Rock Brasília – Era de ouro, Brasil, 2011, Vladimir Carvalho

Eles nasceram já com uma benção. Imaginem os filhos dos funcionários públicos mais influentes de um país latino-americano vivendo, desde a sua infância, em cidades como Londres, Paris, Berlim ou Nova York, devido aos cargos diplomáticos e financeiros de primeiro escalão que seus pais ocupam. Presidentes de bancos, secretários de embaixadores e generais criam seus filhos nestes grandes centros urbanos, onde tudo acontece, as ideias mais modernas da cultura se cristalizam ou são divulgadas antes do que em qualquer outro lugar.
Nos anos de 1970, muitos destes jovens latino-americanos foram irradiados pela nascente cultura punk, um movimento de cunho anarco-niilista que abrangiu diversas áreas da cultura humana, em especial a música. De volta a seus países de origem, muitos deles continuaram escutando e tocando punk rock nas garagens de suas casas e salões de festas de seus edifícios, também interagindo com os garotos locais, que nunca haviam saído do país, aliás, muitos desses garotos extremamente pobres, filhos de militares de escalões menores e também de operários que construíram a cidade. Mas que também já escutavam a nova música, trazida pelas ondas de rádio, que todo mundo tinha ou escutava na mercearia.
Imaginem agora que, muitos desses garotos, em um país específico chamado Brasil, não retornaram para as velhas cidades de seus pais, grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo, onde já havia toda uma cultura popular e nacional enraizada, muito distinta dessas novas influências musicais vindas do hemisfério norte.
No caso do Brasil, uma parte considerável desses filhos de diplomatas, militares e financistas voltaram e chegaram ao mesmo tempo. Voltaram para o Brasil, mas chegaram em Brasília, uma nova capital, com menos de 20 anos na época. Em suma, um novo começo.
Não suficiente, esses garotos tão europeizados, tão americanizados, se viram no meio de uma guerra civil, de uma ditadura, nos prédios modernos projetados por Niemeyer, cercados pelas favelas nascidas a partir das aldeias de operários da construção civil que os construíram.
Então esses garotos imbuídos de cultura punk, de não-conformismo, de rebeldia, se vêem agora envolvidos em uma realidade muito mais cruel, muito mais violenta que as de Londres ou Nova York, onde a repressão está comendo solta e onde, o pior de tudo, os seus próprios pais estão inseridos no sistema, não tanto como líderes políticos fascistas, mas como funcionários públicos que não queriam ver sua vida e a de suas famílias serem destruídas por causa de um confronto direto com o regime autoritário. Ainda que esse estado de espírito das famílias dos roqueiros não fique explícito em Rock Brasília (2011), dirigido por Vladimir Carvalho, ele é sugerido quando, no fim do filme, Briquet de Lemos, o pai de Fê e Flávio Lemos de Aborto Elétrico e Capital Inicial, diz para o entrevistador que ele acredita que, na vida deles, os filhos acabaram ensinando os pais.
Ensinando os pais porque, no fins de 1970, quando esses garotos atingiram a idade universitária, eles começaram a formar bandas de estilo punk, com letras altamente contestatórias para a época, e, não contentes com isso, começaram a tocar essas canções não só em garagens e salões de festas, mas por toda a cercania, inclusive em bairros e cidades empobrecidas, causando a fúria das autoridades. Após 10 anos, a música de protesto ressurgia no Brasil de uma forma inusitada. Através do Rock!
Ao longo do documentário, tanto os músicos como seus pais relatam os momentos em que os garotos foram apreendidos pelos policiais militares, que os autuavam e os intimidavam pelo simples fato de estarem cantando canções contrárias ao sistema. Nas kombis que os levavam aos shows, em pleno Sertão brasileiro, eles acordavam no meio da viagem com pistolas já apontadas para os seus rostos.
Os roqueiros de Brasília, no entanto, perseveraram. Até o ponto de, após as diretas de 1984, estourarem nas rádios nacionais com sua atitude altamente politizada e uma gana de artistas que não pertencem aos grandes centros urbanos, e que, portanto, precisam realmente batalhar por um lugar ao sol.

Muitas pessoas criticam o rock de Brasília por achá-lo chato, idílico em seu engajamento político. Em primeiro lugar, isso não é verdade, pois essas bandas não se limitaram a serem políticas e tampouco politicamente corretas. Mas também eu me pergunto, como é que eles não poderiam ser politizados no contexto em que viviam?
Para além da música, a direção de Vladimir Carvalho prova que é possível fazer um documentário com uma certa dose de arte. Nos diversos depoimentos dos músicos, ele “ressuscita” Renato Russo, organizando antigas entrevistas com o cantor falecido. Parece que ele dialoga com os depoimentos dos outros músicos, evitando assim um documentário que pudesse mitificar o Trovador Solitário, como Renato era chamado por seus amigos.
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