Uma crítica afetiva

“O poeta fala das coisas que são suas e de seu mundo, mesmo quando nos fala de outros mundos: as imagens noturnas são compostas de fragmentos das diurnas, recriadas conforme outra lei. O poeta não escapa à história, inclusive quanto a nega ou a ignora. Suas experiências mais secretas ou pessoais se transformam em palavras sociais, históricas. Ao mesmo tempo, e com essas mesmas palavras, o poeta diz outra coisa: revela o homem.” A citação é de Octavio Paz, vem de A consagração do instante, ensaio que integra o clássico Signos em rotação. Paz fala especificamente de literatura nesse ensaio, mas o trecho que destaquei me parece servir sem nenhum prejuízo ao gesto da cineasta Jessica Cadal, que lançou em Curitiba seu documentário em média-metragem O espelho de AnA.
Nos termos de Octavio Paz, estive diante do filme como se estivesse diante de um poema. Porque não se contou nele apenas uma história ou a história cotidiana e pessoal da própria Jessica. Antes, ela, Jessica, se apresentou diante de nós através de seu filme, fez-se imagem, montou um poema de si mesma, cerzindo a história única de sua intimidade à intimidade das mulheres com que convivera. E com isso, ao mesmo tempo em que nos convidou a assistir à história de sua casa, de sua família, portanto, de tudo aquilo que a estabelece num lugar e tempo específicos, Jessica tratou de temas largos, como a condição feminina, o relacionamento, a família, o amor. E é essa ambiguidade, ser “aquilo e isso”, estar no tempo e descolar-se dele simultaneamente, que aproximou, a meu ver, O espelho de AnA às construções poéticas.
O artista plástico francês Christian Boltanski, em entrevista ao periódico Clarín , para justificar algumas escolhas estéticas que fez ao longo de sua carreira, disse que assim como para os santos, também para o artista a própria vida pode ser uma obra. Ele mesmo sempre usou sua vida, seus objetos e sua história como material para suas instalações. Mas ali, no espaço do museu, a vida reorganizada é ao mesmo tempo uma vida específica e reflexão da vida de quem a vê. No final, chega-se àquilo que é anterior à própria identidade, ao que Octavio Paz denomina, ao longo do livro citado, de “a condição humana”.
Da mesma forma, Jessica, pelo milagre do cinema, desmonta sua própria vida e a reorganiza. A câmera, que tem a acompanhado desde a adolescência — desde cedo se fez personagem, imagem — registra a repetição das tarefas domésticas, que se ressignificam, ou melhor, são atribuídas de significado no filme, através do filme. Sem precisar dizer (pois um poema é e não conta), concluímos que mais que o sobrenome, o que aproxima essa jovem cineasta, politizada, culta, à sua avó, duas gerações atrás e tudo aquilo que a impediu de construir uma vida só sua, é o papel que ocupam: o de mulher, palavra ambígua que denota sexo e maternidade, gênero e estado civil, que se confunde ainda nos nossos dias ao de esposa. A ambiguidade, sempre ela: a malícia de Eva, a inocência de Maria.
O parto do seu filho é similar em tudo a tantos outros partos.
Talvez pela minha idade, fertilíssima, pela constante notícia que tenho recebido de amigas que se casam, amigas que engravidam, amigas que me convidam para as festinhas de aniversário dos filhos. Talvez pela minha consciência em me reconhecer mulher adulta, que me tira dos movimentos contínuos enquanto dobro as camisetas que recolho do varal, enrolo as meias e cuecas do meu marido, em muita coisa eu me reconheci nesse excelente documentário de Jessica Candal.
Reconhecer-se na estranheza do espelho de outra, essa foi a experiência.


“O Espelho de AnA”, dirigido por Jessica Candal, relata a investigação da diretora-personagem a respeito da sua condição enquanto mulher. Através do espelhamento em pessoas íntimas, como a avó, mãe, marido, amigas e a filha de uma delas, sua própria identidade é ao mesmo tempo forjada e revelada.
Documentário, 43 minutos, MiniDV, VHS e Super-8

Vanessa C. Rodrigues é formada em letras pela UFPR e trabalha como editora, copidesque e revisora de livros. Também é escritora.