Inquietos, EUA, Gus Van Sant, 2011
A carreira de Gus Van Sant, nos últimos anos, vem se dividindo na realização de duas espécies de filmes: em uns (Elefante, Last Days, Paranoid Park), ele adota narrativa e estilo bastante afastados do cinema clássico narrativo. Em outros (Milk, Encontrando Forrester), ele já está totalmente dentro do terreno das convenções estilísticas e narrativas que fazem parte do cinema clássico narrativo. Inquietos (Restless) está situado no meio do terreno entre as duas metades que vem formando o cinema de Van Sant nos últimos anos. Por um lado, o filme não apresenta a mesma estrutura narrativa bastante tradicional de Milk e Encontrando Forrester. Por outro, não apresenta as aventuras estilísticas de Paranoid Park ou Last Days.
Esse meio do caminho me parece prejudicial. Inquietos não possui o vigor clássico de Milk e nem a força da aventura estética de Elefante. Como e por que filmar os últimos meses da morte de uma adolescente retoma a temática do mundo dos jovens solitários e confusos em um mundo que lhes é, basicamente, hostil. Tal temática vem norteando as narrativas de Van Sant desde Gerry (talvez mesmo desde Drugstore Cowboy ou Garotos de Programa, ou seja, durante toda sua obra), mas vinha se acentuando graças aos recursos estilísticos utilizados nos seus últimos filmes “alternativos”, como o uso do som e dos tempos mortos.
No entanto, neste seu último filme, a elogiável sobriedade e bom-humor ao narrar uma história trágica parece também estar ligada, muitas vezes, a uma preguiça estilística e um desejo de ser agradável ao espectador. Isso pode ser notado no uso medíocre de determinados campos/contracampos e na trilha sonora povoada de folks acústicos indies que buscam criar uma atmosfera simpática para os personagens, bem ao contrário da trilha sonora desafiadora de Paranoid Park. Mas, em se tratando de um diretor de imenso talento como Gus Van Sant, o filme também possui momentos de êxito. Um deles é o longo plano do casal de protagonistas a conversar diante do túmulo dos pais de Enoch. Outro são as cenas passadas no hospital, principalmente no contraponto do, aparentemente, frio médico, nas quais uma atmosfera de drama e mistério se faz muitas vezes presente.
Se a crítica até aqui vê mais defeitos do que qualidades em Inquietos talvez se deva ao enorme grau de expectativa que o cinema de Gus Van Sant provoca. Nos últimos anos, ele promoveu um mergulho radical em direção a novas formas narrativas e de estilo, que renderam um quarteto de filmes, sem paralelo no cinema americano dos anos 2000, por sua coragem em ser contemporâneo, buscando as formas adequadas para uas narrativas de personagens e tempos um tanto distópicos na América de George W. Bush. Se a chegada de Obama ao poder fez o cinema de Gus Van Sant ficar mais adocicado, é hora, haja vista o que ocorre na política e na economia americanas, do cineasta recuperar a força de suas imagens viscerais.