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Terraferma


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Publicado em 18 de Outubro de 2011

Terraferma, Itália, 2011, Emanuele Crialese

O mar é uma presença importante no cinema italiano desde, pelo menos, La terra trema, de Luchino Visconti. A lentidão, o ritmo e a simplicidade da vida dos pescadores em contraste com o mundo contemporâneo. Suas vidas e seu trabalho, repetidos e metódicos, longe da velocidade industrial das grandes cidades. Mas tanta simplicidade também pode esconder a força bruta e a violência da natureza, reveladas por Rossellini na famosa cena da pesca do atum em Stromboli.

Uma ilha e sua colônia de pescadores, na Itália de Berlusconi em 2011, não possuem mais o mesmo romantismo que Visconti retratou nos anos de 1940 e mesmo o mistério de Stromboli já está, em grande parte, perdido, em um mundo no qual tudo se conhece. A pesca é, agora, uma atividade decadente, a qual poucos velhos teimam em manter para sobreviver. O que rende mais dinheiro para os habitantes daquela ilha ao sul da Itália é o turismo. Chega o verão e os turistas vêm em bandos. E os locais alugam suas casas, levam-nos para passear em seus barcos, para provar sua comida típica, tudo seguindo as normas do turismo contemporâneo, em que a experiência da viagem é algo semelhante a estar em um shopping center. Terraferma demonstra isso nos planos em que a multidão de turistas chega à ilha e os locais os abordam oferecendo hospedagem e comida. E também quando os turistas saem no barco do tio de Filippo (Fillippo Pucillo) dançando ao som de uma música eletrônica, em uma espécie de transe que contrasta com o silêncio de um barco a pescar.

Filippo e seu avô representam a tradição que teima em persistir. Viver da pesca, presos a um trabalho que está para ser extinto. Mas um elemento novo irá perturbar a calma e a higiene necessárias para o consumo tranquilo dos turistas. Quando neto e avô estão em uma pescaria, vêem uma multidão de negros em um bote à deriva. Alguns deles saltam e é o momento no qual o costume do pescador irá superar a lei escrita moderna. Um corpo no mar deve ser recolhido e salvo. Mesmo que seja o de um negro, miserável, imigrante ilegal, o que irá levar a polícia italiana a lacrar o barco.

No conflito entre a manutenção da tradição e um mundo novo, Terraferma mostra o quão complexa é a situação da Itália e da Europa nos dias atuais, principalmente para um jovem simples como Fillipo. Dividido entre os dois mundos, ele é o centro deste filme que, com grande intensidade dramática e uma câmera sempre em busca da emoção de seus atores, procura situar-se no lado oposto ao projeto fascista de Berlusconi sem, no entanto, deixar de procurar entender toda a complexidade que atravessa a atual situação da Itália, da Europa e do mundo.

 

Assista o trailer:

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Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2011



1 Commentário sobre 'Terraferma'

  1.  
    Maysa

    30 Setembro, 2013| 12:42 pm


     

    Bom saber que este filme chegou por aí. O roteiro é de um grande amigo meu, Vittorio Moroni, com quem trabalhei em Roma. Vou falar pra ele!

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