Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Inquietos

Inquietos


Por

Publicado em 16 de Outubro de 2011

Inquietos, EUA, Gus Van Sant, 2011

A carreira de Gus Van Sant, nos últimos anos, vem se dividindo na realização  de duas espécies de filmes: em uns (Elefante, Last Days, Paranoid Park), ele adota narrativa e estilo bastante afastados do cinema clássico narrativo. Em outros (Milk, Encontrando Forrester), ele já está totalmente dentro do terreno das convenções estilísticas e narrativas que fazem parte do cinema clássico narrativo. Inquietos (Restless) está situado no meio do terreno entre as duas metades que vem formando o cinema de Van Sant nos últimos anos. Por um lado, o filme não apresenta a mesma estrutura narrativa bastante tradicional de Milk e Encontrando Forrester. Por outro, não apresenta as aventuras estilísticas de Paranoid Park ou Last Days.

Esse meio do caminho me parece prejudicial. Inquietos não possui o vigor clássico de Milk e nem a força da aventura estética de Elefante. Como e por que filmar os últimos meses da morte de uma adolescente retoma a temática do mundo dos jovens solitários e confusos em um mundo que lhes é, basicamente, hostil. Tal temática vem norteando as narrativas de Van Sant desde Gerry (talvez mesmo desde Drugstore Cowboy ou Garotos de Programa, ou seja, durante toda sua obra), mas vinha se acentuando graças aos recursos estilísticos utilizados nos seus últimos filmes “alternativos”, como o uso do som e dos tempos mortos.

No entanto, neste seu último filme, a elogiável sobriedade e bom-humor ao narrar uma história trágica parece também estar ligada, muitas vezes, a uma preguiça estilística e um desejo de ser agradável ao espectador. Isso pode ser notado no uso medíocre de determinados campos/contracampos e na trilha sonora povoada de folks acústicos indies que buscam criar uma atmosfera simpática para os personagens, bem ao contrário da trilha sonora desafiadora de Paranoid Park. Mas, em se tratando de um diretor de imenso talento como Gus Van Sant, o filme também possui momentos de êxito. Um deles é o longo plano do casal de protagonistas a conversar diante do túmulo dos pais de Enoch. Outro são as cenas passadas no hospital, principalmente no contraponto do, aparentemente, frio médico, nas quais uma atmosfera de drama e mistério se faz muitas vezes presente.

Se a crítica até aqui vê mais defeitos do que qualidades em Inquietos talvez se deva ao enorme grau de expectativa que o cinema de Gus Van Sant provoca. Nos últimos anos, ele promoveu um mergulho radical em direção a novas formas narrativas e de estilo, que renderam um quarteto de filmes, sem paralelo no cinema americano dos anos 2000, por sua coragem em ser contemporâneo, buscando as formas adequadas para uas narrativas de personagens e tempos um tanto distópicos na América de George W. Bush. Se a chegada de Obama ao poder fez o cinema de Gus Van Sant ficar mais adocicado, é hora, haja vista o que ocorre na política e na economia americanas, do cineasta recuperar a força de suas imagens viscerais.

 

Veja o trailer:

YouTube Preview Image

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2011

 



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

19 de Abril de 2018

  A mostra Corpos da Terra, cujas produções selecionadas refletem sobre a resistência indígena no Brasil atual, tem sua segunda edição entre os dias 20 e 23 de abril. O evento é realizado em parceria com o CineMosca e, além da exibição de filmes, terá mesas de discussão sobre a diversidade de mundos indígenas em […]

Por Revista Moviola

17 de Abril de 2018

  A dica de um precioso acervo para entender a situação indígena no Brasil atual é da jornalista Raquel Baster, mineira que vive atualmente no estado da Paraíba e colaborada com algumas atividades do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTN-NE), entre elas, a oficina de roteiro para o documentário Mulheres rurais em movimento (2016), filme […]

Por Revista Moviola

14 de Abril de 2018

O documentário O desmonte do Monte, dirigido por Sinal Sganzerla, aborda a história do Morro do Castelo, seu desmonte e arrastamento. O Morro do Castelo, conhecido como “Colina Sagrada”, foi escolhido pelos colonizadores portugueses para ser o local das primeiras moradias e fundação da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de sua importância histórica e […]

Por Revista Moviola

12 de Abril de 2018

  O documentário Auto de Resistência, dirigido por Natasha Neri e Lula Carvalho,  aborda os homicídios praticados pela polícia contra civis no estado do Rio de Janeiro. As mortes e as violações dos direitos humanos acontecem em casos conhecidos como “autos de resistência” – classificação usada para evitar que os policiais sejam responsabilizados pelos homicídios, […]

Por Revista Moviola

11 de Abril de 2018

O filme Livre Pensar – cinebiografia Maria da Conceição Tavares homenageia uma das economistas mais importantes do Brasil e, particularmente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A sessão de exibição do documentário ocorrerá dia 24 de abril, às 18h, no Salão Pedro Calmon da UFRJ (Av. Pasteur, 250, 2º andar / Urca). A […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio filme França Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.