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Esses Amores


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Publicado em 28 de Outubro de 2011

Há cinco décadas Claude Lelouch faz cinema. Esse senhor francês, que hoje se encontra na casa dos 70, nunca foi infiel a seus princípios narrativos. Com mais de cinquenta filmes dirigidos, sempre se dedicou a contar histórias de amor. Talvez, por isso, ele padeça de uma certa indiferença diante da crítica internacional. Há quem diga que é pelo fato de Lelouch falar mal da Nouvelle Vague. Para o próprio cineasta, a cinefilia intelectualizada elegeu a Nouvelle Vague como a única representante do grande cinema francês. Já ele, nunca filiado ao grupo, ficou de fora do quinhão.

O certo é que Claude Lelouch é um dos cineastas mais coerentes e interessantes da França. Sua obra – imensa – poucas vezes foi levada à sério, com o rigor merecido. E se ninguém se atém a isso, o próprio diretor se pôs nesta posição. Com Esses Amores, Lelouch faz a revisão que cabia à crítica, aos curadores, à imprensa. No Esses Amores, Lelouch faz uma obra definitiva porque nela amarra quaisquer pontas soltas que possam ainda existir sobre seu cinema.

O longa inicia com um letreiro no qual o próprio diretor explica que aquele filme é uma homenagem aos seus cinquenta anos de carreira e que as histórias ali contadas mantém, sim, vínculo com histórias reais, não há meras coincidências.

Trata-se de um filme épico, desses que cruzam um século na busca de uma narrativa, na certeza que só atravessando cem anos de existência é que somos capazes de entender um pouco sobre o que é a humanidade. Porque Lelouch acredita na humanidade, apesar de tudo. E uma das coisas que Lelouch mais fala aqui é sobre como pode haver desgraça na existência humana.

A história começa ainda antes da Primeira Guerra Mundial, quando o cinema era preto e branco, silencioso, e era um dos símbolos de esperança do século que nascia. Mas todos sabemos como essas esperanças foram tão rapidamente cortadas, como a Europa afundou em dois conflitos assombrosos. Esses Amores é sobre isso. Mas é mais também.

Grande parte da história se concentra ali pela época da dominação nazista sobre a França. E sendo um filme de Lelouch, é um filme de amor. Assim, a protagonista Ilva Lemoine (Audrey Dana) – que tem um pai membro da resistência francesa – apaixona-se pelo algoz nazista. Dito assim, ao largo, parece bem pueril. Mas Lelouch consegue costurar sua infindável trama com histórias e personagens numa delicadeza e precisão, que tornam esse Tristão e Isolda muito mais profundo do que possa parecer. E isso se dá porque o filme não se encerra aí. Ilva sofre as agruras do seu tempo porque acredita no amor e se apaixona fácil demais, em suas próprias palavras. Esse nazista é uma parte pequena de sua história. Já houvera um jovem estudante de direito e, ao fim da guerra, dois soldados norte-americanos (um negro e pobre; um branco e rico). E a vida continua, o filme continua.

Acho bom, entretanto, não me aprofundar tanto na trama. Já foram aqui spoilers demais para uma crítica. Basta acrescentar que essa personagem é o centro de uma história gigantesca, que envolve ainda um pianista que está entre suas escolhas de vida. Ele está entre a música e a advocacia. Ilva, sempre entre amores, em escolhas difíceis demais para ela. É Lelouch nos falando sobre a condição humana, sobre o que escolher, que caminho tomar. Há o caminho do amor, que redime até o pior nazista; há o caminho da guerra. E o amor é uma boa escolha? Há morte neste caminho também. Em cem anos são muitos os caminhos, muitas as escolhas.

Mas Esses Amores vai ainda além, porque também há o cinema na vida de Ilva. O seu padrasto, esse membro da resistência francesa, trabalha como projecionista. Seu pai era cinegrafista e morreu durante a primeira guerra. O cinema, portanto, permeia toda a história da protagonista. É uma desculpa que o Lelouch achou para não só falar dos seus amores, os filmes, mas para – assim também – homenagear o cinema que o formou nesses cinquenta anos de atividade.

O cinema é quase um personagem que está há todo momento espreitando o enredo. Às vezes ele fala (como nas diversas projeções que vemos ao longo da exibição), às vezes ele está quieto, afixado em cartazes que vão dando as pistas do que forma o cineasta Lelouch. Assistir Esses Amores com atenção é desvendar o gosto cinematográfico do seu realizador. Estão lá Jean Renoir, Truffaut, Alain Resnais entre muitos outros. São pistas soltas ou escancaradas aos montes.

É por isso tudo que Esses Amores é uma obra definitiva. Porque ela é uma obra testemunho do cinema, porque põe os pontos nos “is” sobre a mise-en-scène empregada por Lelouch. E mostra como só ele é capaz de dedicar uma vida inteira a filmar histórias de amor não banais. Desde aquele primordial Um Homem, Uma Mulher (1966), está lá o cineasta se dedicando a falar de amores bem ou mal vividos. Nesse Esses Amores, ele explica o porquê.

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