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Caminho para o nada


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Publicado em 20 de Outubro de 2011

Caminho para o nada, Monte Hellman, EUA, 2011

O cinema é uma manifestação artística com imensa capacidade para reproduzir a realidade, graças a sua reprodução ótica a 24 quadros por segundo. Mas, ao mesmo tempo, também possui uma enorme natureza de ilusão, devida à sua natureza de cópia e, nos dias de hoje, às ilusões do digital. Não são à toa, portanto, as recorrentes alusões que o cinema faz do sonho como matéria-prima para suas narrativas. É em tal terreno que Caminho para o nada (Road to Nowhere), do lendário Monte Hellman, se ancora na construção de sua narrativa e de seu estilo.

Hollywood é uma miragem, onde nada é o que parece. Se o show também contém o business, como bem lembra um personagem do filme, o business muitas vezes determina a criação de uma atmosfera de ilusão para melhor vender o seu show.  A ilusão, que está presente o tempo todo na narrativa de Caminho para o nada, começa pelo diretor do filme que se passa dentro do filme. De tanto assistir a outros filmes, cujas cenas chave são homenageadas em Caminho para o nada, ele mesmo já confunde a realidade com os sonhos de seus diretores de cinema prediletos. E parece ter dificuldades em dirigir seu próprio filme. Além do mais, se envolve romanticamente com a atriz principal do filme que dirige, em mais uma confusão entre realidade e ficção.

Mas o próprio Hellman não acredita nessa divisão a priori entre realidade e ficção. Caminho para o nada, que possui uma estrutura semelhante à do gênero policial, mas só aparentemente, utiliza desde o início o procedimento do filme dentro do filme para questionar o que é ou não realidade. Ver um notebook que exibe imagens do filme que é objeto da narrativa demonstra que Hellman, aos 79 anos, está conectado com o presente. O computador portátil é o meio pelo qual o espectador terá o primeiro acesso ao universo do filme que o jovem diretor gravou e que serve de solução, ao menos parcial, para o mistério que o filme anuncia.

A fragmentação da narrativa em Caminho para o nada funciona como elemento de suspense para o espectador. Ao longo do filme ele deverá montar o quebra-cabeça oferecido, e que não é simples. Em meio à fragmentação narrativa, que aos poucos vai se encaixando, o espectador é brindado com o desfile de tipos bizarros, compondo um painel de personagens típicos do delírio que é Hollywood. E o estilo com o qual eles são filmados busca ressaltar a atmosfera de distanciamento e estranheza que acompanha o filme. Os personagens parecem marionetes que se movem pelo tabuleiro de xadrez da narrativa, sem que busquem transmitir maior emoção ao espectador. O efeito, cuja semelhança mais óbvia pode ser apontada nos dois últimos filmes de David Lynch, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, causa desconforto ao espectador, que não consegue “participar” do filme junto a seus personagens. Se a ideia é questionar o ilusionismo do business hollywoodiano, Hellman utiliza a forma perfeita para seu thriller.
Trailer do filme:

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Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2011

 



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