelas nossas necessidades, acompanhadas sempre de um bom prato de mau caratismo. O rico mercado interno a crescer continuamente, não nos atende em nada, nos obrigando a consumir as porcariadas que veem de fora, comprometendo nossa formação pois, somos ainda, em desenvolvimento e formação; viciando o nosso espectador contra sua origem e responsabilidade. E, por outro lado, quem pode negar a nossa dependência a obsolescências,  enquanto nossa porca burguesia consome bens duráveis, viaja e exorbita, privilegiada pela concentração da renda, e um PIB que não tem servido socialmente ao país? Porque a realidade confirma que, estruturalmente, nada se altera. No campo e na cidade. Há uma ditadura social e econômica no debate e na visão crítica das ideias. Onde, no cinema, obrigam-nos agora, a expô-las às corporações para alguma consignação! Temos que refletir culturalmente e politicamente sobre tudo isso! Onde está o povo no poder?

O nosso cinema sempre foi refletido de forma enganosa porque a força de seus meios e de seu movimento circulatório nunca foram os do interesse do país. Mas, da minoria, a que detém poder, riqueza e suas excedências, as que definem os movimentos. Ninguém pode negar o crescimento do mercado cinematográfico mas, para quem? Para a concentração de renda e para os abusos de domínio e obsolescências. Não estamos falando de moral mas de ética, sociologia, política, desenvolvimento e necessidades! E de domínios, destes que avançam no cinema garantindo o mercado, o público cativo nos impondo o princípio corporativo! Já nas burocracias e também nas produções dos filmes, nas histórias e na escolha de atores, todos amestrados, fazendo coro ao sistema que foi se tornando único desde a era Collor, desmontando o cinema e estruturando o sistema de vídeo; agora forçam a tecnologia, negando a força criativa dos cineastas, controlando o mercado e forçando o consumo do que produzem e passam a importar para o nosso cinema. Principalmente a tecnologia 3D. Para nada além de domínio e controle.

As leis brasileiras precisam rever esse quadro, enquanto o governo parece favorável a construir um Brasil mais brasileiro! Direcionando melhor a conduta das empresas cinematográficas em defesa de nosso cinema. Claro, sem negar o momento, as relações internacionais, políticas e democráticas de negociações e imposições. As circunstâncias pesam! Conhecemos as circunstâncias, Jack Valente! A nossa globalização precisa ser melhor direcionada. O que nos interessa um monte de cinemas e de filmes idiotas em 3D, que o próprio público mais exigente recusa? Mais investimento, mais imposição e domínio? O que nos interessa um filme de produção custosa de l5, 18, 20 milhões, com nossos recursos, dirigida por um estrangeiro? Não estão querendo trazer Woody Allen para dirigir um filme aqui? Nada contra o delicado cinema de Woody Allen e sim contra os nossos burocratas. Nossa formação e nossas necessidades não são as mesmas de Roliude! Estudemos um pouco mais de história! A globalização não acelerou avanços, mas retardos! Imperializados e de dependências. Reparemos que os movimentos do cinema, não são os nossos movimentos circulatórios para nós. Com dependência simulando avanços e crescimento do mercado. E o que realmente existe mas, com as telas e o mercado, para nós, fechados!

Avanços de corporações não significam avanços para o cinema nem para o país. De modo geral, nos tornamos um cinema de produção e de exibição, corporativas. Consignadas! Com o mercado interno completamente dominado pelo lixo que vem de fora. Com o cinema fazendo movimento em círculo, no mesmo lugar. De onde não sai! Nossos movimentos não passam de uma realidade presuntiva, não acontece, fortalece o cinema contra nós, contra nossos profissionais, contra nossa profissão, fingindo a ascensão de uma classe social, fazendo cinema por elas mesmas. Uma mentira que quer se tornar verdade.  E se torna. Mas, uma verdade, da mentira! A mesma do operário querendo ser patrão, sem tocar política e culturalmente nos movimentos, os de mudança. Sem o nosso crescimento nas telas com bons filmes, mas geradoras de renda para cobertura de produções e de todos os custos, gerando lucros, é tudo falso. Até que os próprios incentivos podem nos faltar ficando somente os da dependência e os de domínios: os das corporações. Esse fluxo enorme do nosso cinema nada nos tem representado como independência do nosso cinema. Continuamos à margem; das telas, inseridos nas logomarcas, no sistema de domínio e de controle.

Já estamos no cinema, como o mundo dos idosos. Carentes e dependentes. Sonhando um outro dia menos miserável, então, empenham o próprio salário nos bancos. Os famosos empréstimos consignados que tanta riqueza gera e concentra. Favorecendo um consumo interno e um alavancamento do PIB. O idoso no empréstimo, oferece a segurança do contracheque. O cineasta quando obtém algum recurso e alguma tela alternativa, garante assim, que nosso cinema permanecerá dependente, dominado, selendo nossas possibilidades e nossos sonhos. O de nunca acordar! E nosso cinema é tão importante que ninguém pode mais negar a razão econômica, política e social. Vide os filmes das favelas, os tais das UPPs, feitos por nós mesmos; quer dizer, por eles mesmos! Como negar a nossa cultura? Felizmente, ela continua na luta! Nas ditaduras de farda ou do cinema! Foi assim no “milagre econômico” de 1975. E tem sido assim na nossa Idade de Ouro do cinema! Onde o bolo nunca cresce para ser dividido. E nunca jorrando nem leite, nem mel!

*Fotos: cenas de Umberto D.

Luiz Rosemberg Filho é diretor de cinema, escritor e artista plástico carioca. Foi roteirista de Adyós General e Viva a Morte. Dirigiu Assuntina das Amérikas, Crônicas de um Industrial e O Santo e a Vedete – até hoje inédito nos cinemas brasileiros. Atualmente dirige curtas-metragens em formato digital “para não enlouquecer”.

Sindoval Aguiar é mineiro, roteirista, ator e diretor. Ele co-dirigiu dois longas, ao lado de Braz Sediak: Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja.  Escreveu roteiros para filmes como Álbum de Família, Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende.



1 Commentário sobre 'Umberto D. e nosso cinema consignado'

  1.  

    6 Março, 2012| 11:29 am


     

    Tenho esse filme em dvd, ele mostra o descaso do ser humano como algo descartável!

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