Quando anoitece, Itália, 2011, Cristina Comencini

O início de Quando anoitece (Quando la notte) me enganou bastante na sessão de sexta-feira à noite no cinema Odeon, na Cinelândia, Rio de Janeiro, Festival do Rio. Fui até o antigo cinema no centro da cidade preparado para assistir ao último filme de Abel Ferrara, 4:44 Last day on Earth e, poucos minutos antes do início da sessão, sou informado de que ele não seria exibido por problemas técnicos. Fiquei então sabendo que o filme de Ferrara seria substituído por um filme italiano que havia estreado no último Festival de Veneza. Expectativas frustradas com a negativa da exibição de Ferrara, expectativas renovadas para a exibição do filme desconhecido.
O início de Quando anoitece não traz grandes esperanças ao espectador. Imagens de uma jovem mãe (Claudia Pandolfi) e um filho de dois anos viajando até uma casa semi-abandonada nas montanhas. Trilha sonora e atmosfera de suspense deixam impressão de que o que estou prestes a assistir é mais um thriller rotineiro. Na casa vive um homem solitário, que trabalha como guia de turismo. Ao ver entrar em cena o rosto do grande ator italiano Filippo Timi, no papel de Manfred, dono da casa em que passavam férias a mãe e a criança, alguma esperança de que o filme pudesse superar a mera rotina de um thriller razoavelmente bem feito (o que já é muita coisa) passava por minha mente. Lembrava-me de Fulippo no grande Vincere, excelente filme de Marco Bellochio, no qual ele interpreta o papel duplo de Mussolini e seu filho bastardo, que acaba louco. Mas a câmera que não parava quieta um minuto nos corpos e objetos dos planos ainda me deixava com a impressão de que Quando anoitece seria mais um desses filmes que poderiam ser decentes caso não buscassem um estilo que não é estilo, sendo somente uma diluição de modas narrativas do cinema contemporâneo.
No entanto, em um determinado momento da narrativa, parece que a diretora encontra o porquê de ter feito o filme que estou a assistir. Quando o casal de protagonistas vai, juntamente com a criança, visitar a pousada do irmão de Manfred no alto das montanhas, o suspense barato e a câmera tatibitate vão deixando de ser os elementos primordiais do filme. O erotismo recalcado do casal passa a dar o tom da narrativa, fazendo com que Quando anoitece seja muito mais, a partir de então, o drama romântico de um amor impossível do que um thriller pseudo-contemporâneo.
Quando anoitece caminha, assim, para uma conclusão bastante surpreendente, em se tratando de um filme que, no seu início, pouco prometia além de uma narrativa trivial cheia se cacoetes. Não sem evitar alguns erros durante o percurso, o filme acaba por atingir o potencial emotivo desejado por sua diretora, quando ela deixa sua câmera estar a serviço dos corpos dos atores e dos dramas que vivem em cena.
Trailer do filme:


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